
Desde o nome do prédio Enterol (que remete ao tratamento de diarreias) em que o núcleo de personagens do longa Privadas de suas vidas está agrupado, já chega a primeira piada. Se a devastada personagem Malu (Martha Nowill) constata, da pior forma possível, que vasos sanitários têm a cerâmica extremamente cortante, o afiado humor da dupla de cineastas Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner se confirma restritivo — e bem longe da unanimidade.
Em constante limite mental, a sobrecarregada, Malu investe na condução de um mundo de aparências, ao topar com a influencer grávida Suellen (Chandelly Braz), mulher de Renato (Marco Pigossi, na pele de um agente de bet), e ainda mãe de ocasião de Helinho (Miguel Navarro), "tratado como lixo" (na visão de terceiros). O menino se torna pouco mais do que joguete para que os pais reclamem o posto, com ironia, de "embaixadores PCD".
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Bastante detido na criação de atmosfera gore (que sacramenta a exposição de degradação e violência em corpos), Privadas de suas vidas aponta para o inesperado e traços desconectados da realidade, numa escalada de criatividade. As soluções visuais impactam e têm boa condução. Hilário, o personagem de Otávio Müller, Vilaça, um zelador de prédio, é convocado "a zelar" pelo prédio de feng shui negativo e encanamentos inoperantes (que escoarão até corpos, para além dos dejetos de "boca, pança e peito"). Numa era de "discórdia", buscando a energia "mais pesada do mundo", Katka (Olivia Torres), vizinha de Malu, fica entretida com leitura de borra de cocô e de catarros, explorando o centro de São Paulo.
Desamor e desleixo nas relações pessoais se incrustam no filme, junto com a exposição de outras porcarias. Ideologia de gênero, sensacionalismo, seres castigados no banheiro e a coprofagia fetichista, encerrada no scat, são elementos presentes na trama que reacende momentos ousados do Festival de Cinema de Brasília, que contou com criadores como Ivan Cardoso, Juliana Rojas, Marco Dutra, Sergio Bianchi e Alexandre Stockler. Com destacadas edição de Rodrigo Carneiro e desenho de produção de Juliana Lobo (de Meu nome é Gal), o longa tira o espectador do sério. Nem defecar em segurança mais, podemos?!
Diversão e Arte
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