
Dramas jurídicos internacionais como Law & order, Suits e How to get away with murder há anos figuram entre as produções de maior audiência e sucesso junto ao público brasileiro. Agora, a Netflix aposta no gênero com sotaque inteiramente local em Habeas corpus, nova produção nacional que mergulha nas entranhas do judiciário do país.
A trama acompanha Inez (Marjorie Estiano), uma respeitada professora de direito que comanda um grupo de revisão criminal focado em provar a inocência de um jovem condenado por um crime que afirma não ter cometido. A narrativa ganha desdobramentos quando a aluna mais brilhante da turma, Marina (Any Gabrielly), aproxima-se com o objetivo secreto de reparar uma injustiça do passado que afetou profundamente a própria família. Inseridos em um sistema marcado por desigualdades e jogos de poder, estudantes e docentes se veem diante de dilemas morais em que cada nova descoberta provoca grandes reviravoltas.
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Por abordar a relação entre uma professora universitária de direito e alunos engajados em casos criminais, as comparações entre Habeas Corpus e How to get away with murder surgiram antes mesmo do lançamento. Marjorie revelou ter optado por não assistir à produção norte-americana para evitar influências e apontou diferenças fundamentais entre as duas narrativas. "O fato de a professora ser uma mulher negra em uma, e uma mulher branca em outra, já muda tudo. São mundos completamente distintos", defendeu. A atriz ainda brincou: "Tomara que as pessoas não se frustrem, porque acho que não vão encontrar semelhanças".
Para o elenco, a produção surge como uma ocasião ímpar de aproximar o público brasileiro com o funcionamento do Judiciário no país. "A série é uma ótima oportunidade de conhecermos nosso próprio sistema, coisa que não vemos com tanta frequência no nosso audiovisual. Nós, como equipe, aprendemos muito durante o processo de gravação", afirmou Any Gabrielly.
Marjorie Estiano complementou que, embora temas ligados ao direito e à medicina sejam comuns em produções norte-americanas e exportados com facilidade, ambientar a narrativa no Brasil garante uma conexão legítima com o público nacional. Segundo a atriz, abordar o tribunal, a polícia e as penitenciárias nacionais reflete a violência e a desigualdade vividas no país. "Vamos acompanhar todas as instâncias: polícia, delegacia, tribunal, penitenciária e até a faculdade", listou a protagonista. Habeas corpus, define Marjorie, abrange a Justiça no Brasil por caminhos distintos. "Acaba sendo um serviço de utilidade pública", opinou a atriz.
Um dos pilares fundamentais da narrativa é a inspiração no trabalho real do Innocence Project, organização voltada para a reversão de condenações de inocentes e a correção de erros judiciários. Ao comentar sobre a vulnerabilidade da população mais carente diante do Estado, Marjorie destacou o impacto de entender que o projeto funciona de forma voluntária por advogados empenhados no aprimoramento do sistema. "A gente só acompanha a Justiça no lado ruim — na denúncia, na violência, no erro e na falta dela. Precisamos de inspirações como essa para voltar a ter confiança e acreditar que ela funciona. Temos que ver o lado positivo e conhecer pessoas inspiradoras, que batalham pela diminuição da distância e da desigualdade social", declarou.
A vida imita a arte
A estreia da série se dá em um momento emblemático do cenário político-jurídico nacional, coincidindo com grandes julgamentos e crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Em relação ao paralelo entre ficção e vida real, Any refletiu sobre a capacidade da arte de estimular o pensamento crítico em períodos decisivos. "Eu acho maravilhoso que, em um momento em que as pessoas precisam pensar sobre as decisões que vão tomar, a gente possa trazer algo que ajude nessa reflexão. Essa é a função do audiovisual, colocar conversas difíceis de forma mais leve dentro da casa das pessoas", avaliou a atriz.
Marjorie, por sua vez, ressaltou que debater a Justiça é sempre urgente, pois o sistema é feito por seres humanos e precisa ser constantemente fiscalizado. "É algo estrutural da nossa sociedade. Trata-se de um órgão, feito por nós, que se propõe mediar, regular e fiscalizar o nosso convívio. E nós somos falhos. Então, ela precisa constantemente ser atualizada e corrigida", argumentou a protagonista, que ainda revelou influência do caso da 113 Sul e da anulação da condenação de Francisco Mairlon Barros Aguiar no roteiro da série.
Diversão e Arte
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