Literatura

Ítalo Moriconi lança livro 'provocador' sobre Grande Sertão: Veredas

Mais do que um manual ou uma celebração chapa-branca, é um convite provocativo, mas didático, à leitura da obra-prima de Guimarães Rosa, que completa 70 anos da publicação neste 2026.

Nesta longa estrada da vida de professor de literatura, Ítalo Moriconi, 72 anos, havia passado por várias paragens de Guimarães Rosa. Mas nunca tinha feito a travessia perigosa de Grande Sertão: Veredas de ponta a ponta. O resultado do enfrentamento é o livro Para ler Grande Sertão: Veredas (Ed. Autêntica), que será lançado, na próxima quinta-feira, às 19h, na Livraria Platô, com uma roda de conversa que terá as participações de Ìtalo, Angélica Madeira, Maria Lúcia Verdi e Sérgio de Sá.

O livro está dividido em duas partes. Na primeira, híbridode diário, crítica e crônica, Ítalo trava um corpo a corpo com Grande Sertão: Veredas, revelando os desafios, as dúvidas, as dificuldades e o êxtase com a fabulação e as epifanias rosianas. Na segunda, ele traça as linhas principais do roteiro, da trama e dos conflitos dos personagens dramáticos da ficção de Guimarães Rosa. Mais do que um manual ou uma celebração chapa-branca, é um convite provocativo, mas didático, à leitura de Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de Guimarães Rosa, que completa 70 anos da publicação neste 2026.

Professor, escritor e curador literário, Ítalo integrou abrilhante geração de Ana Cristina César, Cacaso e Flora Susseking, entre outros. É autor da biografia O sangue de uma poeta, sobre Ana Cristina César. Além disso, organizou as antologias Os cem melhores poemas brasileiros e Os cem melhores contos brasileiros (ambos pela ed. Objetiva). Este último contribuiu para a revivescência do interesse no conto na cena literária brasileira.

Ítalo mora, atualmente, no Rio de Janeiro, mas tem fortes conexões com Brasília. Estudou ciências sociais na UnB e mantém uma rede familiar e de amizade no planalto. Nesta entrevista, ele fala sobre a aventura de ler Grande Sertão, as dificuldades, as críticas e os prazeres com a fabulação rosiana: "Nós interpelamos a obra clássica, mas ela também nos interpela", avisa Moriconi.

Como foi a sua experiência de leitor de Grande Sertão: Veredas? O que foi um desafio e o que lhe provocou prazer?

O meu livro relata precisamente essa experiência. Não é um estudo, existem muitos excelentes, sem falar nos próprios depoimentos que Guimarães Rosa escreveu. Esse livro é um projeto quase existencial. Amo a literatura de Guimarães Rosa, mas nunca tinha feito uma leitura de Grande Sertão de cabo a rabo, queria ler o romance para avaliá-lo do jeito que o debate literário está. Questiono muito o romance, mas sou totalmente tomado pela sedução da fabulação e da narrativa. O livro clássico traz sempre um embate.

Com qual noção de clássico você trabalha e como ela se relaciona com Grande Sertão: Veredas?

Olha, a noção de clássico é muito flexível, não se trata de um vocábulo científico rigoroso. A obra clássica é a consagrada pelos leitores ou por uma tradição crítica. São obra de referência e icônicas, de uma maneira bem abrangente. O professor manda ler, tem gente que gosta, tem gente que não gosta. Um único poema como A máquina do mundo, de Carlos Drummond, pode ser considerado clássico. Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um clássico. Muitas vezes, os críticos pensam nos clássicos como Guerra e paz, de Tolstoi, ou Em busca do tempo perdido, de Proust, como um grande manancial da língua e da república. Eu me interessei por Grande Sertão como romance clássico extenso porque queria saber qual é o seu significado em nosso mundo contemporâneo de dispersão. De maneira semelhante a que nos o interpelamos, ele nos interpela. O clássico interpela nossas competências, percepções e estéticas.

A primeira parte do livro fica entre o diário, o ensaio e a crônica. Essa estrutura híbrida lhe deu mais liberdade para se expressarliterariamente?

Com certeza. Na verdade, esse livro é uma etapa no processo da minha escrita. Eu preciso escrever, diariamente, mas estava sem objeto pré-determinado. A minha, digamos assim, grafofilia, tinha sido muito conduzida por textos acadêmicos. Quando me aposentei da sala de aula, ela continuou e se expressar nas redes sociais, com um certo sucesso. No entanto, era muito sugada pela política, pois estávamos no período da pandemia do coronavírus e de desmandos políticos. Mas, a partir daí, passei a publicar uma revisão desses textos Blog Virtual do Pensamento Social. Aí, foi o primeiro exercício em transformar esse material da rede em forma de crônica-ensaio. Quando comecei a reler classicões, resolvi aproveitar a leitura para criar escrita literária, do post à crônica e ao texto literário de forma híbrida.

Rosa dizia que lia Clarice para a vida, e não para a literatura. É possível afirmar também que Guimarães Rosa deve ser lido para a vida e não para a literatura?

Sim e não. Sim, porque eu mesmo fui impactado e conheci a nuvem Guimarães Rosa, que tem milhares de aficcionados com a vida tocada pela literatura dele. Confesso que sou fã das novelas de Corpo de baile, elas me satisfaziam. Mas Grande Sertão é mais exigente, tem uma linguagem complicada, que ficou menos difícil para mim quando me tornei mais aberto à oralidade. E, não, porque o Grande Sertão pode ser lido a partir dele mesmo, mas, ao mesmo tempo, pode estabelecer conexão até com a épica grega, com Shakespeare, com os textos védicos. A própria Clarice Lispector citada não era erudita do ponto de vista literário e linguístico. No entanto, o conjunto da obra dela foi incorporado à tradição da literatura e à própria erudição.

