Música

Nação Zumbi é confirmada como uma das atrações do 27º Porão do Rock

Ao lado de Dead Fish, Pennywise e Angra, banda pernambucana volta aos palcos da capital federal; leia entrevista exclusiva com Jorge du Peixe

Um clássico na capital, o festival Porão do Rock chega a mais uma edição de muita pauleira no estacionamento da Arena Mané Garrincha. Para este ano, o line up reúne bandas icônicas nacionais e internacionais,  hoje e amanhã. No sábado, o festival terá Pennywise, grupo dos Estados Unidos, Angra e Kiko Loureiro, Dead Fish, Galinha Preta, entre outros. Para o domingo, os destaques são Nação Zumbi, Tribo da Periferia, Marcelo Falcão e Scalene. 

Jorge du Peixe, vocalista do Nação Zumbi, acredita que os festivais, como o Porão do Rock, são essenciais para manter a música autoral e de outros estados em destaque. O artista conversou com o Correio sobre o grupo e sobre o impacto político que a música ainda pode exercer, os 30 anos do álbum Afrociberderlia, o estado de distopia e os sinais alentadores de utopia.  

Entrevista // Jorge Du Peixe 

O que tem inquietado vocês com esse retorno aos palcos e quais elementos estão trabalhando atualmente?

Na verdade, nós nunca paramos. Estamos finalizando um disco novo, que pretendemos lançar no segundo semestre. Este ano completam-se 30 anos do nosso segundo disco com o Chico Science, o Afrociberdelia. Estamos levando esses shows para algumas capitais, mas não será o show do Porão do Rock. Aqui será um show de carreira, abrangendo vários discos. É um prazer participar de um festival importante que dá suporte à música autoral brasileira há 28 edições. Também temos projetos paralelos, como o Los Sebosos Postizos, que está tocando bem. Estamos na correria. Este novo disco autoral encerra um hiato de cerca de 12 anos sem disco. Estamos gostando de como ele está soando. Nesse meio tempo, continuamos na estrada com shows e festivais.

A banda sempre foi um meio de conscientização. Como você percebe a música atualmente? Acha que ela ainda tem o papel de provocar mudanças?

A música e a cultura têm força política. Elas são um grito, ou melhor, vários gritos. Ainda existem gêneros de maior contestação. No Brasil, muita gente ainda dá esses gritos, contesta e cobra, seja metaforicamente seja diretamente nas letras. Isso é perceptível inclusive na gama de artistas independentes, a independência proporciona esses gritos. Além disso, há os grandes artistas que vieram dos anos 1970 e perduram como uma força. Quando é preciso ir para as ruas, alguns deles ainda dão suporte e gritam junto com o povo. Em um país que está como uma maré, puxando para lá e para cá o tempo todo, em meio a tantas adversidades e polarizações, é de grande importância que esse grito seja dado.

O álbum Da Lama ao Caos, causou uma mudança no cenário musical global. Como você acha que o disco reverbera atualmente, com mais de 30 anos?

O disco continua atual. É um trabalho bem aceito para o seu tempo. Ele traz elementos da cultura popular, mas não da maneira tradicional. Usamos três tambores de maracatu, mas nunca nos denominamos uma banda de maracatu; fazemos uma reverência. Viemos da ideia das batidas, ouvimos muita coisa da diáspora africana. Eu e o Chico éramos B-boys, dançávamos break. A fotografia de tudo isso vem de enxergar o que estava à nossa volta. Pernambuco tem muitos gêneros comandados pelo maracatu e pelo baião. Com o tempo, o país passou a olhar mais para o seu próprio lugar. Belém e Rio de Janeiro têm seus próprios gritos.

O Brasil ainda tem muita coisa para ser descoberta. O frevo, por exemplo, é um gênero secular e frenético pouco conhecido dentro do país; muitos jazzistas o estão descobrindo agora. O maracatu também ficou mais conhecido após esse "grito", e hoje vemos tambores em vários lugares, como em São Paulo e Brasília, que possui nações de maracatu e festivais independentes com essa presença.

Esse disco (Da Lama ao Caos) é muito cru e orgânico. Há um grito social nas letras. Existe uma diferença entre ele e o Afrociberdelia, que faz maior uso de tecnologias, mas o nosso mote sempre foi trazer o novo e nunca nos repetirmos. Esse é o compromisso que temos conosco. O disco foi eleito um dos mais importantes dos últimos 40 anos por jornalistas. Na época do lançamento, não teve tanto impacto imediato, mas com o tempo as pessoas perceberam coisas que estavam à frente daquele período. Hoje, ele é respeitado mundialmente. Continuamos tocando e trazendo essa geografia sonora.

O manguebeat colocou Recife no mapa. Como vocês enxergam a música pernambucana atualmente?

Ela é muito vasta. Às vezes, não consigo assimilar de uma só vez a quantidade de gêneros que Pernambuco oferece. A ideia do mangue foi uma analogia à diversidade de ritmos locais. O mangue tem essa biodiversidade: quando a maré baixa, tudo se transforma. É um bioma importantíssimo para a sustentação do planeta. É na lama que as coisas se renovam. Calçados nessa metáfora de novos processos criativos, vemos muita gente nova fazendo música em casa e lançando bons discos. Muita gente foi influenciada por esse grito, depois disso vieram movimentações maiores em outros estados do país. É importante dar um tratamento maior para a música de cada estado. É fundamental que as gestões deem suporte e apoio cultural.

O festival, por exemplo, é uma sustentação, um tipo de resistência cultural. O Porão do Rock está dando um suporte à música de outros lugares do Brasil e isso só apoia ainda mais a música autoral do país, servindo como uma grande vitrine tanto para bandas que estão começando quanto para as que já têm estrada.

Como Brasília entra na história de vocês? Vocês eram conectados com a cena musical daqui, que era forte no rock?

Todo mundo ouvia as bandas de Brasília nas rádios. Legião Urbana, Plebe Rude. Fomos a alguns shows no Circo Voador em Recife na época. Ouvíamos o Ira também,  do rock de São Paulo. Consumimos tudo, dançamos, cantamos. Conheci o Chico por volta de 1983. Éramos jovens e ouvintes com muita fome de ouvir coisas novas.  O modelo de "baixa tecnologia" e longo alcance na época era a fita cassete. Hoje, as playlists são fáceis, mas naquela época a fita era um cartucho de informação, mesmo com chiados. Além disso, havia os vinis. Até hoje pesquiso vinis e compactos; é uma pesquisa que não acaba nunca. Tem que ter três vidas para achar tudo daquela época da música. Tem que ter cuidado, senão você fica sem dinheiro.

Em um mundo que parece tão distópico, você vê algum sinal de utopia?

É um mundo distópico mesmo, estilo Blade Runner. Só não temos carros voadores ainda. Existe a escuridão da situação e a própria escuridão da rede. A rede é uma ferramenta que, sem cuidado, faz guerra e separa o mundo. Existem facilidades, mas, às vezes, tudo se torna fácil demais. Alguns fazem música com robôs, mas eu prefiro o orgânico, o feito pelo humano, o feeling. A novidade traz possibilidades, mas a distopia veio para ficar. Estamos em um mundo sombrio. É complicado ver países e povos sendo dizimados aos olhos do mundo sem que ninguém tome providências. Vivemos uma era de absurdismo e atrocidades. É bizarro.

 

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