ENTREVISTA

MV Bill celebra três décadas em álbum que traz músicas icônicas

Em entrevista ao Correio, o rapper analisa a evolução do rap, a separação comportamental e a urgência de se valorizar a cultura no Brasil

MV Bill celebra 30 anos de carreira -  (crédito:  Thiago Maurilio)
MV Bill celebra 30 anos de carreira - (crédito: Thiago Maurilio)

A paixão pela arte e o frio nabarriga nunca cessam, não importa quanto tempo passe. E o ator, escritor e músico MVBill sabe bem disso. O novo álbum MV30 — 30 anos em movimento celebra as três décadas de uma história que continua provocando o país.

O artista, agora, comemora não apena sa própria longevidade, mas a capacidade de ver sua obra transitar por diferentes gerações e manter-se atual na representação da realidade das favelas brasileiras. Mais do que olhar para trás com nostalgia, ele se projeta para o futuro com a autonomia de quem escolheu o caminho da independência.

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Em entrevista ao Correio, o rapper analisa a evolução do gênero, a separação comportamental e musical entre o rap raiz e o trap,e a urgência de se valorizar a cultura como um motor econômico e social que, na visão de MVBill, é capaz de salvar vidas.

Você está lançando um álbum para celebrar 30 anos de carreira. Ainda tem friozinho na barriga para momentos como esse?

Acredito que a fase do frio na barriga nunca passa. Enquanto você tem paixão pelo que faz, esse sentimento sempre está presente. Mas aparece de uma forma boa, ele é positivo. Estou com uma expectativa legal, porque percebo que muitos fãs, principalmente os mais antigos, às vezes não conseguem transitar pela plataforma musical e achar os discos e as músicas que eles querem. Então, acredito que essa compilação, além de comemorativa, ajuda a dar um panorama para o fã e a dar um pouco mais deacesso à minha obra no geral.

O seu álbum é comemorativo de 30 anos de carreira. O MV Bill do passado imaginou que chegaria tão longe?

Sempre tive grandes pretensões. Mas, na sinceridade, nunca acreditei que a longevidade, nem do rap ou da vida pudesse me trazer aqui. Venho de um contexto social de muita violência. Naquela época, quando a gente via uma pessoa de 30 anos, já era uma pessoa muito vivida, muito velha e, às vezes, estava perdendo a vida. É muito maneiro estar falando para uma outra geração. Às vezes, quem apresenta o meu trabalho para uma pessoa de 25 anos é um irmão mais velho, uma mãe, um pai, um tio. É muito bom poder trazeresse trânsito geracional.

E quais são as temáticas que você traz para esse projeto?

Nesse projeto, eu quis pegar as músicas mais icônicas, que eu acho que chamaram mais atenção das pessoas ao longo desse tempo todo. Reuni todas num disco só e coloquei duas inéditas. Queria começar essa nova fase junto da Symphonic Brasil e com a Virgin, que são as empresas que estão dando suporte, trazendo essas músicas do passado, um passado não tão passado assim, que dá um panorama do que é a minha carreira. Que mcair de cara com esse disco vai ter um raio x do que é a minha carreira no geral.

Como é jogar ao mundo essas criações musicais, sabendo que tantas outras pessoas mais novas vão escutar isso agora?

Para mim, é uma chance de mostrar como eram algumas favelas há um tempo atrás. E, infelizmente, boa parte daquele recorte que está ali, por exemplo, em Soldado do Morro, é muito parecido com o que acontece nos dias de hoje. Gostaria mesmo é que essas músicas deixassem de fazer sentido, que a realidade mudasse totalmente e a gente só lembrasse disso de forma nostálgica. Mas não, é uma lembrança de que é uma página que a gente ainda não avançou. O rap é um dos ritmos musicais que melhor conta como erao fim dos anos 1990, início dos anos 2000, para as favelas do Brasil.

Esse projeto de celebração vai sair em turnê pelo Brasil?