Grande Sertão: Veredas é uma história de amor, uma história de guerra, uma trama de suspense ou um romance metafísico?

Grande Sertão é tudo isso misturado, romance de amor, com uma peculiaridade muito forte, contido e meio trágico. É um romance de guerras, mas faço paralelo com o romance de banditismos, os personagens são bandidos a soldo dos proprietários de terra. Agora, pessoalmente, não gosto do termo metafísico como leitura. Mas preciso reconhecer que o Riobaldo está se indagando  o tempo todo sobre a questão metafísica, para o chão da vida e do corpo. São relacionamentos entre bem e mal e sobre como o diabo pode se infiltrar na constituição de sua pessoa. Muito mais interessante é a cartografia, a geografia, a hidrografia, as paisagens do bioma Cerrado em Grande Sertão.

"Eu, você, todos nós nascemos dois e a gente tem de rezar muito para desdoidar. Reza é que sara loucura", diz Riobaldo Tatarana. Como você interpreta uma sentença como essa?

A loucura é uma coisa muito forte na experiência de Riobaldo, quando se torna um bandido, ele está endemoniado. Chegou o tempo das loucuras, ele mesmo diz. Como sou da geração de 1970, sei que entregar-se aos instintos, transgredir todas as normas é loucura. É a festa da guerra, diz Riobaldo. Mas, como leitor, não sei se devemos extrair do Grande Sertão conclusões análogas à religiosidade popular do Riobaldo. Ele expressa a crença popular de que tudo pode ser resolvido com a religiosidade. Para mim, é um grande desafio. O próprio Riobaldo fala ao Cumpadre Quelemém, kardecista, que é um interlocutor mais cético. No momento em que Riobaldo evoca os fatos de sua vida, está bem situado, é um fazendeiro rico, casado com Otacília, atinge essa harmonia inspirada na figura de Deus. Mas o compadre Quelemém relativiza essa visão, afirma que o espírito vem de baixo. Daí vem a minha discordância da leitura metafísica, Grande Sertão Veredas é um romance físico.

A realidade sertaneja de Grande Sertão: Veredas está muito distante da vivência urbana da maioria dos brasileiros neste momento. Qual é o sentido de atualidade da obra?

Essa é uma questão complicada, o mundo sobre o qual Rosa escreve, é um mundo soterrado. Tudo mudou no sertão, a tríplice fronteira Minas, Goiás e Bahia, território de Grande Sertão, é muito mais habitada. O grande clássico está interpelando o tempo todo. Nos tempos em que Rosa escreveu Grande Sertão: Veredas, a crítica perguntava: o que essa forma trazia de contribuição para o avanço da literatura moderna. Hoje, em dia, como se autentica uma leitura? Pergunta-se o que ele tem a dizer sobre gênero, raça e realidade social. Eu levanto essas lebres no livro, mas diria que uma das questões mais contemporâneas é a estrutura de depoimento utilizada por Guimarães Rosa. Ela estabelece um contraste muito grande com o romance regionalista, que era sociológico ou autobiográfico. É o caso de Meus verdes anos, de José Lins do Rego ou dos livros de Graciliano Ramos. Em vez disso, Guimarães Rosa utiliza um modelo etnográfico. Entrevista personagens populares. Mas o que prevalece é o encanto da fabulação. Sempre fui muito mais apaixonado pela fabulação do que pela linguagem. Hoje, estou muito mais aberto para esse tipo de linguagem. É a linguagem literária que nasce da oralidade.

Com percebe as adaptações e as apropriações, como é o caso de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol, em que o personagem Antônio das Mortes parece ser um Riobaldo politizado, imbuído de consciência social?

Uma das forças do Grande Sertão é prestar-se a essas adaptações e apropriações. E, na verdade, ele cria um gênero. Em pleno 2026, tem uma novela chamada Guerreiros do Sol. É o imaginário arquetípico brasileiro. O filme da Bia Lessa, O diabo no meio do redemunho, é outro exemplo feliz. É muito interessante comparar essas adaptações, pois cada uma imprime tipo de ênfase . É um tema em de pesquisa e de estímulo. O que o Glauber fez foi muito pertinente. Grande Sertão é muito cênico.

Se você tivesse de convidar ou convencer alguém a ler Grande Sertão: Veredas, o que diria?

Olha, eu diria que deve ler Grande Sertão: Veredas poque é muito bom, tem muitas histórias envolventes. As primeiras páginas são realmente complicadas, quando Riobaldo inicia o seu depoimento, Mas tem uma história muito interessante na passagem do Rio do Sussuarão com a briga entre Diadorim e Riobaldo. Depois, a narrativa ganha em dramaticidade, mistérios e revelações quando Riobaldo começa a contar a história desde a infância. Recomendo porque Rosa é um fabulista magnífico.

Para ler Grande Sertão: Veredas

Sessão de autógrafos e debate com Ítalo Moriconi e Angélica Madeira, Maria Lucia Verdi e Sérgio de Sá, na próxima quinta-feira, às 19h, na Livraria Platô (405 Sul, Bloco A, Loja 12).

 


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