Literatura

Encontros e desencontros: como um hippie inspirou o livro 'O tardio'

"O mote do livro é a liberdade e a opressão, com referência a duas realidades que perduram", comenta o autor e jornalista Melo Júnior

A presença de um hippie na fila do banco, no início dos anos 2000, desencadeou estalo em Maurício Melo Júnior. "Esse rapaz está um pouco atrasado", pensou. A inquietação fez o escritor mergulhar no universo da contracultura. O resultado desse processo se revela no romance O tardio, que o autor e jornalista lança nesta quarta-feira (6/10), às 19h, no Beirute da 109 Sul, com sessão de autógrafos. 

A narrativa gravita em torno de Roberto e Sérgio, irmãos que não se conheceram. O primeiro aderiu, na década de 1970, ao movimento hippie, peregrinou por diferentes cidades e foi assassinado, enquanto o segundo leva vida confortável até que decide refazer o trajeto do irmão, 30 anos depois. Arembepe, Alto Paraíso, Trancoso, Pirenópolis e Lençóis são alguns dos cenários nos quais as histórias se passam. O autor visitou todos esses lugares, com método que se assemelha à apuração jornalística.

Guiado por cartões-postais, o personagem Sérgio busca resquícios da contracultura e encontra um mundo diferente, mas com traços inabaláveis. "O mote do livro é a liberdade e a opressão, com referência a duas realidades que perduram", comenta Melo Júnior. "Ele tinha a necessidade de reviver a aventura do irmão, que ele descobre ser um idealista." Na interposição das duas histórias, ficam evidentes os contrastes das duas épocas.

"Se nos Estados Unidos o grande foco da contracultura foi a Guerra do Vietnã, no Brasil ele toma dimensão política, quando uma geração se divide entre a luta armada e social." A causa da morte de Roberto, no entanto, é violência desvinculada de fatores políticos. No meio desse enredo, o amor aparece na figura de Caliandra, mulher hippie que carrega mistérios.

Jornalista e autor de literatura, Melo Júnior credita ao primeiro a disciplina e a descrença na ideia de inspiração, que norteiam o projeto literário. "Você tem que escrever, é ali que tudo surge. Minhas criações são centradas na realidade. Nesse sentido, ainda estou no movimento realista", define. Ele também publicou o livro de contos Sete solidões e os romances Noites simultâneas, Não me empurre para os perdidos e Sujeito oculto.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

 


Mais Lidas

Tags