COBERTURA

"O rap é a rua": Com 14 mil pessoas, Sesc+Rap celebra hip-hop em Ceilândia

Neste sábado (29/8), festival reuniu diferentes gerações da música, com shows de Djonga, Duquesa, Ndee Naldinho e do grupo Viela 17

Duquesa durante a apresentação no Sesc+Rap  -  (crédito: Átila Júnior/CB/D.A.Press )
Duquesa durante a apresentação no Sesc+Rap - (crédito: Átila Júnior/CB/D.A.Press )

Ao som de rimas que atravessam gerações, Ceilândia recebeu neste sábado (29/8) uma das maiores celebrações da cultura hip-hop do Distrito Federal. Com público estimado em 14 mil pessoas, a quarta edição do Festival Sesc +Rap reuniu nomes consagrados da cena nacional, como Djonga, Duquesa, Ndee Naldinho, o grupo brasiliense Viela 17, além de artistas locais.

Mais do que um festival de música, o evento marcou as comemorações dos 53 anos do movimento que transformou a cultura de rua em uma das principais expressões artísticas do país. Indo além dos palcos, o evento contou com batalhas de rima, apresentações de breakdance e grafite ao vivo que deram vida aos quatro elementos que formam a cultura hip-hop: MC, DJ, dança e arte urbana.

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Para o rapper Japão, fundador do Viela 17 e um dos nomes históricos do rap do Distrito Federal, espaços institucionais como o Sesc representam o reconhecimento de uma trajetória construída nas periferias ao longo de décadas. “Quando uma instituição desse porte abre as portas para um evento como o Sesc +Rap, ela não está só cedendo um palco. Está reconhecendo publicamente que a cultura da periferia tem valor, tem técnica e tem história”, afirmou o artista ao Correio.

Celebrando 37 anos de carreira, o artista destacou que o hip-hop continua sendo uma ferramenta de transformação social para jovens das regiões periféricas. “O hip-hop foi, para muita gente da minha geração, e continua sendo para as novas, a diferença entre um caminho de oportunidade e um caminho de risco. A cultura dá pertencimento, dá voz, dá profissão”, ressaltou.

Durante o show, Duquesa também compartilhou parte da própria trajetória com o público. A artista contou que estudou muito para chegar onde está e relembrou o período da adolescência, quando não gostava de se olhar no espelho. 

 

Djonga, apresentação no Sesc+Rap
Djonga, apresentação no Sesc+Rap (foto: Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press )

Duquesa, apresentação no Sesc+Rap - Átila Júnior/CB/D.A.Press 

A artista também destacou a importância de acreditar em outras possibilidades por meio da arte. “Isso que é hip-hop: é esperança, expectativa, fazer com que vocês vejam música, arte como possibilidade, como profissão. Então, ninguém vai sair daqui desistindo, certo?”, disse.

Uma das atrações mais aguardadas da noite, Djonga foi recebido por uma multidão que cantou os sucessos do artista mineiro do início ao fim da apresentação. Antes de subir ao palco, o rapper relembrou a influência que Brasília exerceu em sua formação artística. “Tinha uma galera de Brasília que frequentava os duelos de MCs em Belo Horizonte. Eu também vi um show do Viela 17 há muitos anos, numa época em que eu ainda não tinha coragem de subir no palco. Ver pessoas parecidas comigo fazendo acontecer me dava vontade de fazer a parada acontecer também”, contou.

O artista também destacou a parceria com o rapper Froid, que viveu grande parte da vida no Distrito Federal, e classificou a capital como uma parte importante de sua trajetória. “Brasília faz muito parte da minha história”, resumiu.

 

Duquesa, apresentação no Sesc+Rap
Duquesa, apresentação no Sesc+Rap (foto: Átila Júnior/CB/D.A.Press )

Djonga, apresentação no Sesc+Rap - Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press 

Questionado sobre a relação entre as referências a Exu presentes em seu trabalho mais recente e a cultura hip-hop, Djonga associou o rap à ideia de caminho, questionamento e transformação, “O rap é a rua. O rap é o caminho. Exu é o pai do caminho e do questionamento. Acho que o rap é a grande música do questionamento, da rua e dos caminhos que precisam ser seguidos”, afirmou.

Ao Correio, o artista defendeu que a força do movimento pode ser medida pelo espaço que a cultura conquistou nas últimas décadas,“Se você olhar as músicas mais ouvidas do Brasil, os produtores, a dança, a moda, tudo está muito ligado ao hip-hop. Durante muito tempo tentaram ignorar essa cultura, mas hoje ela está em todas as áreas.”

