Artes visuais

Exposição de Jeff Alan é mergulho na própria ancestralidade

Memória e valorização da ancestralidade são temas que movem Alan e estão nas 22 pinturas expostas

Nascido e criado no Bairro do Barro, na periferia de Recife, o artista Jeff Alan passou um tempo debruçado sobre a produção de uma pintura abstrata orgânica que agradava arquitetos e designers. Fez sucesso com as obras mas, quando teve início a pandemia, sentiu vontade de mudar o foco. "Esse trabalho abstrato me deu reconhecimento, mas não era suficiente para mim, queria me sentir representado pelo que fazia, não pelo ato de fazer, mas de me enxergar nas obras, tanto eu quanto meus ancestrais, explica. "No início da pandemia, comecei a fazer retratos de pessoas do dia a dia, do meu bairro, pessoas em situação de rua, com intuito de despertar o sentimento nos equipamentos de cultura", diz. Essas pinturas integram agora a exposição Comigo ninguém pode, em cartaz na Caixa Cultural.

Memória e valorização da ancestralidade são temas que movem Alan e estão nas 22 pinturas expostas. São retratos de pessoas conhecidas do artista, habitantes do bairro no qual nasceu e cresceu e representantes de um enorme álbum de família que Jeff quer, simbolicamente, recuperar. "No início, eu busquei dar visibilidade para essas pessoas e despertar o sentimento de pertencimento, fazer com que elas se enxergassem nos equipamentos de cultura", diz. "Queria que eles olhassem para minhas obras como se olhassem para um espelho.

A ideia dos retratos vem de uma observação que o artista realizou levando em conta a história da própria família. "Essa exposição também vem da ausência de um álbum fotográfico da minha família materna, não tenho registro da minha mãe na infância e isso é muito comum na família negra, é muito difícil ter registro", conta. "Já da família do meu pai, que não é negra, tem registro de toda a vida deles. Então, passei a criar nosso próprio álbum de fotografias". Além disso, Alan lembra que a cultura negra não está suficientemente representa-da nos equipamentos culturais de forma geral. "Não me sentir representado nesses equipamentos foi também o que me levou a esse trabalho. E tem obras que dou um banho de vermelho como se fosse um banho de sangue, porque minha obra é fruto de muita revolta e insatisfação."

O título da exposição é o nome de uma planta muito comum no Bairro do Barro, fonte de inspiração para o artista, mas também carrega a ideia de um grito. "Aqui é o caminho para a cidade, tem muitas escolas de periferia, é o caminho para o metrô, aqui é o caminho dos sonhos", garante Alan, que acredita na arte como forma de criar vínculos entre a população da periferia e as instituições.

Comigo ninguém pode

  • Exposição de Jeff Alan.
  • Visitação até 31 de maio, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural Brasilia (Setor Bancário Sul, Quadra 4, Lotes 3/4).
  • Classificação indicativa livre

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