Música

Equale celebra 80 anos de Aldir Blanc em novo álbum

Em entrevista ao Correio, grupo vocal carioca Equale fala sobre lançamento de álbum para celebrar talento do compositor Aldir Blanc, que completaria 80 anos em 2026

Grupo Equale, do Rio de Janeiro, faz arranjos vocais de músicas pouco conhecidas de Aldir Blanc -  (crédito: César Adnet)
Grupo Equale, do Rio de Janeiro, faz arranjos vocais de músicas pouco conhecidas de Aldir Blanc - (crédito: César Adnet)

As letras de Aldir Blanc, musicadas por parceiros como João Bosco, Guinga e Maurício Tapajós, ganham novos contornos. O grupo Equale, formado por 17 pessoas, reformula, a partir de arranjos vocais, canções do compositor carioca que completaria 80 anos em 2026. A proposta de privilegiar as melodias coloca a poesia em primeiro plano, o que destaca ainda mais o trabalho com as palavras desenvolvido por Aldir.

Retrato do Rio de Janeiro e crítica social, outras tônicas da obra do letrista, também foram aspectos considerados na escolha do repertório que inclui 12 canções, as quais escapam do cânone. Nesse sentido, o álbum Salve, Aldir chacoalha o baú de memórias do compositor e resgata trabalhos menos conhecidos, como Ronco da Cuíca, Êxtase e Navio Negreiro.

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Sucessos como O bêbado e o equilibrista ficaram de fora, pelo menos do álbum. Isso porque o show, origem do projeto, alcança Aldir em maiores proporções. Ainda não há previsão para turnês pelo país do material lançado pela Biscoito Fino. André Protásio, diretor musical e regente do Equale, cita a definição que Dorival Caymmi faz de Aldir Blanc para explicar a importância do artista carioca na música brasileira.

"É um ourives da canção. Acho que ele está entre os grandes poetas da canção mesmo. Você vê como as canções também mudam, mas que, ao mesmo tempo, ele tem uma personalidade na letra. Por isso, é tão bom assim", avalia. Ao Correio, o músico defendeu a importância de homenagear os grandes compositores brasileiros como forma de ampliação do legado.

Confira a entrevista:

Aldir Blanc é, acima de tudo, um letrista. O álbum deixa a sensação de que os arranjos vocais colocam as letras em primeiro plano. Como é que vocês trabalharam isso?

O Equale tem feito esse trabalho, desde o início dos anos 2000, com discos em homenagem a compositores. Dentro dessa feitura dos arranjos, a gente sempre procura variar bastante a formação de música vocal, dos diferentes naipes. É lógico que a letra e a melodia estão sempre em primeiro plano, mesmo que você faça uma textura vocal muito complexa. Mas acho que sempre a gente procura defender a melodia.

No caso do Aldir Blanc, você acha que essa proposta valorizou ainda mais o que ele compôs?

Acho que sim, até pelo fato de a gente pegar algumas músicas que não são tão conhecidas. Por exemplo, a gente abre com Comissão de frente. Quando eu escutei essa música, comecei a ver essas imagens, como se fosse num no meio do carnaval, no centro da cidade, esperando o bloco passar e você vendo aquelas fantasias, aqueles personagens todos, ele sempre cria muitas imagens com as frases. A gente escolheu vários tipos de poesia. Tem as crônicas sociais, os causos que ele contava, enfim, diferentes facetas do Aldir que estão nesse álbum.

Como se deu a escolha do repertório? O Bêbado e Equilibrista, por exemplo, ficou de fora.

Eu acho muito difícil fazer algumas versões. Bêbado Equilibrista a gente faz no show, mas não colocamos no disco. A gravação da Elis Regina, para mim, é um negócio. E também as gravações do João Bosco são lindas. Então, falei: "Não, não vamos conseguir fazer nada". Pelo menos não pintou uma inspiração para fazer uma coisa realmente diferente que fosse bacana. A gente privilegiou, para, talvez, chamar mais a atenção, um repertório que não foi tão cantado.

