
A exibição de Privadas de suas vidas (SP), no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, nesta quarta-feira (16/9), marcou a estreia nacional do filme dirigido por Gustavo Vinagre e pelo brasiliense Gurcius Gewdner, para quem a quinta noite de Mostra Competitiva foi repleta de significado. “É um evento plantado no meu imaginário desde sempre”, declarou o cineasta antes da sessão realizada no Cine Brasília.
Ao relembrar das demais edições do festival, o diretor brasiliense destacou o curta Horror palace hotel (1978), de Jairo Ferreira, que discute o cinema de terror dentro do festival. “Por isso, acho que esta é a melhor estreia possível para o nosso filme, que é feito por pessoas apaixonadas por esse gênero”, afirmou o diretor.
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Em Privadas de suas vidas, Malu atravessa um período de luto quando banheiros se transformam misteriosamente em seres assassinos, forçando-a a confrontar demônios pessoais e ameaças sobrenaturais. Segundo Gurcius, trata-se, essencialmente, de um longa sobre relações familiares.
“O lar é esse ambiente que deveria ser seguro, mas muitas vezes não é. A gente parte de uma discussão de gênero e de aceitação e compreensão dentro do seio familiar. Toda hora vemos notícias de crianças LGBTQIAPN+ que são ameaçadas pelos pais ou expulsas de casa. São essas as discussões que a gente traz a partir da premissa da privada”, detalhou o cineasta.
No longa, o terror também divide espaço com o melodrama e a comédia. “É uma boa salada de gêneros”, brincou Gurcius, que cita os trabalhos de David Cronenberg, Pedro Almodóvar e John Waters como inspirações. “A gente sempre quis que o filme flertasse com a estética do final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, que a gente tanto admira”, acrescentou Gustavo Vinagre. A escolha por filmar em película, em 16mm, colabora para a estética almejada.
Após estrear a produção em festivais internacionais voltados para o terror, Gurcius celebrou o público variado do Cine Brasília. “Eu adoro quando um filme subversivo alcança uma plateia que talvez não esteja 100% acostumada com esse tipo de projeto. Então a tendência é que tudo que tem de extremo na trama fique mais intensificado — a escatologia, o humor obscuro e a comédia pastelão”, apostou.
Entre os subgêneros do terror, o longa se encaixa no gore, que tem como principal característica cenas de violência gráfica e elementos como sangue e tripas. “Espero que o público goste ou fique horrorizado de uma maneira que seja positiva para nós”, finalizou o diretor. Mesmo com cenas de impacto, a proposta, acrescentou Vinagre, é ser um longa que dialoga com amplo público. “Acho que se eu fosse uma criança crescendo nos anos 1980, eu iria gostar de ver esse filme”, disse.
Martha Nowill, que interpreta a protagonista Malu, contou que a personagem transita entre cenas de humor, assombração e drama. O principal desafio, disse a atriz, foi compreender esse mosaico. "É um longa de gênero num universo absurdo, grotesco e escatológico, mas ao mesmo tempo com uma história muito comovente", comentou. "Precisei me despir de todo e qualquer pudor para fazer um filme sobre cocô. Ruborizo sempre que começa, mas brincar com tudo isso foi uma delícia."
Dentro da trama, diferentes temas emergem. Questões sociais e de gênero, além do sofrimento de uma mãe, são alguns deles. “Sinto que o terror é um gênero muito inclusivo, que acolhe personagens que às vezes outros gêneros não acolheriam, com temáticas marginais”, argumentou Martha. O elenco também reúne nomes como Maria Gladys, Otávio Müller e Marco Pigossi.
Estrear o longa em Brasília, palco do primeiro festival que Martha frequentou na carreira, tem um peso diferente. "Aqui é muito importante pelo espaço de reflexão e de debate que se abre para cada filme. Fiquei desesperada quando soube que não ia acontecer. A gente tinha que estrear em Brasília, é o nosso festival."
Também foram exibidos, nesta quarta, os curtas-metragens Futuro decadance, de Leviathan, e Lagoa do abandono, dirigida por Diego Maia, ambos do Nordeste. De Alagoas, a primeira produção retrata a história de A Viajante, que, atrasada para um encontro, acaba por retornar às noites quentes que marcaram a cidade de Maceió na década de 1990. A segunda, do Ceará, uma animação, imagina o ano de 2040 na degradada Lagoa de Messejana, onde um casal de garças luta para construir um ninho, enquanto a aproximação de trabalhadores e máquinas se torna ameaça.
Na quinta-feira (17), a sexta noite de Mostra Competitiva recebe o longa mineiro Se eu fosse vivo… vivia, que marca a estreia da escritora Conceição Evaristo como atriz. Também está na programação o curta Tiró e a onça, de Wera Poty, que conta história de um ancião indígena do povo Mbya Guarani.
Diversão e Arte
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