
Crítica // Os ruminantes ★★★★
Sem muito rodeio, um dos personagens centrais do documentário Os ruminantes — o crítico e roteirista Jean-Claude Bernardet, envolvido em um projeto de cinema dos anos de 1960, e que não decolou (criado na adaptação de livro de José J. Veiga) — aponta para a necessidade de retomada desta aventura inconclusa, feita ao lado do amigo e cineasta Luiz Sérgio Person (morto em 1976, aos 39 anos). Numa trama pertinente ao enclave que lida com opressão, resistência e queda (em síntese alegórica que ilustra o golpe militar de 1964), Bernardet (que morreu em 2025) aposta num grupo importante a ser sublinhado numa possível releitura do roteiro de Os ruminantes, dando nome aos bois: a bancada ruralista.
À luz da atualidade, o documentário (que cerca o nunca realizado Os ruminantes) traz direção de Marcelo Mello e Tarsila Araújo. Não à toa a obra tem amparo em tese acadêmica, e vem conectado ao passado de Bernardet, que, para além da sintonia ideológica com Person (com quem realizaria o roteiro do clássico das injustiças sociais, O caso dos irmãos Naves), se encontraria nos corredores da Universidade de Brasília (a mesma que serviu de berço para um dos grandes empreendimentos de Paulo Emílio Salles Gomes: o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro).
Ciente de que cinema não serve unicamente a "tratado filosófico ou estético", e mais pleno, quando do teor de entretenimento, Person deixava notar a relevância do filme, com os dizeres antevistos no esboço do roteiro: "Você é homem ou ruminante; tire suas dúvidas assistindo a (A hora dos ruminantes, como era chamado o projeto)". Na sequência da denúncia do "medo e pancada" e do "corpo (resumido a) só sangue", como expunha o personagem de Juca de Oliveira (em O caso dos irmãos Naves), A hora dos ruminantes previa alertar (numa conjuntura política sensível — tal qual a dos tempos atuais) o efeito manada, trazendo ainda o alerta: "Ai dos não-violentos" (temendo a reação dos pacíficos, já agredidos ou insultados, e que não revidassem).
A invasão dos ruminantes pressupunha seres acuados, diante do avanço de cães e do aglomerado de bois, num jogo de alvos "encurralados" por cachorros (nitidamente um aceno aos militares sessentistas da frente da ditadura). Bernardet, entrevistado para o documentário do filme nunca realizado, confirma o aspecto "violento" atrelado ao ex-presidente Castelo Branco (quando do lançamento dos Irmãos Naves), estabelecido em agressões físicas, na representação em cinema; e a consonância com Costa e Silva, no efeito de significação política e de censura, fatores atrelados a A hora dos ruminantes). Presente no novo longa, Marina Person reitera a crítica do pai (Luiz Sérgio) ao Cinema Novo, "hermético e destinado a circuito "próprio dos intelectuais"). Nisso, dissonâncias entre Person e Glauber Rocha despontam.
Idealizado para trazer Fúlvio Stefanini, Juca de Oliveira e José Lewgoy no elenco, o filme nunca feito incorreria em "comédia e drama patético" (algo avizinhado dos nossos tempos eleitoreiros). O documentário, pela vez, traz a riqueza do revolver em acervos como o do Arquivo Nacional e o da Cinemateca Brasileira. Elementos, aliás, que correram riscos em recente desgoverno. Garimpar no teor de filmes como São Paulo Sociedade Anônima e nas tramoias do destino das venda de negativos do filme idealizado nos anos de 1960 (que tocam no DOI-Codi, em agentes de esquerda, na intimidação norte-americana, em assalto a banco e até Rogério Sganzerla) é um deleite.
Por fim, Os ruminantes espraia um senso de utopia e destaca atualidade, falando de Itamaraty, de resiliência (um ponto-chave) e da intensidade de lobby. Entre as ferramentas narrativas sobre o filme idealizado por Person, destaca-se no documentário a revalidação (no espectador) de vitais instrumentos humanos, como a imaginação. O filme se completa em cada um.

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Mariana Morais