
A confluência de saberes envolvidos nos projetos que resultaram nos edifícios do Eixo Monumental foi o ponto de partida para Carlos Henrique Magalhães de Lima escrever Monumental, que será lançado nesta terça-feira (28/4), no Beirute da Asa Sul, e nesta quarta-feira (29/4), na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (FAU/UnB), na qual o autor é professor. A partir de uma pesquisa detalhada no Arquivo Público do Distrito Federal (APDF), no qual trabalhou, Magalhães busca reconstituir as diretrizes que deram origem a pontos importantes do Eixo Monumental e faz uma análise, com a perspectiva contemporânea, de como o espaço acabou inserido na cidade.
A ideia da pesquisa surgiu em um trabalho anterior, quando o arquiteto produziu Catedral: projeto e obra, publicado em 2024. "A pergunta orientadora era: como houve, naquele momento, uma confluência de saberes? Não querendo, claro, diminuir o gênio criativo do Oscar Niemeyer e a capacidade do Lucio Costa", explica. Ele lembra que as equipes de engenheiros e arquitetos que trabalharam na construção da cidade eram grandes e formadas por nomes que ajudaram a construir a história da arquitetura moderna e contemporânea.
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Uma entrevista com o arquiteto Eduardo Negri feita para complementar informações para o livro A invenção da superquadra, dos arquitetos Marcílio Mendes Ferreira e Matheus Gorovitz, acendeu a luz para a importância desse fato. "Eduardo Negri fez vários edifícios residenciais em Brasília, foi ele quem fez o desenho técnico da catedral. Isso me deixou encucado e resolvi fazer o livro pensando nessa confluência de trabalhos desde a concepção do projeto, até a execução do canteiro, que é muito primorosa e impressionante no contexto de tantas adversidades nos canteiros de obras da construção da cidade. Isso me deixou curioso a respeito dos saberes, dos fazeres."
Pensando na combinação de ofícios, no desenho como uma dimensão muito específica do trabalho da arquitetura, numa época em que pranchas e papel vegetal eram a base do trabalho do arquiteto e a capacidade de representar e levar um desenho para obra eram saberes compartilhados, Magalhães decidiu investigar o Eixo Monumental. Alguns aspectos ganharam destaque, como a vocação inicial dos arredores da Torre de TV para um parque, a Rodoviária como um ponto de confluência, o Touring Clube, os projetos da fachada do Teatro Nacional, idealizados por Athos Bulcão, e o Itamaraty. Muitos desses projetos foram redesenhados para recuperar as pranchas originais e para colocar em evidência a coletividade que possibilitou suas execuções. "São alguns edifícios que, seja por meio das fotografias ou dos desenhos, dá para ter a dimensão do trabalho coletivo envolvido", explica. "A paginação do mural do Athos Bulcão do Teatro Nacional, por exemplo: o desenho técnico foi realizado por seções. Foi um trabalho difícil de fazer caber no nosso orçamento, porque houve um volume muito grande de arquivos de desenho e foi preciso fazer um corte."
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Magalhães também recuperou outras histórias, como o desejo de Burle Marx de fazer um parque entre os Ministérios, ideia vetada por Lucio Costa, e as diferenças que marcam os trechos Leste e Oeste do Eixo Monumental. "O eixo começa de um jeito e termina de outro. Há muito debate sobre sua organização e eu queria levantar um pouco esse debate, não só para o público especializado, mas para quem é interessado no espaço da cidade", diz o arquiteto.
Serviço
Monumental
De Carlos Henrique Magalhães de Lima. Editora Nada- Estúdio Criativo. R$ 50
Um olhar diferenciado
Foi uma encomenda que levou o pesquisador Alexandre Benoit ao arquiteto Wilson Reis Netto, integrante da equipe da Novacap liderada por Niemeyer para erguer a nova capital, nos anos 1950. Guardiã de um arquivo enorme sobre o arquiteto, a sobrinha de Netto, Bettina Lenci, acreditava que a trajetória do tio poderia contribuir com a história de Brasília, mas também revelar um personagem cujo olhar moderno foi importante para a arquitetura brasileira. O resultado está no recém-lançado Tempestade tropical — de Brasília à praia do Forte, a trajetória de Wilson Reis Netto.
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Netto foi um dos fundadores da seção do Distrito Federal para o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), projetou a Embaixada do Senegal e a escola da 114 Sul e era autor de um projeto de parque ao redor do Lago Paranoá que nunca chegou a ir adiante. Também foi autor do projeto de urbanização da Praia do Forte, na Bahia. “Ele era um arquiteto que se apaixonou pelo caráter pioneiro da cidade. Até no final da vida, quando vai fazer a Praia do Forte, é uma nova Brasília, de pau a pique, mas ele busca esse sentimento”, explica Benoit. “E outra coisa é que ele é um arquiteto gay assumido, e nesse sentido ele é pioneiro também, venceu muitas barreiras, porque não era fácil, num meio masculino e hostil, ele se manteve firme. E pagou por isso, a saída de Brasília foi uma perseguição política a homofóbica.”
O arquiteto morou em Brasília entre 1957 e 1967. Em 1975, ele retornou para acompanhar a obra da Embaixada do Senegal, comissionada pelo governo do país africano, então dirigido pelo poeta Léopold Sédar Senghor. Ficou até 1977. “O Wilson é um personagem multifacetado, uma figura extrovertida, difícil de apreender e, até por isso, andava meio esquecido, muito embora tenha, em vida, usufruído de um grande prestígio”, conta Benoit.
Serviço
Tempestade tropical — de Brasília à praia do Forte
De Alexandre Benoit. Editora Escola da Cidade, 192 páginas. R$ 74
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