Existe uma ideia, sim. Só que as turnês no Brasil, no mercado do entretenimento, não são fáceis de conquistar, principalmente pela cena independente. Tenho lugares mais distantes, cidades fora do eixo, onde as passagens aéreas são absurdamente mais caras e os voos são escassos. Mas existe um projeto que eu gostaria muito de realizar, lançar um disco como esse e poder rodar parte do país fazendo essas músicas especificamente.

Como você percebe a evolução do rap nacional? O que mudou e o que ainda precisa melhorar?

Tem outras vertentes que acabaram aparecendo bem, como o trap. A realidade é que o trap leva a cena para um outro lugar, de explosão, mais exposição e mais ganho financeiro, mas também para um lugar mais pop e menos compromissado. Eles ocupam espaços em festivais onde o rap mais tradicional, mais raiz, como eu faço, às vezes não chegava. Só que também tiveram que ganhar esses contornos de música pop. O que tento deixar para os ouvintes é que tentem se inteirar sobre toda a cena e não se guiem tanto pelas playlists, que às vezes, são montadas de acordo com o gosto de quem faz. E nem pelas páginas de rap, que às vezes só trazem o nome, mas as notícias são sobre compra de carro, fofoca e relacionamento, em vez de avisar quem está lançando disco ou clipe. Hoje, vejo trap e rap como coisas separadas, distintas musicalmente e comportalmente. 

Você é escritor, músico e atua bastante. Como funciona a cabeça produtiva do artista que está em todas as camadas artísticas?

O primeiro é muita paixão pelo que faço. Mas a música é o fio-condutor, tudo começa a partir dela. Se consigo atuar, foi porque a música me levou a esse caminho, inspirada em referências que eu gostava e também atuavam, como Will Smith, Ice Cube, Lauryn Hill e Queen Latifah. A parte de literatura, o livro, me deu mais visão de mundo e me mostrou que eu poderia ser uma exceção dentro de uma regra. Quem lê mais acaba escrevendo melhor. Como meu trabalho trata de Brasil, quando faço palestras ou partici pode feiras literárias, consigo atrair um público que certamente não estaria em uma festa de rap, mas senta ali para desenrolar sobre os assuntosdas letras.

Qual é a responsabilidade e a pressão de saber que você é uma figura representativa para tantas pessoas? 

Na verdade, eu prefiro ser meio“sem noção” disso, sabe? Sem noção você não fica envaidecido, e faço sem pensar no retorno, o que acaba ficando mais verdadeiro. Agora, tudo isso me leva a uma‘responsa’. Quando um pai diz que bota a música Falcão para ouvir com os filhos e discutir a realidade da favela, isso mexe comigo. É inevitável ir para o estúdio e não pensar nesse pai e nessa filha. Acaba criando um senso crítico maior e uma responsabilidadede saber que não estou mais falando só para os manos do rap, mas também para crianças e dentro de escolas públicas.

Quão importante é levar a cultura para as novas gerações, sobretudo por estar em cada vez mais presas ao celular?

Acho que a cultura no nosso país é muito subestimada. O artista em geral é visto muito de uma forma vagabunda, desocupada ou como se estivesse com a vida ganha. Mas a cultura gera muito emprego, gera bilhões. Quando saio para fazer um show, estou movimentando passagem aérea, aplicativo de transporte, quem vende gelo, bebida, pipoca e o cara do churrasquinho na porta. O nosso país infelizmente trata a cultura mal, de forma menosprezada, mas as pessoas não saberiam viver sem ela. Quem mais bate na cultura, provavelmente, é quem mais a consome na televisão, no streaming ou colocando música de fundo em vídeos da internet. Cultura engrandece o país, ajuda na economia e, aliada à educação, vira um grande canhão de inclusão. Salva vidas, literalmente.

 

  • MV Bill celebra 30 anos de carreira
    MV Bill celebra 30 anos de carreira Foto: Thiago Maurilio
  • O artista fala sobre as mudanças do rap nos dias atuais
    O artista fala sobre as mudanças do rap nos dias atuais Foto: Thiago Maurilio
  • O rapper acredita que a cultura é um motor importante para a sociedade
    O rapper acredita que a cultura é um motor importante para a sociedade Foto: Thiago Maurilio
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postado em 08/06/2026 05:01
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