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Mariana Sena fala da 'responsabilidade de despertar as Elenices' pelo Brasil

Em ano de estreia no horário nobre, nos cinemas e no streaming, Mariana Sena assume o papel mais complexo de sua carreira e, ao viver uma mulher vítima de violência doméstica em "Quem ama cuida", transforma a ficção em ferramenta de reflexão social

Mariana Sena está vivendo um dos anos mais decisivos de sua trajetória artística. Aos 31 anos, a atriz nascida em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, alcança um feito raro na carreira de qualquer intérprete: estreia simultaneamente no horário nobre da TV Globo, nos cinemas e em uma série de plataforma de streaming. Mas é na pele de Elenice, a dona de casa subjugada por um casamento abusivo na novela Quem ama cuida, que Mariana encontra o papel mais denso e socialmente relevante de seus 10 anos de carreira.

A personagem é o epicentro de uma trama que expõe as engrenagens silenciosas da violência doméstica — um tema que, para a atriz, transcende a ficção. "A Elenice tem uma responsabilidade social muito grande. Esse mergulho nas estatísticas foi necessário para reafirmar em mim a responsabilidade que é ter uma personagem como essa nas mãos", afirma Mariana ao Correio

Para compor Elenice — mãe de Dafne, esposa de Tom (Allan Souza Lima) e mulher que encontra felicidade em servir a família, mesmo quando isso significa anular a própria identidade —, Mariana precisou ir muito além da decupagem de cenas. O processo de construção exigiu um mergulho em realidades distantes da sua, mas assustadoramente próximas.

"A Elenice é uma mulher que vive em função da casa, em função do marido. Ela é feliz em ser dona de casa, em ter aquela família, e em servir", descreve a atriz, que precisou entender as nuances de uma hierarquia conjugal que ela própria, mulher de 31 anos com formação universitária e bagagem teórica, nunca experimentou de forma tão radical. "Precisava entender as diferenças entre mim e uma mulher que todos os dias acorda para servir o marido", pondera.

A pesquisa para compor a personagem criada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto não se limitou à psicologia individual. Mariana debruçou-se sobre estatísticas de feminicídio, dependência financeira e emocional, e os mecanismos que mantêm milhões de mulheres presas a ciclos de violência. "Infelizmente, tem várias pessoas que vivem ao meu redor que já viveram ou ainda estão nesse tipo de relação", revela, sem disfarçar o incômodo.

A relação de Mariana com Elenice extrapola os limites do estúdio. Nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter), a atriz tem recebido uma enxurrada de depoimentos — alguns aflitivos, outros esperançosos. "Recebo não só depoimentos de pessoas que viveram esse tipo de relacionamento, mas pessoas que conseguiram se identificar com a Elenice e estão se entendendo dentro desse processo de relacionamento tóxico", conta. Porém, o reconhecimento vem acompanhado de um peso que a atriz carrega com cuidado. "É uma responsabilidade muito grande conversar com uma pessoa que está vivendo um ciclo de violência", admite.

"O feminicídio começa com um 'não' da vítima para o agressor, que não aceita a negativa e a emancipação da pessoa", enfatiza Mariana. Por isso, ao abordar a complexidade do problema, em vez de oferecer soluções simplistas, a atriz tem direcionado as mulheres a canais oficiais de ajuda, como o Disque 180, a assistente virtual Angela e a plataforma Não era amor, especializada em psicoterapia para vítimas de relacionamentos abusivos. "Sinto que essa personagem tem a missão de trazer esse despertar para as Elenices espalhadas pelo Brasil", reflete.

Melissa Tokarski - Mariana Sena, atriz

Horizontes expandidos

Pela primeira vez na ficção, Mariana interpreta uma mãe — e a experiência coincide com sua própria jornada materna. Ayomi, sua filha de 2 anos, tornou-se uma referência inesperada para a construção da relação entre Elenice e Dafne. "A maternidade muda a gente em todos os âmbitos. Tudo na nossa vida muda a partir do momento que uma criança chega", afirma. Essa transformação pessoal, segundo a atriz, foi crucial para compreender a camada de superproteção e o desespero silencioso de Elenice ao tentar proteger a filha de um ambiente contaminado pela violência conjugal. "Elenice é uma mulher que sofre agressão e tenta disfarçar não só para os outros, mas também para a filha. Além de tentar criar uma menina que seja mais forte do que ela consegue ser até então", analisa.

A densidade de Elenice contrasta com outros papéis que marcaram a trajetória recente da atriz. Em Garota do momento, de 2024, Mariana conquistou o público como Glorinha, a cabeleireira e melhor amiga da protagonista Beatriz (Duda Santos). Já em sua estreia na televisão, em Mar do sertão, de 2022, também às 18h, deu vida à sonhadora Lorena.

Mas é no cinema e no streaming que Mariana expande horizontes. Em Jogada de risco, série do Globoplay criada e estrelada por Cauã Reymond, ela interpreta Cris, uma advogada sagaz que navega com destreza pelo universo majoritariamente masculino do futebol. "A temática é sobre o futebol, mas por trás temos saúde mental, mercado do sexo, ganância, dinheiro e poder. A Cris domina isso muito bem. Ela é sedutora na inteligência e na maneira de se impor", adianta.

Já no cinema, Mariana estreia nas telonas com Antártida, longa dos Estúdios Globo que abre o Festival de Cinema de Gramado deste ano. No filme, ela vive Rose, uma sargenta militar em uma história de confinamento, contracenando com nomes como Andréa Beltrão, Lázaro Ramos e Antonio Calloni. "Foi uma experiência incrível, uma produção atípica, filmada 100% em estúdio, com muita inovação e tecnologia", entusiasma-se. "Vivemos na prática o confinamento, o que nos trouxe uma outra imersão dentro da dramaturgia."

Formada em artes dramáticas e fonoaudiologia, Mariana carrega na bagagem acadêmica um diferencial que poucos atores possuem. "Às vezes, para o início da construção de uma personagem, eu determino qual é a voz, qual é o corpo, a postura, porque a fonoaudiologia deixou isso muito em mim", explica a atriz, que confessa o desejo de cursar psicologia no futuro, e mantém o hábito de ler artigos científicos e atualizar-se constantemente. "Eu não saberia ser atriz sem ter passado por uma formação, sem ter pisado antes num palco, sem ter entendido e estudado os fundamentos do teatro", reflete.

Esse olhar técnico, aliado à sensibilidade interpretativa, tem permitido a Mariana transitar com fluidez entre diferentes linguagens — da novela diária ao cinema, passando pelo streaming, num ano que ela própria classifica como "de ouro".

Entre um papel denso e outro, Mariana revela um desejo guardado: interpretar uma grande vilã. "Queria ter a permissão de viver isso na ficção. Uma personagem que pode ser humana, ter motivações complexas, mas com o prazer pela maldade", confessa. A vontade de explorar novos registros é alimentada por uma paixão que, segundo ela, não tem data de validade: "Acho que nós, artistas, somos os únicos trabalhadores que não têm vontade de se aposentar, que querem exercer a profissão até morrer". 

Globo/Divulgação -
Fotos: Globo/Divulgação -

 


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