COMPORTAMENTO

Coreia do Sul transforma cultura em soft power e se projeta no mundo

Apoiada por políticas públicas e indústria criativa robusta, Coreia do Sul usa música, cinema e séries como instrumento de influência global

BTS - Yet To Come acompanha os sete integrantes do grupo BTS no show realizado no Asiad Main Stadium, em Busan, Coreia do Sul. -  (crédito: Divulgação / Prime Video)
BTS - Yet To Come acompanha os sete integrantes do grupo BTS no show realizado no Asiad Main Stadium, em Busan, Coreia do Sul. - (crédito: Divulgação / Prime Video)

Por Mônica Cabañas

A Coreia do Sul transformou a cultura em um dos principais instrumentos de projeção internacional do país, consolidando um modelo de soft Power baseado na exportação de conteúdos culturais e na articulação entre Estado e indústria criativa. Os números mais recentes indicam a escala desse fenômeno: apenas entre janeiro e abril de 2026, o país recebeu 6,77 milhões de visitantes estrangeiros, o maior volume para o período, segundo dados do Ministério da Cultura da Coreia do Sul, em um avanço impulsionado pela expansão global do Hallyu (a onda coreana). O movimento acompanha a crescente internacionalização do K-pop, dos k-dramas e de setores como o K-beauty, que vêm redefinindo padrões de consumo e ampliando a presença cultural do país em diferentes mercados.

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A estratégia coreana se baseia no conceito de soft Power — a capacidade de um país de influenciar o mundo por meio da atração cultural, e não da força militar ou econômica. Essa lógica está ligada à chamada economia criativa, que engloba setores como música, cinema, audiovisual, design e literatura. Segundo a UNESCO, as indústrias culturais e criativas respondem por cerca de 3,1% do PIB global e 6,2% dos empregos no mundo, consolidando-se como um dos setores mais dinâmicos da economia contemporânea. É nesse contexto que a Coreia do Sul construiu sua ascensão: transformando cultura em estratégia de desenvolvimento e influência global.

Como uma nação devastada pela guerra, colonizada por 35 anos e abalada pela crise financeira de 1997 tornou-se uma potência de influência cultural? A resposta está no soft Power: a capacidade de influenciar o mundo não pela força, mas pela atração — por meio da cultura, dos valores e de políticas públicas consistentes. E, no caso coreano, essa transformação foi planejada.

A crise de 1997 marcou um ponto de inflexão. Diante do colapso econômico e da dependência do FMI, o governo de Kim Dae-jung (1998–2003), ex-líder da oposição às ditaduras militares, passou a enxergar a cultura como vetor estratégico de crescimento. Sem grandes recursos naturais ou poder militar expressivo, o país apostou em sua capacidade criativa. Surgiram então instituições como a KOCCA (Agência de Conteúdo Criativo) e a KOFICE (Fundação para Intercâmbio Cultural Internacional), além de uma política consistente de exportação cultural que atravessou diferentes governos.

Os efeitos começaram a se consolidar nos anos 2000, mas foi em 2012 que a onda coreana rompeu definitivamente as barreiras globais. Com "Gangnam Style", o cantor PSY alcançou o primeiro bilhão de visualizações da história do YouTube e chegou ao segundo lugar da Billboard Hot 100. Mais do que um sucesso isolado, o fenômeno abriu caminho para a internacionalização do K-pop — algo reconhecido pelos próprios artistas da nova geração.

O impacto se espalhou por diferentes áreas. No cinema, a consagração veio com "Parasita", de Bong Joon-ho, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e de quatro estatuetas no Oscar. Na música, o K-pop tornou-se indústria global. Paralelamente, setores como o K-beauty redefiniram padrões de consumo, enquanto conceitos como o K-happy difundiram ideias de bem-estar coletivo baseadas em valores culturais como o jeong e o heung.

