LUTO

A poesia agradece: Luis Turiba deixa legado na cultura de Brasília

Amigos e escritores celebram a grandeza de Luis Turiba. O poeta e jornalista morreu ontem, aos 76 anos, em Salvador

O poeta mostra a icônica revista Bric-a-Brac: uma referência editorial -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O poeta mostra a icônica revista Bric-a-Brac: uma referência editorial - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Luiz Artur Toribio, conhecido como Luis Turiba, chegou à capital da República em 1978. Nascido em Pernambuco, o poeta e jornalista deixou sua marca em Brasília pelo trabalho como repórter e poeta único. Turiba morreu na madrugada de ontem, na casa de um dos filhos em Salvador, devido a complicações de saúde, decorrentes de sequelas da covid e insuficiência cardíaca. Ele deixa cinco filhos e seis netos.

"Isso é triste e duro. Chegou a nossa vez de morrer. Nossa geração está partindo", diz Nicolas Behr, poeta que conheceu Turiba quando o pernambucano chegou à capital. "Ele trouxe um livro chamado Kiprokó (primeiro livro de Turiba). Vinha de uma experiência de poesia, de geração mimeógrafo, da geração marginal do Rio. Era um agitador cultural, poeta, jornalista, e tinha muito dessa linha do Tropicalismo", comenta.

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Sobre a criação da icônica revista Bric-a-Brac, Nicolas destaca que Turiba "fez história nas revistas literárias brasileiras nos anos 1980. Era uma revista experimental, graficamente arrojada. Turiba concretizava as coisas, não eram só ideias, viraram projetos, poemas, livros, revistas, saraus. Sempre com uma verve muito boa, muito positivo, muito realizador", destaca.

Nicolas relembra o grupo Oi Poema, realizado com Cristiane Sobral, Amneres Santiago e Bic Prado. "A gente fazia uns passeios pelo Lago Paranoá, numa barca, a barca poética. Tenho boas memórias desses passeios nossos", conta o poeta.

"Turiba significa alegria e felicidade na língua tupi. E isso ele tinha em si", ressalta Renato Matos, multiartista e grande amigo de Luis Turiba. Os dois se conheceram durante os concertos realizados no projeto Cabeças, evento cultural brasiliense idealizado pelo ator e produtor Néio Lúcio, nas décadas de 1970 e 1980, que contava com música, teatro, dança e poesia.

"Nós nos conhecemos e essa amizade perdurou até a morte. E vai até o final do infinito", conta o artista baiano/brasiliense. Renato relembra que Turiba teve uma importante contribuição em sua carreira musical. O primeiro disco de vinil de Renato foi produzido pela Bric-a-Brac e o segundo teve participação ativa do poeta. "Foi um disco feito com muita parceria minha com o Turiba, muita poesia. Nós finalizávamos poesias inacabadas e eu colocava música. Foi um grande parceiro", afirma.

José Sóter, poeta e amigo de Turiba, conta um pouco da chegada do pernambucano à capital. "O Turiba aportou em Brasília em 1978. Chegou como se nunca tivesse estado em outro lugar. Virou brasiliense. De imediato, estava enturmado com a rapaziada que tinha até um mimeógrafo para publicar as coisas da rapaziada", afirma.

Turiba participou do primeiro grupo de ocupação poética da cidade, o Lira Pau Brasília, e o seu apartamento virou um reduto de produção literária. "Estava em todas, com sua irreverência e perspicácia poética. Se apropriou da cidade ao lado dos artistas locais e trouxe a sua contribuição para formarmos o mosaico da cultura candanga. Ajudou a consolidar a Geração Mimeógrafo, que está às vésperas de completar 50 anos. Uma geração que continua viva no fazer poético", destaca Sóter.

Dona do restaurante Cura e militante cultural, Cristina Roberto, afirma que a chegada de Turiba a Brasília foi um divisor de águas. "Foi um momento que Brasília estava se descobrindo coletivamente, foi muito interessante. E o Turiba tem uma participação muito ativa nesse momento. Era um cara que estava o tempo todo antenado, descobrindo quem é que estava fazendo bonito, quem tinha boa poesia, boa música. Realmente a cultura de Brasília deve muito para o 'Seu Luis'", conta. 

"Conheci Turiba quando vários poetas da chamada Geração Mimeógrafo batalhava meios de publicar seus poemas, tanto em antologias quanto em livros individuais. Paralelamente, a poesia nos convocava a atitudes, como foram os recitais em escolas públicas, para os quais foi publicada em mimeógrafo cachacinha a histórica antologia Merenda Escolar", ressalta Luiz Martins, poeta e professor. A poeta Angélica Torres lamenta a morte do amigo. "Lá se foi o irmão, parceiro, poeta imenso e intenso, de tantos agitos poéticos e jornalísticos", enfatiza. 

A escritora e professora Maria Lúcia Verdi ressalta que o poeta era um grande militante político, foi preso durante a ditadura, mas nunca deixou de ser apaixonado pelo Brasil, pela poesia e pela música. "Teve parcerias com músicos, agitou a cena da capital como muito poucos. Salve, Turiba! Axé." 

Fernanda Lambach, jornalista e ex-mulher do poeta, destaca o amor de Turiba pelo ofício literário. "Era um poeta que amava o jogo das palavras, a força da arte gráfica, a rebeldia do que poderia parecer marginal, mas, bem no fundo, era mais do que humano. Nas últimas semanas, letra trêmula, escreveu poema sobre o pulsar do coração e como essa máquina, esse músculo, crava o destino. Que o espírito dele seja livre para voar, como sempre foi", comenta.

Para Lúcia Leão, jornalista e ex-mulher do Turiba, o seu grande legado para além de sua poesia foi a Bric-a-Brac e a articulação de ideias e criação de redes culturais por meio da revista. "Não dá para esquecer que era um ser político por excelência. Um articulador e negociador hábil. Quando fomos casados brincávamos que ele era o ministro de Relações Exteriores, responsável por resolver as contendas externas da família" afirma.

Como todo poeta, era um romântico. "Quando namorávamos, ele morando no Rio e eu em São Paulo, um dia fui visitá-lo. Voltando de ônibus, acabando de sair da rodoviária, o ônibus parou e abriu a porta. Era o Turiba, para me entregar um sonho de valsa", comenta Lúcia.

Em apresentação do livro Desacontecimentos, lançado em 2019, o poeta Antonio Cícero definiu o trabalho de Turiba. "Seus poemas conseguem ser, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais, inovadores e belos: o que é raro. O fato é que é com enorme prazer e surpresa que se percorrem esses extraordinários, pulsantes e eróticos desacontecimentos poéticos", escreveu.

Homenagem

 

E para celebrar a vida e a obra de Turiba, amigos organizaram uma roda de poesias no restaurante Beirute, na 109 Sul, no sábado, às 16h. José Sóter afirma que a alegria de Turiba  estará presente e precisa ser celebrada. “Nós não poderíamos deixar de levar sua alegria para um ato de comemoração pela sua passagem pela Terra. Então vamos fazer uma roda de poetas e amigos, nos moldes das rodas de capoeira, para espraiar as energias que ele deixou por aqui”, afirma.

 

Poema

Desacontessências 

desaconteci
(mentavelmente)
tudo acontece para
desacontecer em si

anoitece para amanhecer
nascer viver crescer morrer
tecer escrituras em silêncios
semânticas em pura seda

desconstruir óbvios
reconstruir amálgamas
experimentos ordinários
holografias d’almas

 

Luis Turiba

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postado em 27/08/2026 05:00
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