No começo da década de 1980, um jovem paraibano deixou o interior rumo à capital, com algumas canções na bagagem. As mudanças se resumem no rebatismo artístico. Cesinha virou Chico César e, aos 16 anos, amalgamou influências que iam de Ednardo, Geraldo Vandré e Gilberto Gil a Egberto Gismonti, Ravi Shankar e Nusrat Fateh. "A semente do compositor que sou estava plantada em Catolé do Rocha, mas João Pessoa adicionou elementos à panela", relembra o músico.
É a essas origens que Chico César retorna no disco Fofo, lançado neste mês, feito de composições da juventude e pequenos acréscimos. "Cada canção era resultado dos aprendizados até ali. Muitos deles ficaram. Hoje ainda tenho gosto pela invenção, de jogar com as palavras e de buscar títulos provocadores", compara.
Entre a migração para São Paulo, em 1985, e o primeiro disco, Aos vivos, foram 10 anos. O formato voz e violão, utilizado naquele pontapé inicial, é outro fator que se repete agora, em Fofo. "Quando cheguei, sozinho, naquela época, talvez essas canções não encontrassem o público da melhor maneira", reflete Chico César.
No atual estágio da carreira, como acrescenta, ele percebe maior capacidade de pavimentar o caminho para composições tidas como densas. "Trago mais público para essas canções do que elas para mim." Ao Correio, o artista compartilhou a investigação do passado que resultou no resgate do álbum Fofo, cuja marca é o contraste "indissociável" da ternura e da aspereza de viver.
O material do novo álbum remete às suas origens, músicas que já estavam prontas.
Por que lançá-las agora?
Ano passado, fiz turnê de 30 anos de Aos Vivos, com voz e violão. Isso fortaleceu muito a minha conexão com os instrumentos, com esse tipo de apresentação. Foram mais de 70 nesse formato. À medida que eu ia ganhando a estrada, ia me lembrando de certas músicas lá de trás, da adolescência, que eram complexas, difíceis de tocar. Pensei, poxa, o melhor de uma turnê voz e violão é quando a mão está bem treinada. Por que não fazer um disco?
Então as músicas não estavam guardadas em algum arquivo?
Não, estavam soltas na memória. Eu ia me lembrando, recorri a alguns amigos, consultei fitas cassete da época, Paulo Ró me mandava. Profano, por exemplo, foi gravada por Lula Queiroga e Lenine, no primeiro disco do Lula Queiroga, ao vivo no estúdio. Os dois cantam à capela e eles me chamaram depois. Achei tão bonito que não quis mexer. Apenas bato palma e digo parabéns no final da faixa. Saudade Senhora Dona também estava em um disco, do cantor Xangai, que se chama Um Abraço Pra Ti Pequenina. Fora essas duas, não havia gravações.
Você citou o Paulo Ró. Que marcas a banda Jaguaribe Carne deixou no seu DNA musical?
Cheguei a João Pessoa com 16 anos para cursar o terceiro colegial. Antes, eu fazia parte de um grupo chamado Ferradura, lá na minha cidade, em Catolé do Rocha. Eu já tinha muitas influências. Ednardo, Fagner, Gil, Caetano Veloso, Jackson do Pandeiro. Ao conhecer o Jaguaribe Carne, conheci uma faceta brasileira que eu não estava atento, uma coisa mais experimental, instrumental, como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal. A música indiana, paquistanesa também. Eram músicas muito diferentes, de vanguarda, que estavam fora do meu radar. Pedro Osmar e Paulo Ró, que me adotaram, viram o meu talento. Fundamos o Jaguaribe Carne. Até hoje sofro influências éticas e estéticas dessa banda.
O retorno ao princípio de tudo é uma boa forma de alcançar novos públicos?
Essas canções mais afastam do que aproximam (risos). Não são feitas para atrair. O artista que sou hoje me deu essa possibilidade de conseguir público para essas canções que, quando cheguei a São Paulo, naquela época, talvez não conseguisse. O caminho entre o público e as canções sou eu. Trago mais gente do que elas para mim. Em shows, por exemplo, costumo intercalar as novas com os clássicos. Assim construo pontes.
O que o jovem inventivo daquele momento acrescenta ao seu processo de composição ainda hoje?
A semente do que eu sou já estava plantada desde Catolé do Rocha, mas João Pessoa acrescentou elementos à panela. A experimentação com o Jaguaribe Carne. Isso permanece. Esse cara que eu era, o Cesinha, que chegou e foi rebatizado, por Pedro Osmar, inclusive, foi muito impactado. Cada canção era resultado dos aprendizados até ali. Hoje me sinto menos ansioso. Ainda tenho esse gosto pela invenção, gosto de jogar com as palavras, de buscar títulos provocadores, mas cada vez mais me sinto tranquilo em relação à necessidade que a música tem de comunicação, de dialogar com as pessoas.
Parece que o disco de alguma forma ironiza a ideia de ternura e fala da aspereza de viver. O que acha dessa interpretação?
Acho que é mais um abraço, um cafuné, um dengo na dureza, como diz a frase do Che Guevara: "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás". Então, é isso, às vezes temos que abordar temas dolorosos, duros, com leveza e humor. É algo que fui aprendendo. Talvez o jovem compositor que fui tenha apresentado a dureza e a leveza juntos, como se fossem coisas inseparáveis. Como de fato são. Não somos nem uma coisa nem outra. Acho que as canções e a arte vêm para iluminar ambos os lados. É o que a faixa-título aborda: "Ser legal é legal, mas ser legal o tempo todo é uma mentira", como diz o verso.
Essa música tem uma citação da escritora Chimamanda Ngozi. Por quê?
Eu estava em Paris depois de gravar o álbum Vestido de amor, em 2022, com o livro Americanah. A certa altura, a protagonista diz para um personagem que ele é fofo, e ele responde: 'Eu não quero ser fofo, quero ser a porra do amor da sua vida". Parei imediatamente e compus a canção. Ela me levou para o momento político que influenciou muito aquele jovem compositor. Pensei, bom, aí tem uma música inteira.
*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco
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