A pandemia de Covid-19 acelerou esse processo. Com o aumento do consumo digital, produções sul-coreanas ganharam visibilidade em escala inédita. Relatórios de mercado apontam crescimento expressivo da audiência de k-dramas, enquanto pesquisas do governo indicam expansão consistente do consumo de conteúdos coreanos em diferentes regiões do mundo.

Um dos exemplos mais visíveis dessa estratégia é o BTS, que voltou ao centro da indústria musical com o lançamento de Arirang, álbum que bateu recordes ao ultrapassar 100 milhões de reproduções no primeiro dia e vender cerca de 4 milhões de cópias em 24 horas. A turnê mundial, que percorre 23 países em mais de 80 apresentações, teve ingressos esgotados em poucas horas após a abertura das vendas, evidenciando uma demanda global reprimida após anos de hiato. O grupo mantém presença dominante em rankings internacionais, premiações e festivais e se apresentará no espetáculo da final da Copa do Mundo de 2026.

Esse avanço não é apenas cultural, mas também econômico e político. No Brasil, ele se materializa na presença de instituições como a KOCCA, que atua na promoção da indústria cultural sul-coreana e na articulação de parcerias com o mercado local. O país enxerga o Brasil como porta de entrada para a América Latina, conectando produção cultural, diplomacia e oportunidades de negócios.

No Rio de Janeiro, a estratégia coreana mostrou seu lado mais pragmático. Durante a K-Content Biz Week Brazil, mais de 40 rodadas de negócios foram realizadas entre empresas brasileiras e sul-coreanas, com a participação de grandes grupos como a HYBE, responsável pelo BTS, e a CJ ENM, uma das principais produtoras de conteúdo do país. O encontro evidenciou que o soft Power coreano não se limita à visibilidade cultural — ele se traduz em oportunidades concretas de mercado.

Essa articulação entre Estado e indústria ganha também uma face institucional e comunitária. O Korean Cultural Center (KCC), em São Paulo, atua como parte de um ecossistema cultural mais amplo — que inclui imigrantes coreanos, promotores privados e fãs brasileiros. "Dentro desse ecossistema, acredito que nosso centro deve atuar um pouco como sal — não necessariamente a maior presença, mas algo que acrescenta equilíbrio, diversidade e profundidade", afirma o diretor Cheul Hong Kim. Foi com essa lógica que o KCC organizou, por exemplo, a primeira exposição brasileira de Minhwa, estilo tradicional de pintura folclórica coreana do final da dinastia Joseon.

A imigração coreana no Brasil completa 63 anos em 2026, e essa história influencia diretamente o trabalho do centro. "Os imigrantes coreanos tiveram um papel importante na introdução da cultura coreana localmente — especialmente os restaurantes, que ajudaram os brasileiros a vivenciar a cultura coreana de forma acessível", diz Kim. Ele destaca ainda o papel dos descendentes de segunda geração: "Pertencem tanto à Coreia quanto ao Brasil ao mesmo tempo. Tornam-se pontes naturais entre os dois países". Para ir além do Hallyu, o KCC aposta em literatura, artes visuais, webtoons e intercâmbios acadêmicos — incluindo um Fórum de Estudos Coreanos previsto para este ano, voltado a pesquisadores brasileiros.

Essa articulação entre Estado, indústria, centro cultural e comunidade ajuda a explicar por que a Coreia do Sul conseguiu transformar sua produção cultural em ativo estratégico. Música, cinema, séries e, mais recentemente, a literatura deixaram de ser apenas bens culturais para se tornarem instrumentos de influência global, identidade nacional e geração de receita.

Mais do que um fenômeno passageiro, o que emerge é um modelo consolidado: uma indústria criativa robusta, sustentada por políticas públicas e capaz de gerar impacto econômico, diplomático e simbólico em escala global.

* Mônica Cabañas é jornalista correspondente internacional e credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, doutora em educação pela Universidade Santander do México e CEO do Projeto O Mundo por trás do Mundo

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postado em 08/06/2026 11:01
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