Em Ceilândia, região que historicamente convive com estigmas sociais e preconceitos, Djonga defendeu que o hip-hop teve papel decisivo na formação de gerações inteiras de jovens brasileiros “Se não fosse o hip-hop, o Brasil seria totalmente outro”, declarou. “Os Racionais educaram uma geração. Ensinaram a gente a ser preto, a ser favelado, mas também a querer mais, a correr atrás dos nossos direitos.”

Segundo o artista, o movimento ajudou a construir consciência política, identidade e autoestima para milhares de jovens “O hip-hop mostrou para o Brasil o que ele é. Jogou na cara do Brasil quem é o Brasil”, afirmou.

 

Breaking dance no Sesc+Rap
Breaking dance no Sesc+Rap (foto: Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press )

Breaking dance no Sesc+Rap- Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press 

Além dos palcos: Espaço Experiência 

O Sesc também preparou um espaço, onde o público encontrou barracas de empreendedores, brechós e atividades voltadas à cultura periférica. Com serviços gratuitos de maquiagem e tranças, além de oficinas, rodas de conversa, batalhas de rima, apresentações de breaking e demonstrações de grafite ao vivo.

Entre as artistas que participaram da programação estava a grafiteira e DJ Kalm, do Paranoá. Para ela, reunir diferentes elementos do hip-hop em um mesmo espaço também representa uma forma de dar visibilidade às mulheres que fazem parte da cena. “Eu acho que é um evento super necessário que traz esse empoderamento para nós mulheres grafiteiras”, afirmou.

 

Grafiteira e DJ Kalm
Grafiteira e DJ Kalm (foto: Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press )

Grafiteira e DJ Kalm - Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press 

Kalm dividiu a tela com a grafiteira Santa Surda e a artista visual Síria, responsável pelas letras da obra. “São fundamentais dentro do movimento grafite”, destacou Kalm. A pintura buscou ressaltar a presença feminina no hip-hop. Para a artista, participar do festival também foi uma oportunidade de mostrar ao público a importância do movimento para além da música.

O empreendedorismo também ganhou espaço no evento. Mariana, que mantém uma loja de bijuterias — feitas por ela mesmo, participou como expositora e destacou a oportunidade de apresentar seu trabalho ao público. “Eu achei muito interessante essa proposta para apoiar os empreendedores da quebrada”, disse. Para ela, iniciativas como a do festival podem abrir espaço para que mais produtores periféricos apresentem seus trabalhos em futuras edições.

A maquiadora Kelly Fernandes produziu várias pessoas, ela conta que vê a maquiagem como uma forma de expressão e resistência. Mulher, mãe e trabalhadora da periferia, ela destaca que a rotina muitas vezes deixa pouco espaço para o autocuidado. No festival, encontrou nas trocas com outras mulheres uma oportunidade de valorizar a beleza e a identidade periférica.

“Levar meu trabalho para um festival como o Sesc +Rap é como estar em casa. O hip-hop e a cultura periférica sempre foram, para mim, uma forma de linguagem e resistência. A maquiagem é uma ferramenta para eu me expressar e me posicionar no mundo”, afirmou.

Povo fala: a música que não pode faltar 

Entre os shows e as atividades do festival, o público também entrou no clima para escolher as músicas que não poderiam ficar de fora da programação. Mariana foi direta ao apontar, Turma da Duq, de Duquesa, “É a melhor, com certeza”. Lançada em 2024, a faixa já acumula quase 40 milhões de reproduções no Spotify. 

As amigas Letícia e Maria Eduarda escolheram Santa Ceia, de Djonga, e Purple Rain, de Duquesa.  A preferência por Purple Rain também apareceu nas respostas de Victor Oliveira e Junio Ponte, que acrescentaram Big D!!!!! Pt. 2 à lista. 

As duas faixas fazem parte de Taurus, Vol. 2, trabalho que consolidou uma das fases de maior destaque da carreira da Duque. João Victor foi além e emendou uma sequência de músicas desejadas: Gemini, Purple Rain e Fuso. E pra fechar, ele ainda escolheu duas de Djonga: Esquimó e Ufa.

*Estagiárias sob supervisão de Paulo Floro.

  • Djonga, apresentação no Sesc+Rap
    Djonga, apresentação no Sesc+Rap Foto: Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press
  • Duquesa, apresentação no Sesc+Rap
    Duquesa, apresentação no Sesc+Rap Foto: Átila Júnior/CB/D.A.Press
  • Breaking dance no Sesc+Rap
    Breaking dance no Sesc+Rap Foto: Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press
  • Grafiteira e DJ Kalm
    Grafiteira e DJ Kalm Foto: Anna Júlia Castro/CB/D.A.Press
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postado em 30/08/2026 22:04 / atualizado em 30/08/2026 22:06
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