CINEMA

Mostra Brasília de Cinema catapulta diretores para o mundo

Diretores brasilienses, que se destacaram internacionalmente a partir da Mostra Brasília de Cinema, falam sobre a importância do prêmio e sobre os problemas da produção

Meu amigo Nietzsche, de Fauston Silva: carreira internacional  -  (crédito: Divulgação)
Meu amigo Nietzsche, de Fauston Silva: carreira internacional - (crédito: Divulgação)

Com a exibição de O agente secreto na edição passada, homenagens a grandes artistas nacionais e seleção de filmes de todo o país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem se mostrado cada vez mais como uma alavanca para filmes brasileiros, de todos os cantos do território. Com toda dificuldade de realização e o foco nos principais nomes da cena nacional, ainda existe espaço para o cinema da capital em seu próprio festival?

Essa responsabilidade de iluminar as produções brasilienses tem ficado quase exclusiva com a Mostra Brasília, já que a Mostra Competitiva Nacional trouxe apenas um filme do DF este ano. Catarina Accioly, diretora, conta que frequenta o festival desde antes da existência da Mostra Brasília. "Como na competitiva nacional são selecionados pouquíssimos filmes, é fundamental que tenhamos espaço para distribuir nossos projetos em nossa cidade. Imagina uma produção circular no mundo e não ser vista na cidade onde foi realizada e pelos profissionais que a fizeram. E é importante que o público do DF se veja nas telas", destaca.

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Catarina apresentou Rodas de Gigante, projeto sobre a trajetória de Hugo Rodas, na Mostra Brasília e considera necessário que o público da capital assista em primeira mão. O prêmio de Melhor Filme, ao lado de Melhor direção e Melhor montagem, fez com que o filme se difundisse em outros festivais. "O prêmio de melhor filme garantiu que pudéssemos participar de 89 festivais e, hoje. termos mais de 30 prêmios, tendo passado em todos continentes. Sendo assim, para um filme de guerrilha como o Rodas de Gigante, com forte apelo para a cultura do DF, foi incrível termos tido esse primeiro espaço em nosso território para depois ganharmos o mundo", conta.

O diretor André Luiz Oliveira, realizador de Meteorango Kid — Herói Intergalático e Mito e Música: a mensagem de Fernando Pessoa, acredita que a Mostra Brasília sempre será positiva e que, fora o FAC, é uma das responsáveis pelo fomento dos filmes brasilienses. "É um dos poucos mecanismos de celebração, reconhecimento e visibilidade da pungente porém ainda pouco conhecida, atividade cinematográfica brasiliense. Outro dia, por exemplo, conversando com o gerente de um banco, ele ficou pasmo quando falei que se produzia cinema em Brasília. Assim pensa a maioria das pessoas que ocupam os espaços públicos de decisões políticas e governamentais", diz André.

O realizador já foi premiado com Mito e Música: a mensagem de Fernando Pessoa, e Ziriguidum Brasília: arte e o sonho de Renato Matos no festival. Para ele, o cinema brasileiro precisa de energia e de vontade política. "Precisa também de estratégias de reeducação do público que se afastou demais para ocupar o seu próprio mercado consumidor, e produzir a cultura de transformação que ele sabe produzir quando tem condições", ressalta. Mito e música: a mensagem de Fernando Pessoa foi exibido em Portugal.

A Mostra Brasília também foi responsável por impulsionar cineastas iniciantes. Fauston da Silva exibiu o curta Meu Amigo Nietzsche no festival, o que foi a primeira porta aberta para o projeto. "Foi uma porta de entrada incrível. Acho que a mostra cumpre esse papel para muitos realizadores daqui. Muitas vezes, é a primeira oportunidade de ter o trabalho reconhecido, de ver o filme no Cine Brasília, com público, vivendo aquilo que é uma parte essencial do cinema: a experiência coletiva. Para quem está começando, principalmente, ter essa primeira janela é fundamental. Comigo foi assim", relata.

Após o Festival de Brasília, o projeto passou pela Espanha, por Cuba e pela França, no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. "Na exibição, numa sala com cerca de 1.400 pessoas, o público terminou de pé, aplaudindo e cantando. É uma daquelas experiências que ficam para sempre na memória de quem faz cinema", conta. O festival francês tinha a política de não conceder dois prêmios ao mesmo filme, mas o projeto brasiliense saiu com melhor comédia e prêmio do público.

"Talvez uma das coisas mais bonitas seja perceber que essa trajetória não terminou no circuito de festivais. Até hoje Meu Amigo Nietzsche é muito exibido em escolas e universidades. É um filme presente no ambiente educacional brasileiro, inclusive em cursos de filosofia. Ele continua encontrando novos públicos muitos anos depois de ter sido realizado. E, quando olho para tudo isso, penso que essa trajetória começou ali, na Mostra Brasília", reflete Fauston.

Renato Barbieri, que já foi premiado na mostra com Cora Coralina - Todas as Vidas, Atlântico Negro na rota dos Orixás e Tesouro Natterer, qualificado na categoria documentário para o Oscar, tem uma grande consideração pelo espaço. "A Mostra Brasília é uma janela de oportunidade de uma projeção no Cine Brasília, que as sessões à tarde são muito disputadas. A Câmara Distrital dá um voto de consideração ao cinema de Brasília que eu acho que deveria ser seguido pelo Governo do Distrito Federal", comenta.

Após a premiação no Festival de Brasília com Tesouro Natterer, Renato pode trabalhar a trajetória do projeto. "Estamos trabalhando o filme em festivais internacionais. Nós ganhamos fôlego. E, agora, conseguimos, por conta desse esforço, a gente venceu o edital nacional do Ministério da Cultura e o filme foi contemplado na linha dois. Vai permitir o lançamento nacional digno do filme. Então, eu considero que o prêmio na Mostra ajudou muito o nosso filme a deslanchar", ressalta.

 


  • Meu amigo Nietzsche, de Fauston Silva: carreira internacional
    Meu amigo Nietzsche, de Fauston Silva: carreira internacional Foto: Divulgação
  •  Rodas de gigantes, de Catarina Aciolly: participação em 89 festivais e mais de 30 prêmios
    Rodas de gigantes, de Catarina Aciolly: participação em 89 festivais e mais de 30 prêmios Foto: Divulgação
  •  Rodas de gigantes, de Catarina Aciolly: participação em 89 festivais e mais de 30 prêmios i
    Rodas de gigantes, de Catarina Aciolly: participação em 89 festivais e mais de 30 prêmios i Foto: Diego Bresani/Divulgação
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postado em 17/09/2026 05:00
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