Aos 24 anos, João Victor Gonçalves acaba de viver um daqueles momentos que marcam a vida de qualquer ator. A ligação veio da produtora de elenco Dani Ciminelli. Do outro lado da linha, a notícia: ele havia sido escalado para integrar o elenco de Quem ama cuida, sua estreia em horário nobre na TV Globo.
"Fiquei completamente sem reação. É inacreditável receber uma ligação dizendo que você vai integrar o elenco de um novelão como esse. Chorei horrores de felicidade", emociona-se, lembrando o choro de um menino que começou no teatro aos 9 anos e que, agora, alcança um dos maiores palcos da dramaturgia brasileira.
Para viver Mau Mau, João Victor deixou São Paulo e passou a morar no Rio de Janeiro. "Mudou completamente. A rotina de gravação de novela é muito intensa, com muitas cenas diárias, além de toda a necessidade de estudo dos capítulos novos que chegam toda semana", relata. É um ritmo puxado, mas que ele encara com a disciplina construída ao longo de 10 anos na companhia Os Menestréis, idealizada por Oswaldo Montenegro. "Acho que o que mais levo comigo é a disciplina que aprendi: chegar no horário, estar sempre pronto para agir sem medo do erro e permanecer disponível em cena. São virtudes que carrego para a vida", destaca.
Busca pela identidade
Mau Mau, seu personagem na trama, é descrito como alguém sensível, afetuoso e profundamente ligado à família. Filho de Elisa (Isabella Garcia) e irmão da protagonista, Adriana (Letícia Colin), ele enfrenta conflitos importantes ao longo da história, especialmente no que diz respeito à identidade e à busca por aceitação dentro de casa — incluindo momentos de preconceito vindos do avô Otoniel, vivido por Tony Ramos. A construção do personagem, no entanto, poderia ter seguido um caminho mais previsível: "Foi um processo muito interessante. No início do projeto, pensamos em seguir pelo caminho mais esperado, que seria o estereótipo, mas percebemos que isso reforçava padrões dos quais queremos fugir", defende.
O resultado é um personagem que, nas palavras do ator, representa a liberdade de ser. "Quero que o Mau Mau possa inspirar jovens a sonharem com novas oportunidades e a se libertarem das travas impostas pela sociedade, que muitas vezes impedem as pessoas de serem quem realmente são", conclui o jovem que, para dar verdade e profundidade a Mau Mau, buscou inspiração em vivências reais. "Eu acompanhei de perto, em uma relação que vivi, essa busca silenciosa por aceitação dentro de casa. Ter passado por isso me ajudou muito a emprestar esse sentimento ao Mau Mau", resume.
Sensibilidade e versatilidade
Essa sensibilidade, aliada à sua formação teatral, permite que ele transite com naturalidade entre gêneros e estilos muito distintos. Antes da novela, o ator viveu Jorge Amado no espetáculo Marighella – O homem que não tinha medo e também interpretou Eliot Clock, anfitrião da casa Lufa-Lufa, na experiência imersiva Harry Potter: O Grande Baile Tribuxo.
“É um prazer e também um grande desafio. Representar a vida de forma realista e natural é muito difícil, porque na vida real o natural simplesmente acontece, sem roteiro. Então, seguir um texto e, ainda assim, conseguir entregar esse naturalismo é sempre desafiador”, explica. Sobre a mudança entre um trabalho e outro, ele revela um cuidado especial: “Sempre que termino um trabalho, tento me reconectar comigo mesmo para não levar rastros de um personagem para o outro”.
Nas redes sociais, João Victor mantém uma base de seguidores engajada que acompanha sua trajetória há anos. “Meu público ficou completamente empolgado. Eles acompanham minha rotina como ator há muito tempo, conhecem as dificuldades e todos os desdobramentos necessários para viver de atuação no Brasil. Me verem nessa oportunidade fez com que se sentissem parte disso — e eles realmente são. Sem apoio e incentivo, ninguém chega a lugar nenhum”, comemora.
Sobre o impacto que a novela pode ter em temas como aceitação e preconceito, o ator se mostra consciente do alcance da obra, mas sem pressa. “A novela estreou na segunda-feira, e ainda não chegamos nesse momento da trama. O público ainda não viu a luta do Mau Mau, mas tenho certeza de que vou receber muitas mensagens e estou animado para trocar com cada espectador”, aposta.
Ao final da conversa, convidamos João Victor a olhar para trás — para aquele menino de 9 anos que deu os primeiros passos no teatro. A resposta veio rápida e carregada de emoção: “Com toda certeza eu diria: ‘Nunca se esqueça de quem você é e de onde você veio. Continue sonhando e acreditando, porque essa conquista é toda sua.’”, finaliza.
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