
Depois de anos construindo uma trajetória diante das câmeras, Jayme Matarazzo decidiu assumir também o papel de quem observa. O ator acaba de estrear Click — Expedições fotográficas, projeto autoral que nasceu de uma paixão antiga pela fotografia e que reúne viagens, encontros e narrativas humanas em diferentes partes do mundo. Mais do que uma série documental, a produção representa um reencontro pessoal com uma linguagem que acompanha sua história desde a infância e que, agora, ganha espaço ao lado da atuação.
Muito antes dos sets de gravação e dos personagens que marcaram sua carreira, Jayme cresceu cercado por câmeras, fotografias e relatos de viagem. Filho de pais apaixonados pela imagem, aprendeu cedo o valor de registrar momentos e enxergar histórias através das lentes. A fotografia foi uma das suas primeiras formas de conexão com o mundo. A vida, no entanto, acabou conduzindo seus passos para os palcos e estúdios, onde construiu uma carreira sólida na televisão, no cinema e no streaming. Agora, aos 40 anos e em uma fase mais madura da vida profissional, ele encontra espaço para revisitar essa paixão e transformá-la em um projeto autoral.
"A fotografia sempre esteve presente na minha vida. Antes mesmo da atuação ganhar espaço, eu já era fascinado pela possibilidade de contar histórias por meio das imagens", conta o ator, que é filho do diretor Jayme Monjardim. "A carreira acabou me levando por outros caminhos, pelos quais sou muito grato, mas essa paixão nunca deixou de existir. Acho que chegou um momento em que senti vontade de reunir tudo o que faz sentido para mim: viajar, fotografar, conhecer pessoas e contar histórias reais. O Click nasceu muito desse desejo de voltar à essência, de criar um projeto com a minha identidade, sem pressa, em que eu pudesse explorar o mundo com curiosidade e respeito", completou.
Ao longo dos oito episódios da série, que ganha novos capítulos todas as segundas-feiras no canal Modo Viagem e fica disponível no dia seguinte no Globoplay, Jayme percorre diferentes territórios acompanhado de fotógrafos convidados, explorando culturas, tradições e modos de vida através de diferentes linguagens fotográficas. A série passa por destinos como Deserto do Atacama, Salar de Uyuni, Patagônia Argentina, Ilha do Marajó e os pampas gaúchos de Uruguaiana, propondo uma imersão que vai além das paisagens e dos cartões-postais.
Ferramenta de aproximação
O foco está nos encontros. Em cada expedição, a fotografia funciona como ferramenta de aproximação, revelando histórias, costumes e perspectivas que ajudam a compreender melhor cada lugar. Ao longo da jornada, Jayme se coloca como um aprendiz, e descreve esse processo como uma experiência transformadora.
"Foi um exercício muito bonito de observação. Quando você chega em um lugar entendendo que tem muito mais para aprender do que para ensinar, a relação muda completamente", explica Matarazzo. "A câmera deixou de ser apenas um instrumento de registro e passou a ser uma ponte entre mim e aquelas pessoas. Muitas conversas começaram por causa da fotografia, mas o que realmente ficou foram os encontros. Em cada destino encontrei gente generosa, que compartilhou histórias, saberes e formas diferentes de enxergar a vida. Acho que esse é o maior presente que o projeto me deu", avalia.
O projeto reúne nomes importantes da fotografia brasileira — como Cristiano Xavier, Luiz Braga, Luciano Candisani, Luciana Brito e Tadeu Vilani — que compartilham seus olhares e experiências. Um dos objetivos da série é percorrer, ao longo dos oito episódios, diferentes vertentes da fotografia, passando por linguagens como a fotografia de paisagem, a fotografia aquática e a fotografia documental.
Mais do que um programa sobre viagens, Click é um projeto sobre a observação, sobre o tempo necessário para enxergar, escutar e compreender. A proposta também se expande para além das telas, com um livro fotográfico e uma exposição previstos, além de uma segunda temporada dedicada à Ásia que está em estudo. Para Jayme, no entanto, o desejo é que Click seja um projeto de longa duração. "Sem dúvida, eu gostaria que tivesse continuidade. É um projeto que me realiza de uma forma muito particular, porque reúne diferentes linguagens que eu amo", afirma.
Sem deixar a dramaturgia
Ao mesmo tempo, a dramaturgia continua sendo uma parte fundamental para Jayme, que não vê uma coisa competindo com a outra. "Pelo contrário, acredito que elas se alimentam. As viagens ampliam meu olhar como ator, e os personagens também me ajudam a observar o mundo com mais sensibilidade. Se eu conseguir continuar alternando esses universos ao longo da carreira, vou me sentir muito realizado", pondera o ator, que estreou na tevê na minissérie Maysa — Quando fala o coração, de 2009, que conta a história de sua avó paterna.
O lançamento acontece em um momento especialmente fértil da carreira do artista. Paralelamente à estreia de Click, Jayme também se prepara para lançar novos trabalhos na dramaturgia, entre eles a novela vertical A boa, a má e o marido gigolô, um formato inovador no Brasil. "O que mais me chamou atenção foi justamente a vontade de ver de perto essa nova linguagem. A forma como o público consome conteúdo está mudando o tempo todo, e acho muito interessante ver a dramaturgia acompanhando essa transformação", argumenta o ator, frisando que a novela vertical exige um ritmo diferente, uma narrativa mais ágil, mas sem perder a verdade das emoções. "Como ator, isso é muito estimulante. É um desafio encontrar o equilíbrio entre essa dinâmica e a construção do personagem, e tenho gostado bastante dessa experiência", sublinha.
Se a atuação o levou a viver muitas histórias ao longo dos anos, a fotografia parece ter lhe devolvido algo igualmente importante: a possibilidade de observá-las de perto. Ao refletir sobre o que suas próprias imagens revelaram sobre ele mesmo, Jayme faz uma síntese do espírito de todo o projeto. "Acho que ela me ensinou a entender que a vida tem um ritmo diferente. Vivemos um momento muito acelerado e, quando você fotografa, precisa aprender a observar de verdade", conclui.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte