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Booktokers animam mercado editorial, afirma o escritor Gabriel Mattos

A forma como se escreve e se lê está sendo transformada, avalia o autor de "Entre livros e likes: o fenômeno do BookTok", primeiro livro sobre o tema no Brasil. "Vendemos mais livros, mas estamos lendo mais?", questiona o especialista

Uma nova geração de criadores de conteúdo tem transformado a cena literária, movimentando livrarias e reconectando os brasileiros ao universo dos livros. Dados recentes indicam que o Distrito Federal não apenas acompanha a tendência nacional, mas apresenta indicadores de leitura que superam a média do país, criando um ecossistema fértil para os chamados booktokers — influenciadores digitais que dedicam seus canais no TikTok a resenhas, desafios e recomendações de leitura.

Enquanto o mercado editorial brasileiro comemora números robustos — 60 milhões de livros vendidos e R$ 3,08 bilhões em receita em 2025 —, Brasília surge como um termômetro promissor desse movimento. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura 2024, o Distrito Federal registra 52% de sua população como leitora ativa, um índice significativamente superior à média nacional de 47%.

A capital também tem demonstrado um apetite crescente pelo universo dos livros: a Biblioteca Nacional de Brasília registrou um aumento de 79% nos novos cadastros e 66% nos empréstimos de livros na comparação com 2023. Esse protagonismo contrasta com o desempenho da região Centro-Oeste como um todo, que em 2024 apresentava apenas 13% de penetração de compradores de livros, segundo o Panorama do Consumo de Livros.

Mas o que explica esse protagonismo da capital? Para além da renda e do nível educacional, a resposta pode estar na força das comunidades virtuais. O mercado editorial percebeu que as redes sociais, especialmente o TikTok, são hoje a principal vitrine para o lançamento de novos títulos e a redescoberta de clássicos.

"O BookTok não apenas amplia a circulação de títulos, ele também transforma a própria forma como se escreve e se lê", explica o pesquisador Gabriel Mattos, mestre em economia criativa pela ESPM-RJ e autor do recém-lançado Entre livros e likes: o fenômeno do BookTok, a leitura algorítmica e a mediação literária no TikTok (MapaLab). "Autores, atentos à lógica de recomendação da plataforma, estruturam diálogos e passagens pensando em cortes curtos e frases de efeito, como se cada capítulo fosse uma cena pronta para viralizar", alerta o especialista.

Esse ecossistema, que já resultou em mais de 3 bilhões de visualizações para a hashtag #BookTokBrasil nos últimos 12 meses, depende crucialmente da ação local. Em Brasília, a combinação de alto índice de leitura e capilaridade digital tem permitido que criadores locais alcancem relevância nacional. "O que o TikTok fez foi acelerar o engajamento que já existia em nichos como o BookTube e o Bookgram, criando uma relação de confiança onde o público consome o lifestyle daquele criador", completa Mattos .

Prazer ou performance?

Apesar do otimismo com os números de venda — o setor cresceu 8% de 2024 para 2025 —, Gabriel Mattos levanta um alerta importante em sua obra. O especialista, que também é Head of Growth da agência TwoCom e atendeu gigantes como Sextante, HarperCollins e Rocco, questiona se o aumento da venda representa necessariamente mais leitores ou apenas a plataformização de um hábito.

"Vendemos mais livros, mas estamos lendo mais?", questiona ele em artigo recente. A resposta, segundo os dados, é preocupante: a última edição da pesquisa Retratos da Leitura apontou, pela primeira vez, que o número de não leitores (54%) ultrapassou o de leitores no Brasil.

Para Mattos, que inicia agora um doutorado sobre o tema, o fenômeno tem dois lados. Se por um lado o BookTok democratiza o acesso e "inicia" novos leitores, por outro, a lógica de performance pode ser vazia. "Será que estamos lendo por prazer ou só pelo algoritmo? Nunca se consumiu tanto conteúdo, mas nunca se absorveu tão pouco", pondera.

 


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