
Djavan desembarca em Brasília, neste sábado, com a turnê dos 50 anos de carreira. Foram necessárias cinco décadas para que a primeira biografia a respeito do compositor alagoano tomasse forma, ainda que sem autorização. "É um pecado que tenha demorado tanto", diz o escritor e jornalista Tiago Ramos e Mattos, que lança, em agosto, o livro Djavan - Dizem que o amor atrai.
A biografia-reportagem, gênero que o próprio autor cunhou a partir de pesquisa de doutorado, reúne 200 declarações de Djavan à imprensa. As frases complementam trabalho escrito a partir de entrevistas com pessoas como dona Virgínia, mãe, e Djanira, irmã de Djavan. Histórias como a de um colega de sala que assinava a chamada para o músico iniciante ensaiar com a banda LSD e a de mulheres que insistem em dizer que namoraram o ícone da música popular brasileira estão descritas no livro.
Mattos não se furtou em incluir deslizes e desencontros com os fãs. Nada, no entanto que mudasse a percepção do autor sobre o artista. "Ele é realmente inconfundível, incomparável e tem convicções muito aprofundadas sobre o Brasil, sobre democracia e sobre a própria música". Em entrevista ao Correio, o jornalista antecipa resultados do mergulho na vida e na obra de Djavan.
ENTREVISTA // TIAGO RAMOS E MATTOS
De onde vem o interesse pela obra e pela vida do Djavan?
Quando eu tinha mais ou menos uns cinco anos de idade, meu pai deu o disco Luz, do Djavan, para a minha mãe. É um disco que depois veio a ter vários hits, com várias músicas lindas, como Pétala, por exemplo. Ouvindo aquele disco, eu tive a certeza de quanto o meu pai nos amava. Então, tudo começou ali.
Quando veio a ideia de escrever um livro sobre ele?
Fui a um show do Djavan em 2022 ou 2023. E eu fiquei absolutamente encantado com que vi, não sabia o quanto ele era bom ao vivo. E ali falei para a minha esposa na ocasião: “Eu preciso escrever alguma coisa sobre o Djavan”. Primeiro, pensei em escrever uma coisa menor, um artigo, mas essa pesquisa acabou se avolumando. O meu prazer em escrever sobre o Djavan cresceu muito. Então, o projeto vem desse show ao vivo.
Como foi a apuração das histórias que você apresenta?
Eu estive em Maceió, entrevistei o Marcelo Viana, que é sobrinho dele, filho da irmã dele, a Djanira, que contou histórias maravilhosas a respeito da relação da mãe com o Djavan. A mãe dele, dona Virgínia, também contou histórias interessantíssimas. Um amigo de infância, o Jalbas, disse que o irmão Alberto estudou com o Djavan e assinava a chamada para o Djavan, enquanto ele tocava com a banda LSD.
Que mais você descobriu?
Tem a história da música Farinha. Na música, ele diz que farinha boa é aquela que a mãe traz de Alagoas, mas a mãe a que ele se refere ali não é a dona Virgínia, mas a dona Djanira, irmã dele. Aliás, quando jantava na casa de Djanira, ele sempre perguntava se a farinha era boa, com caroço. Entre outras histórias também. Por exemplo, se diz que em cada esquina de Maceió ele tinha uma namorada. Sempre aparecem mulheres dizendo que namoraram Djavan, das quais ele não se lembra.
O que essa pesquisa de campo significou para a obra?
Entrevistar essas pessoas foi muito bom, porque complementaram algumas lacunas. O meu livro é uma biografia-reportagem. Então, ele nasce também dos enunciados que o Djavan disse ao longo da vida. Eu reuni mais ou menos 200 frases em vários meios de comunicação. As conversas elucidaram algumas dúvidas.
O que mudou na percepção que você tinha do artista antes e depois da pesquisa?
Confesso que fiquei bem envolvido com a parte discursiva do Djavan. Eu não conhecia a complexidade do discurso dele. Nesses meios de comunicação, ele fala sobre vários assuntos, sobre política, fala de Gorbachev, por exemplo. E a riqueza lexical, do discurso dele é uma coisa que que me chamou a atenção, o que justifica um pouco da complexidade poética também das músicas dele. Nada fez com que mudasse a minha percepção de que ele é realmente um artista inconfundível, incomparável e que tem convicções muito aprofundadas sobre o Brasil, sobre democracia e sobre a própria música.
O dever da biografia é também abordar aspectos indesejados, digamos.
Sim. A biografia de cada um de nós tem aspectos positivos e aspectos negativos. A do Djavan não é diferente. Então, tem muitas facetas para a gente mergulhar nessa biografia-reportagem. Na luta pela democracia, por exemplo, talvez ele tenha dado alguns escorregões. O apoio a Fernando Collor, que na época ele achava que seria uma boa opção. Também teve aquela declaração de que havia esperança, em 2018, logo após o Jair Bolsonaro ter sido eleito, que foi muito mal compreendido. Chamou atenção como ele djavaneia pela democracia e comete alguns deslizes.
Quais características definem o gênero biografia-reportagem?
É um gênero que descobri com a minha tese de doutorado. Nomeei esse novo gênero a partir de um livro chamado Silvio Santos a trajetória do mito, do Fernando Morgado, que caracterizei como sendo não uma biografia canônica, mas uma biografia-reportagem. É porque o Fernando Morgado naquele livro reuniu frases do do Silvio Santos. Desses enunciados, por meio da intertextualidade, nasce a narrativa biográfica. Então agora trabalhei aquela teoria na prática.
Mas qual é o recorte temporal?
Segundo Ruy Castro, uma biografia deve dar conta a princípio daquilo de tudo que se sabe sobre o biografado e depois daquilo que não se sabe. A biografia-reportagem tem uma estrutura que dialoga um pouco com a biografia canônica. Vai da infância até o presente. Então com o Djavan, chego até os 50 anos de carreira.
E no meio desse percurso?
A gente caminha pela chegada dele ao Rio, que foi um marco com o primeiro disco. O livro estabelece uma relação do Djavan com as artes plásticas, especificamente com o modernismo, porque o Djavan tem essa coisa da cor muito forte, nas músicas Azul, Lilás. Tem um capítulo só de curiosidades, como por exemplo o filme que ele atuou em 1983, que teve a trilha sonora do Tom Jobim e Patrícia Pilar como protagonista. A gente vai traçando essas curiosidades e amplia essas curiosidades com um adendo, coisas contadas pela família.
É uma biografia não autorizada?
Eu não tenho autorização tácita do Djavan. A gente não foi atrás dele para revisar, para ele ver o livro, para ele, enfim, dar opinião. Mas por outro lado é uma biografia parcialmente não autorizada, porque ela é construída muito fundamentalmente nos discursos diretos dele que ele diz ao longo desses 50 anos em vários meios de comunicação. Essas frases se articulam ao que escrevo.
Por que o público deveria conhecer mais da vida do Djavan? Qual é a importância dele para a música popular brasileira?
É um ato pecaminoso, para quem acredita em pecado, que o Djavan às voltas dos 50 anos de carreira, não tenha uma biografia escrita sobre a vida dele. Acho que ele é, ele é um dos maiores da música popular brasileira. É importante esse registro da vida do Djavan, porque ele representa não só o que há de melhor na música brasileira, mas o que há de melhor na música mundial.

Diversão e Arte
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