
Em 1992, João Marcello Bôscoli se assustou ao ler no jornal uma matéria que dizia: “Elis Regina partiu há 10 anos. Como podemos ter esquecido dela tão rapidamente?”. Na época, o filho da cantora gaúcha sentiu se concretizar, pela primeira vez, o medo que tinha da mãe não ser mais lembrada. A manchete mexeu tanto com o primogênito que, a partir daí, ele tomou a decisão de trabalhar com o material da artista. O que começou com apenas o desejo em fazer a manutenção da memória de uma das vozes mais emblemáticas da música brasileira, se desdobrou em uma gravadora, relançamentos e mixagens de discos e no livro Elis & eu, ponto de partida do novo documentário do Universal+, de mesmo nome.
Para João Marcello, trabalhar com o legado deixado pela mãe se tornou uma maneira de continuar convivendo com ela. “Ou eu fazia isso ou eu iria olhar para a Elis como alguém que iria me assombrar pela vida inteira — o que nunca foi o caso, mas poderia ter sido”, reflete o produtor musical. “Eu poderia não querer falar sobre ela, achar ruim que as pessoas só falam sobre isso comigo... Mas, por mim, eu só faria isso. Se eu pudesse, eu trabalharia apenas com o material da Elis Regina. É incrível”, afirma João.
No filme dirigido por André Bushatsky, o produtor musical aborda temas como, por exemplo, o suposto temperamento explosivo da mãe, que resultou no apelido “pimentinha”. “Um homem dá um murro na mesa, ele é f... Se uma mulher faz isso, ela é desequilibrada. Foi assim com a Elis o tempo inteiro”, denuncia João Marcello. “Falavam que ela era uma pessoa difícil com os colegas de trabalho. Onde? Quando? Alguém já falou que o Roberto Carlos era difícil com o Caetano?”, indaga o filho da cantora.
“A Elis era uma mulher de 1,52m. Que tipo de risco ela oferecia?”, continua o primogênito. “Ela ia pegar o microfone e bater em alguém? Ela era apenas uma pessoa fazendo o que podia fazer, que era falar alto e com força”, defende João Marcello.
O produtor musical cita a frase do cartunista Henfil, parte de uma carta publicada na revista Isto É logo após a morte de Elis, para resumir o machismo vivido pela mãe: “Nós homens te matamos, mulher”. “A gente vê as pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ela morava no Brasil, então os números funcionam para ela também. Mesmo tendo toda a força que tinha, ela teve que passar por isso”, lamenta o filho.
João Marcello ainda contesta o apelido: “Ela era chamada assim de forma carinhosa, sim. Mas tem várias canalhices que começam com carinho, né?”. “Várias peças que foram feitas sobre a Elis, por exemplo, a colocaram como a fonte que emanava conflitos. E não era assim. Então, há um machismo estrutural até hoje quando se trata dela”, opina.
Fora dos palcos
Dentro de casa, a “pimenta” de Elis, de fato, existia, confessa o filho, mas de forma moderada. “A pessoa que me abraçava com aquele calor, me beijava e falava que me amava, era a mesma que falava para eu pegar leve e que não podia deixar comida no prato. Acho que havia uma certa intensidade, mas ela tinha uma temperatura muito confortável”, descreve João Marcello. “Eu lembro do sorriso, do abraço e desse lado afetivo que ela tinha com todo mundo. Ela tinha uma falta de medo de amar, uma coragem… Porque não é fácil amar”, pontua o produtor musical.
Para João, a voz que ainda é uma das mais emblemáticas da música brasileira foi o primeiro som que teve contato, antes mesmo do nascimento. “Elis, grávida de mim, cantou no Canecão até o nono mês de gestação”, destaca João Marcello. “Hoje, com a ressonância magnética por imagem, sabemos o nível do efeito que há na relação entre uma mãe e um bebê, ainda mais quando a mulher dança e canta todo dia. A música faz com que aconteça uma sinfonia de endorfina dentro de nós. Tudo isso afeta a criança”, aponta.
No entanto, o momento em que a voz de Elis mais fez diferença na vida do primogênito foi logo após o parto, quando ele passou a sofrer uma série de complicações de saúde. “No hospital, chegaram a falar que eu não ia passar daquela noite. Então, ela passou horas falando comigo e se despedindo. Na manhã seguinte, chegaram para recolher o cadáver, mas eu havia melhorado. O médico falou: “Não sei exatamente o que aconteceu aqui, mas por tudo o que você falou, eu acho que o som da sua voz salvou a vida do seu filho”, relata João Marcello.
“Mesmo se eu tivesse morrido ali, a voz dela já teria toda essa importância”, garante o produtor musical. “Mas depois eu ainda fui conhecer Elis & Tom, ouvir Falso brilhante e escutar ela dizendo que me ama. Até eu ouvir a batida do coração do meu primeiro filho, esse era o som que eu mais gostava. Hoje, é o segundo, até porque eu acho que se minha mãe visse uma entrevista minha falando que eu prefiro ela aos meus filhos, ela me mataria”, ri João Marcello.
O irmão de Pedro Mariano e Maria Rita define o som da mãe como a afinação que deu tom à vida dele. “Eu escuto essa voz e coisas que eu não consigo explicar acontecem. Coisas boas”, pondera o carioca. ”A voz da nossa mãe é uma coisa muito especial, que pode resolver um monte de problemas”, assegura o filho de Elis.

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