Quais delas?

Querelas do Brasil, com Maurício Tapajós. Uma outra, que é também muito pouco conhecida, Navio Negreiro, gravada apenas no disco de inéditas dele, depois que ele faleceu, uma música que estava ali escondida há 30 anos. Acho que ficou uma coisa super emocionante com a participação do Guinga e da Ilessi cantando. A gente sempre procura pegar algumas músicas que a gente sabe que vai conseguir trazer uma versão nova bacana.

Qual você diria que é a razão de ser de uma releitura como essa?

Primeiro, é um prazer pessoal, de todos os cantores. A escolha é de comum acordo. A gente pega um compositor, escolhe o repertório junto e distribui para os arranjadores. Então, todo o processo é orientado para render uma grande homenagem para esse compositor e fazer esse mergulho. Ver outras possibilidades de sonoridade que as músicas trazem também. Acho que a razão de ser é mesmo de valorizar o trabalho de artistas e também de curtir o processo.

Que lugar vocês conferem ao Aldir Blanc como poeta da canção?

Acho que ele está entre os grandes mesmo, como letrista e até pelo trabalho dele com vários outros parceiros. Como diz o Dorival Caymmi, ele é um ourives da canção. Ele faz uma letra que é uma coisa impressionante. Boa parte do repertório é com o João Bosco, que foi o grande parceiro dele. Mas você vê como as canções também mudam, mas que, ao mesmo tempo, ele tem uma personalidade na letra. Então, acho que é tão bom ver o trabalho pronto, ele navegando também com vários parceiros e tendo uma sonoridade, uma poesia e uma letra tão marcantes.

Vocês fizeram outros projetos. Por que a escolha por Aldir Blanc?

Fizemos do Gilberto Gil, Milton Nascimento, Caymmi, e agora do Aldir. Acho que ele está entre todos eles e a gente quis privilegiar isso, de ser um letrista que tem vários compositores parceiros. O fato de ele  também ser um poeta carioca. Somos um grupo carioca e a gente até agora não tinha feito nenhum compositor carioca. A gente tem um carinho especial por essas letras, por esses lugares que o Aldir viveu e que ele vai contando esses personagens. A gente se reconhece também nessas letras.

Aldir consegue conectar a tradição do samba e a crônica do Rio de Janeiro. Como você define esse artista? Ele é um é um pós-tropicalista?

Nessa geração que começou a despontar mais no final da década de 1960 e no início da década de 1970, acho que eles mesmo beberam de todas essas coisas, dos festivais, da Bossa Nova, de Tropicália. Ele tem essas imagens, que é uma coisa tropicalista. Então, tem uma coisa aí que é meio Chico Buarque, da bossa nova, da canção brasileira mesmo, que vinha desde Ary Barroso, de Dori Caymmi. Ele também vem dessa dinastia. Ele tem uma profusão de ideias. Algumas vezes, você vai pegar, ele tem essa parte da crítica social, um lado cronista também. Ele vai atacando em várias frentes, então, talvez seja um pós-tropicalista, mas não sei se ele ia gostar muito dessa classificação.

Como o mergulho da obra do Aldir Blanc te transformou?

Fiquei muito impressionado com o efeito de quando a gente começou a fazer os shows do Aldir Blanc, quando você coloca no palco. Porque, na verdade, a gente estreou o show há um ano e meio  no projeto do BNDES. E foi começando a tomar realmente mais, digamos, consistência. Tinha dias que a gente cantava Resposta ao tempo e era uma emoção. Era emoção, porque cantar arranjo vocal não é fácil. Depois de passar esse ponto é que você começa a interiorizar essas mensagens, essas crônicas, todas essas imagens que o Aldir pensou. Isso é um barato assim. É uma transformação mesmo.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

 

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JP
postado em 21/09/2026 05:00
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