Cinema

Marcos Guttmann retorna ao Festival de Brasília após 34 anos

Alinhado na disputa pelos prêmios Candango, 'Tudo é tempo' fala do governo do Brasil e traz de volta um veterano do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Marcos Guttmann

Carlos Ibrahin: mudanças de postura, em anos de vivência -  (crédito:  Bio Solar Filmes )
Carlos Ibrahin: mudanças de postura, em anos de vivência - (crédito: Bio Solar Filmes )

"Se eu faço cinema hoje, posso dizer isso com tranquilidade: é por conta do Festival de Brasília. As pessoas tiveram carreiras impulsionadas ali pelo festival, pela vitrine de ter filmes (anteriores) vistos no evento. A minha relação com o festival vai de 35 anos atrás. Comecei com um curta, de modo despretensioso, em 1991 (Numa beira de estrada): era um curta mudo, preto e branco, 16mm. Não estudei cinema, me formei na faculdade de direito. Brinco que eu fiz errado, eu não fiz direito: ficava fazendo curtas durante a faculdade. E, do festival, esses curtas foram para o mundo", conta o diretor Marcos Guttmann, que retorna ao evento, com o documentário Tudo é tempo, 34 anos depois de levar prêmios de direção e de melhor filme experimental com o curta Lapso, três anos antes de voltar a competir, por Vicente (1995).

Com o traçado surreal, no curta Numa beira de estrada, Guttmann sondava o dia a dia de um espertalhão que furava pneus para subsistir como borracheiro; agora, com Tudo é tempo o cerco está nas consequências dos atos do grupo de privilegiados (e às vezes, golpistas) que, por meio de eleição, interferem no cotidiano de milhões de brasileiros. "O Tudo é tempo não tem o componente de plataforma (eleitoral), mas gera um interesse porque os períodos eleitorais, de vários anos, são uma moldura do filme, servem de plano de fundo. O filme começou com uma intenção de acompanhar alguns personagens durante o primeiro mandato do Lula. Nasceu disso. Finalmente vamos ter um presidente de esquerda e parece que alguma coisa mudar no Brasil, se notava...", comenta o cineasta carioca.

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Guttmann teve por referência o filme de Nikita Mikhalkov Anna dos 6 aos 18 (1994), que, por 12 anos escrutinou a Perestroika, por meio do crescimento da filha. "Nikita usa muito material de arquivo, e quando comecei meu filme, percebi que o arquivo estava sendo feito: os meus personagens eram arquivo. Então, veio uma decisão conceitual de só usar o que fosse captado por mim, ao longo de anos. O filme se tornou uma relação dos personagens (eleitores) com o tempo, uma reflexão sobre o tempo e a passagem dele, e muito também sobre a relação que eu desenvolvi com eles", avalia.

O começo da jornada foi empreendido sem dinheiro, no esquema de guerrilha, com amigos e câmera emprestada, isso até 2006. Houve uma retomada, em 2022, já com verba de R$ 500 mil do Fundo Setorial (Ancine) para finalização, sob trabalho arqueológico, com digitalização de fitas antigas e montagem do material. Próximo de Walter Carvalho (diretor de fotografia, cineasta e irmão do documentarista Vladimir Carvalho), Guttmann, que foi assistente de direção de Carlota Joaquina (de Carla Camurati), ressalta a importância de Vladimir, ao mesmo tempo em que assume a influência de Eduardo Coutinho, no processo de escolha do grupo votante do Colégio Pedro II (Rio), objeto de seu filme.

"Realmente, foi fundamental ter assistido a uns 80% dos filmes do Coutinho. Acho que isso reflete um pouco no meu longa. Eu admirava muito, justamente a relação que ele desenvolvia com os personagens e como ele registrava, e os observava, sem julgá-los. Daí, vem o maior aprendizado: o cinema observacional, quase psicanalítico, do Coutinho. Fiz mais de 40 entrevistas e analisei essas entrevistas e, assim, meu objetivo era acompanhar o ano após ano de pessoas com expectativas diferentes. Percebi em quatro pessoas (presentes no filme) que havia uma certa diversidade. Queria gente que tivesse a vontade (de eleição) do Lula e quem optasse pelo José Serra (PSDB)", explica Guttmann.

Independentemente de afinidades, e sempre disponíveis para gravações Weber, Carlos, Cristiane e Fernando formaram o grupo, eventualmente, encorajado a interagir em debates. "O debate, na tevê, está menos relevante, esvaziado, hoje porque o candidato pode fazer isso. Há 20 anos, jamais poderia se ausentar, e faço essa relação temporal: hoje, as pessoas se informam de outro modo, nas redes sociais", comenta Guttmann, que completa: "O ânimo com política mudou ao longo do processo do filme". Isso, inevitavelmente, tocou até o diretor: "Mudou, sim, mudou. Mudou, bastante — já fui mais engajado".

Para além da transformação midiática, Guttmann testemunhou redefinições no processo de participação popular, dada a singularidade de percepções de gente como a gente. Do quarteto entrevistado para o filme, a médica infectologista Cristiane Rosa tinha o voto fechado para o PSDB, e vinha "com uma argumentação muito sólida", nas palavras do diretor. "A achava, pela visão, quase um arquétipo de classe média, com aquele sonho da casa própria, e toda um discurso muito articulado. Ela terá o arco de transformação mais radical", adianta o cineasta. Presença inusitada está no poeta (algo nômade) Heber Cunha, com visão afiada sobre o entorno — "acho que ele é um coringa, porque ele é bastante surpreendente", aponta o diretor.

Filho de sindicalista e ex-preso político, Carlos Eduardo Ibrahim, nascido no Panamá, durante exílio paterno, integra discussões do filme. "Vi que ele tinha uma ligação muito forte com a política, e aí, na primeira entrevista, fui descobrir que ele era filho de José Ibrahim (presidente de sindicato, torturado e que, em 1969, foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick)", observa Guttmann. "Isso tudo já tornava a figura dele muito interessante", destaca.

Cheio de carisma, o surpreendente aposentado Fernando Pereira completa o time de personagens que tomam conta do documentário de Guttmann. Fernando que já foi motorista de caminhão, caseiro, motorista de madame e até tirou onda como puxador de samba traz outro curioso dado: mesmo transferido para a favela Cidade de Deus, com a família, em fins dos anos de 1960, ele se recusou a transferir o título eleitoral atrelado à comunidade de Humaitá. "Fernando representa a sabedoria popular de modo muito impressionante, e segue surpreendendo quando, em 2018, nas eleições, ele dispara: 'Ô, acho que tem que mudar'", conclui Marcos Guttmann.

  • Vinte anos de vida política nacional habitam o imaginário dos entrevistados de Tudo é tempo
    Vinte anos de vida política nacional habitam o imaginário dos entrevistados de Tudo é tempo Foto: Bio Solar Filmes
  • Heber Cunha traz uma perspectiva afiada na análise da conjuntura do país
    Heber Cunha traz uma perspectiva afiada na análise da conjuntura do país Foto: Bio Solar Filmes
  • O diretor Marcos Guttmann com a entrevistada Cristiane Rosa
    O diretor Marcos Guttmann com a entrevistada Cristiane Rosa Foto: Bio Solar Filmes
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postado em 14/09/2026 05:01 / atualizado em 14/09/2026 05:50
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