Crítica

Crítico e humorado, olhar mordaz sobre Catalão de ex-morador diverte

Ffetiches, inseguranças pessoais, desespero por validação e resgate de dignidades habitam o longa-metragem de Daniel Nolasco

 Cena de Pequenas tragédias: peso para o tom confessional de Daniel Nolasco -  (crédito:  @Felipe Quintelas)
Cena de Pequenas tragédias: peso para o tom confessional de Daniel Nolasco - (crédito: @Felipe Quintelas)

Crítica // Pequenas tragédias ★★★★

Diferenças interditadas

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Uma cidade adoecida pela mediocridade de repelir progressistas e salvaguardar "cidadãos comuns" (moralistas): assim é a Catalão representada pela ótica do diretor Daniel Nolasco, que defende o inventivo documentário Pequenas tragédias. O idílico potencial de lugarejo interiorano visto em Férias de amor (comédia citada no filme) se esvai quando, sob o olhar maduro de Nolasco, aponta-se para o extermínio do povo Guayaz (na região) e para crueldades do ódio coletivo subjacente à existência de gays. No filme, o tapete é levantado, as hostilidades, crescentes, mas o cerco da narrativa não aponta para vingança. Existe uma porção de amor e (quase) pertencimento reclamada pelas origens de Nolasco, com potente e sábio domínio sobre o tema do preconceito.

Dividida entre lugares em que (o diretor) "transou" e aqueles "em que sofreu ameaças", a cidade vem descortinada pela mordacidade do narrador (testemunha ocular) dos lugares públicos apequenados pelas ausências (de amigos gays fagocitados pela homofobia estrutural), pelos silenciamentos e pelos suicídios, mas ainda pelo abraço ofertado por desconhecidos (ressoa o "Eu sempre dependi da gentileza de estranhos", cunhado por Tennessee Williams). A intimidade com o espectador é conquistada como no relato de um diário escancarado.

Sem filtros, Nolasco fala de códigos e comportamentos, junto com fetiches, inseguranças, desespero por validação, e de dignidades de conhecidos dele recobradas (nem que seja de modo póstumo). Personagens refratários, apartados do meio gay recebem a visão do cineasta (encenado por Guilherme Théo, na tela), pleno, no poder moderador da narrativa (algo próximo ao estilo de Wes Anderson). Pequenas tragédias descreve abertos flertes e assinala o obscuro lado homoerótico de uma simples pelada de futebol ou de uma singela rodada de "pega-varetas".

Num momento hilário, a mãe compactua com a sexualidade do filho, ao que solta um: "Tá tudo bem, só não conta pra ninguém, tá?". O constrangimento associado a "filme de viado" (como assinalado na trama) é tratado com leveza e ironia, mas com a responsabilidade de referendar Guy Hocquenghem, Ney Matogrosso e até a série Barrados no baile. Entre os adendos diretos, e divertidos, o cineasta confessa ter prometido "ao distribuidor (do filme) não explicitar cenas de sexo". Mas, debela a limitação, por momentos, num entreato da trama. Há criatividade no uso de cenas a céu aberto (embebidas por Lars von Trier), e o relato de cicatrizes (aparentes ou não) ganham peso com o coadjuvante Lucas Drummond e a artista Aivan — respectivamente, Samuel, o nerd tímido que traz uma relevância sacra, aos moldes de um São Sebastião (na cena do acolhimento), e Monalisa, a acuada trans sabotada no pretendido enterro idealizado (aos moldes de A falecida), e que emociona no canto de "O amor é tão longe".

 

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postado em 15/09/2026 11:43
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