
Um dos detalhes mais importantes da peça O motociclista no globo da morte é a banalidade da situação exposta. No texto de Leonardo Netto, um homem que tem aversão à violência se irrita de forma incontrolável diante de cenas de abuso e falta de respeito. Quando Eduardo Moscovis recebeu esse texto, ficou encantado e emocionado. "O texto me pegou muito, porque acho que, de alguma forma, o Leo sabia que eu estava a fim de falar sobre isso", conta o ator, que desembarca em Brasília neste fim de semana para apresentar a montagem dirigida por Rodrigo Portella e com a qual ganhou o Prêmio Shell de Melhor Ator.
Netto não escreveu a peça especialmente para Moscovis, mas já tinha o ator em mente quando terminou o texto. E foi ele o primeiro a ler o material. "Na verdade, é um texto que conta a história de um cara que vem contar a história dele, contar o que aconteceu com ele", explica Moscovis. O dramaturgo escreveu a peça após um episódio perturbador, no qual assistiu, sem querer, a uma cena de violência extrema gravada em vídeo e postada em uma rede social. Netto passou a refletir então sobre a gênese da violência, a natureza humana e o papel das relações sociais nesse comportamento.
Antônio, o protagonista de O motociclista no globo da morte, é um homem educado, pacífico, que tem repulsa a qualquer tipo de violência e é muito atento ao convívio social. Ele mora em um bar que também faz as vezes de lanchonete e serve refeições. Um dia, enquanto almoça, entram duas pessoas desconhecidas. A fala em tom elevado e o comportamento expansivo dos dois evolui para situações que extrapolam limites de boa convivência e a dupla passa a incomodar.
Perturbardo, o protagonista decide se retirar, mas acaba cedendo a um impulso que desencadeia um movimento inesperado e surpreendente. "O texto do Leo apresenta tanto a narrativa quanto as reflexões embutidas nela e isso me encantou. Coincidiu muito o que o texto aborda com algumas questões, muito pela narrativa, pela cadência, pelo objetivo. São reflexões do nosso cotidiano, do que a gente vive hoje. Antônio é um cara que cria uma identificação do público em geral", avisa Moscovis. A metáfora com o globo da morte no título faz alusão à espiral de violência que toma forma inesperadamente na peça.
Desde que estreou com o monólogo em 2025, o ator tem viajado por todo o país com temporadas que ajudam a ter um termômetro da recepção da história pelo público. "As reações são muito parecidas, o público se conecta muito rápido com o que é apresentado. Sem querer racionalizar demais, é isso: é um cara próximo da gente, com o qual o público se identifica ou com ele ou com os personagens ou com situação. E são situações do nosso dia a dia, do respeito, do não respeito, de até onde a gente suporta sem reparar pequenas violências, pequenos abusos", diz o ator.
As opções cênicas de Rodrigo Portella ajudam a colocar o texto em evidência. No palco, a economia de elementos cênicos resulta no foco total no ator e no texto do monólogo. Uma cadeira e um copo d'água são as únicas companhias de Moscovis. "A gente leu muito, estudou muito e, em determinado momento, o Netto decidiu que era o ator sentado contando a história. E ele foi dando um foco para a palavra, para o que estava sendo dito", diz. A iluminação de Ana Luzia de Simoni ajuda a contar a história em um palco limpo e sem pirotecnia, recursos e efeitos especiais. "Foi uma escolha dele, ele viu o texto, ficou profundamente mexido e, à medida em que a gente ia estudando, lendo e trabalhando, ele propunha algumas coisas e a gente voltava para o mesmo lugar, que era quase uma contação de história. Com esse espetáculo, me sinto muito nesse lugar de estar retornando para um princípio básico do teatro que é contar uma história", reflete o ator.
Essa é a primeira vez que Moscovis trabalha com Portella, um nome escolhido pelo próprio ator em conjunto com Leonardo Netto. "O trabalho do Rodrigo tem uma mão, uma marca muito presente. Os últimos espetáculos dele têm impacto e reconhecimento. Não é que ele puxe o texto ou projeto para um tipo de encenação que você identifica como sendo 'Rodrigo Portella', ele faz o contrário: vai de encontro ou ao grupo ou ao que o projeto apresenta para ele", garante, ao lembrar da recente parceria do diretor com o Grupo Galpão no também premiado (Um) Ensaio sobre a cegueira, adaptação do livro de José Saramago que levou o Prêmio APCA de Melhor Espetáculo e o Shell de Melhor Direção para Portella.
O motociclista
no globo
da morte
Direção: Rodrigo Portella. Com Eduardo Moscovis. Hoje, às 19h30, no Teatro UNIP (SGAS 913). Ingressos: a partir de R$ 25, no Sympla. Não recomendado para
menores de 12 anos

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte