
É de todo um estofo de vida real — com direito à atuação, em cena, do pai do diretor André Novais Oliveira (Norberto Novais Oliveira) e da lacuna no seio da família de cinema (esposa de Norberto, a atriz Maria José faleceu em 2018) — que se constitui a matéria do longa Se eu fosse vivo... vivia.
O clima de descontração e de um humor quase acabrunhado, presente em filmes anteriores de Novais, como Temporada e Ela volta na quinta, novamente se instala. No preâmbulo do amor a ser representado na tela está a movida dos bailes black, momento em que os jovens Gilberto e Jacira (na tela, os talentosos Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo) vivem o sentimento à toda prova, nutridos por dormida em banco de praça, seresta e a emoção embalada por As dores do mundo (do compositor Hyldon). Vistoso na recriação do desenho de produção a cargo de Diogo Hayashi e no figurinos de Diana Moreira, o filme — que passou por eventos na Coreia do Sul, Cartagena e na mostra Panorama do Festival de Berlim — conta com a coerente edição de Gabriel Martins.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Um amor de tirar qualquer um do chão se desenvolve, 50 anos depois no enredo, com Pretinho e Preta (Gilberto e Jacira, já interpretados por Norberto e Conceição Evaristo, na boa estreia em cinema) gozando de toda a intimidade e informalidade que gera a empatia do público. Num paralelo com O dia que te conheci (premiado pelo roteiro em Brasília 2023), Novais segue feliz na amplitude da comunicação. Quem nunca espiou vizinhança, por cima do muro, cantarolou Você abusou, fuxicou em festa ou avaliou quórum de um velório, como retratado no filme?
Depois de examinar temas como adaptação ou o desacomodar de rotinas, o cinema de Novais chega à representação da inconformidade. A sensação de finitude (do casal) se anuncia nas limitações alimentares, nas mais frequentes idas a médicos e nas pequenas traquinagens que atravessam a terceira idade — tudo inerente à rotina do casal representado. Feito pressentimento, a falta de interação com Jacira levará Gilberto a ressentir-se da ausência de aconchego e da corriqueira interação com a esposa. Uma discreta pontuação de morte chega (com poesia) a um dos personagens. Arrebatado de amor, com um buraco no peito, o protagonista terá tudo para, abduzido e desorientado, cristalizar um sentimento, desde sempre, imortal.
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte