Livros

Trías e Enriquez mergulham no horror latino-americano em novos romances

Mariana Enriquez e Fernanda Trías dão voz a uma literatura cheia de imagens fantásticas e seres sobrenaturais

Elas fazem parte de uma geração de autoras latino-americanas que combinam terror e estilo fantástico para falar de um continente marcado por vários tipos de violência. Vozes de uma literatura que, cada vez mais, explora a metáfora para mergulhar nas desigualdades e  destruições ambientais do continente, a colombiana Fernanda Trías e argentina Mariana Enriquez publicam novos romances nos quais natureza, fenômenos sobrenaturais e experiência humana se entrelaçam em narrativas envolventes.

Metáforas da existência

Em 2020, no primeiro ano da pandemia de covid-19, a escritora Fernanda Trías ficou confinada em uma residência de frente para as montanhas de Bogotá. A capital colombiana é rodeada por belas montanhas, muito verdes e, geralmente, envoltas em neblina. Essa paisagem era a única vista possível para Fernanda naquele período em que sair de casa parecia uma condenação à morte e, aos poucos, a autora desenvolveu um vínculo afetivo com as montanhas. "Era como se pudesse falar com elas e comunicar todos os meus medos. Havia algo de muito meditativo, mas também algo inquietante: a sensação de estar confinada diante de uma imensidão. Eu observava o clima, a neblina, a luz, as mínimas mudanças", conta. E foi dessa observação que surgiram a voz da mulher e a voz da montanha que  guiam o romance A montanha das fúrias, publicado pela Instante.

No livro, a mulher torna-se uma espécie de cuidadora dos limites da montanha. Qualquer anormalidade deve ser relatada ao Zelador. Entre o ofício de observar, cuidar e contemplar, ela aproveita para escrever as próprias memórias, que envolvem uma infância nada idílica, marcada por violência e segredos. Um dia, um corpo  aparece perto da casa da narradora. Com ajuda do Zelador, ela enterra o cadáver. Mas outro aparece em uma sucessão de corpos cujos significados estão ancorados em uma tradição fantástica que tem retornado com muita expressividade na literatura contemporânea latino-americana. 

A natureza como personagem, mas também como metáfora para violências que incluem a discriminação de gênero, a crise climática, a desgiualdade social e o colonialismo tem aparecido como uma tendência comum nessa produção. Fernanda conta, em entrevista, que queria fazer da narrativa um relato sobre uma fúria ancestral sedimentada nos mais diversos aspectos da existência humana. "Interessava-me uma fúria que não fosse simplesmente explosiva, mas mais antiga. Uma raiva que nasce do abandono, da violência familiar, da pobreza, de ter nascido em um lugar e em um corpo que não foram escolhidos", diz. "Mas também uma fúria mais ampla: a da terra violentada, a dos corpos explorados, a de tudo aquilo que parece ter sido condenado a suportar em silêncio." Assim, a fúria é o motor íntimo da protagonista, mas também uma energia da paisagem, uma força que atravessa o romance inteiro.

Do ponto de vista literário, Fernanda é uma autora que se interessa pelas zonas ambíguas dos vínculos. "Pelos lugares onde amor e violência se misturam: a dependência, a dívida, o cuidado, o ressentimento, o desejo de ser visto. Interessa-me como alguém pode precisar profundamente de outra pessoa e, ao mesmo tempo, sentir-se destruído por ela", explica. Relações assimétricas entre mães e filhas, cuidadoras e corpos vulneráveis, quem abandona e quem fica são comuns nos romances da autora colombiana, que ganhou o prêmio Sor Juana Inés de la Cruz por A montanha das fúrias.

  • A montanha das fúrias 
  • De Fernanda Frias. Tradução: Marina Waquil. Instante,
  • 208 páginas.
  • R$ 79,90

Literatura sombria

A estranheza ganha ares de normalidade nos 12 contos de terror de Um lugar ensolarado para gente sombria, da argentina Mariana Enriquez, Tudo parece muito natural em uma  moça que conversa com os mortos pelas ruas de Buenos Aires, um pintor que, na verdade, é uma criatura que consome pessoas, uma moça que perde a pele e sua irmã, que teme virar pássaro. É exatamente essa sensação de normalidade que provoca a tensão dos contos.

Mariana Enriquez faz parte de uma geração de argentinas que apagaram a fronteira entre os gêneros terror e alta literatura. Ao lado de nomes como Samanta Schweblin, de Distância de resgate e O bom mal, e Dolores Reyes. de Cometerra, a autora aposta no horror para falar, principalmente, de uma violência que encontra eco na sociedade e nas individualidades. "Eu diria que tenho mais confiança no sobrenatural como algo cotidiano, não mais como algo que irrompe na realidade, mas como parte da própria realidade", avisa a escritora, em entrevista ao Correio.

No livro anterior, As coisas que perdemos no fogo, lançado no Brasil em 2023, também uma coletânea de 12 narrativas, Mariana trazia o terror e o sobrenatural de maneira mais disruptiva e abrupta. Agora, ela acredita, essa combinação está mais incorporada e os contos são assumidamente mais fantásticos. "São menos ambíguos. Em algum momento, cansei um pouco da ambiguidade e comecei a escrever com o terror como algo muito mais visível e direto", avisa. 

Boa parte dos contos começam com situações bastante comuns antes de mergulharem no sobrenatural. Essa dinâmica é, para a autora, praticamente uma regra da narrativa de terror, que precisa da ruptura da realidade para tomar corpo. "O sinistro que ergue a cabeça, a paranoia de acreditar que aquilo que estamos vendo não é como o percebemos — e ter razão. Nos meus contos, além disso, uma vez que essa porta para outra realidade se abre, é irreversível, não há mais volta. É como se, ao se romper a realidade ou a lógica narrativa, o próprio relato também começasse a se decompor", analisa.

Mariana, no entanto, rejeita a ideia de que escreve terror como uma maneira de falar da realidade. Há metáfora nesse estilo sim, mas isso não é tudo. "Eu não escrevo horror para falar de outra coisa, nem essa é a forma de utilizar o gênero que me interessa. Nos meus contos, e no terror de que gosto, os acontecimentos são verdadeiros, existe uma verdade na ficção", avisa. Em Um artista local, por  exemplo, um casal visita uma cidade abandonada do interior da Argentina e se depara com um monstro e o relato é feito em várias camadas de narrativa. Temas como maternidade, isolamento e, até mesmo, turismo são tratados ali. "Mas, se eu quisesse falar desses assuntos de maneira realista, faria isso. O que quero é escrever um conto sobre uma cidade amaldiçoada, com ares lovecraftianos, que também tenha em seu DNA os povoados do pampa que ficaram quase abandonados quando os trens deixaram de passar, depois dos governos neoliberais. O terror na cidade não é uma metáfora nem um espelho. É uma fusão e uma convivência", diz a autora.

Ela lembra ainda que tanto a paisagem Argentina é importante quanto a história do país, cheia de elementos que dialogam com o terror como gênero, como os desaparecimentos, a profanação do cadáver de Eva Perón, os centros clandestinos e secretos de detenção na ditadura, corpos de desaparecidos políticos que surgem em valas comuns à medida que se investiga um pouco mais. "As crises econômicas intermináveis também criam uma sensação de vertigem constante, de insegurança, que está muito próxima dessa sensação de ser constantemente ameaçado que existe no terror", compara a autora.

  • Um lugar ensolarado para gente sombria
  • De Mariana Enriquez. Tradução: Elisa Menezes.
  • Intrínseca,
  • 222 páginas.
  • R$ 79,90

 


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