
Aos poucos, Julia Abad vem transformando em realidade um projeto que começou ainda no Brasil: construir uma carreira internacional no teatro musical sem deixar de lado suas raízes brasileiras. Atriz, cantora e dançarina, a artista paulistana está no último ano do Bacharelado em Musical Theatre da Manhattan School of Music, em Nova York, uma das instituições de referência na formação de artistas para o mercado americano. Agora, acaba de dar mais um passo nessa trajetória ao assinar com um agente em Nova York e se preparar para ingressar de maneira ainda mais direta no mercado profissional.
A experiência nos Estados Unidos, no entanto, trouxe para Julia muito mais do que aprimoramento técnico. Ao longo da formação, ela descobriu as exigências de uma indústria que funciona em ritmo acelerado e também passou a enxergar o teatro por uma perspectiva mais ampla, depois de experimentar os dois lados da profissão: os palcos e os bastidores.
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“A primeira grande revelação foi entender que o ator de teatro musical é, antes de tudo, um atleta”, conta. Para ela, a exigência física é apenas uma das particularidades do mercado americano: “Você usa o corpo como instrumento em tempo integral, e isso exige um cuidado que vai muito além dos ensaios. Dançar bem não é um diferencial, é um requisito”.
Na Manhattan School of Music, Julia teve a oportunidade de trabalhar sob orientação de profissionais reconhecidos do teatro musical, como David Loud, Erin Dilly, Matthew Scott e Mana Allen. Entre as produções das quais participou estão The Threepenny Opera e, mais recentemente, A Little Night Music, na qual interpretou Fredrika Armfeldt, além de concertos e apresentações promovidos pela universidade.
A experiência também mudou sua relação com o próprio processo de preparação. “Aqui não existe jeitinho. Não tem margem para improvisar o que você não sabe”, afirma. Segundo ela, o nível de cobrança começa já no primeiro ensaio: texto decorado, melodias dominadas, marcações compreendidas e coreografias preparadas.
“O treinamento técnico sólido faz toda a diferença. Ninguém vai sentar com você para te ensinar a criar um personagem. Isso é responsabilidade sua”, explica Julia, que atribui parte dessa preparação ao estudo da técnica Meisner, realizado na Ruskin School of Acting, em Los Angeles, sob orientação de John Ruskin, discípulo direto de Sanford Meisner.
Antes mesmo de chegar aos Estados Unidos, Julia já vinha construindo uma formação voltada ao teatro musical. No Brasil, participou de produções como Mamma Mia!, do Teen Broadway São Paulo, e iniciou seus estudos com a atriz e cantora Sara Sarres, que permanece como sua mentora.
A relação entre as duas atravessa anos de formação e ganhou um significado especial para Julia. “A Sara é um presente na minha vida. Ela é, sem exagero, a minha fada madrinha no mundo artístico”, define.
Segundo a atriz, foi Sara quem a incentivou a ampliar os horizontes de sua formação, incluindo cursos em Londres e o aprofundamento na técnica Meisner. “Ela sempre viu em mim um potencial que, muitas vezes, eu mesma não conseguia enxergar. Em algum momento, decidi simplesmente acreditar nela. Essa decisão mudou o rumo da minha vida”, afirma.
Do palco para os bastidores
A experiência internacional de Julia não se restringe à atuação. Antes e durante sua formação nos Estados Unidos, ela também mergulhou no universo do casting e do agenciamento. No Estúdio Broadway, em São Paulo, trabalhou ao lado da diretora Fernanda Chamma, acompanhando processos de seleção e formação de jovens artistas. Em Nova York, passou pela Stacy Gallo Casting, participando da organização de audições e callbacks para campanhas nacionais, e também integrou a Adunni Rose Talent Agency como assistente da agente Shirley Adunni.
O contato com esse universo acabou mudando sua maneira de encarar as próprias audições.
“Cada um desses trabalhos desmistificou o ‘monstro de oito cabeças’ que é o mundo das audições”, diz. Ao acompanhar os processos de dentro, Julia percebeu que o casting é menos misterioso do que parece para quem está do outro lado da mesa.
Ela também passou a compreender melhor como um artista constrói sua imagem profissional. “Cada look, cada enquadramento, precisa representar uma personagem diferente que você poderia interpretar. É uma construção cuidadosa de imagem para que você se posicione exatamente onde quer chegar.”
A experiência trouxe ainda uma mudança emocional. Para Julia, entender que outra pessoa pode ser mais adequada para determinado papel faz parte do amadurecimento profissional. “As decisões de casting não são pessoais”, afirma. “Quando você sai da sala de audição, o que estava ao seu alcance já foi feito. O que vem depois está fora do seu controle”, completa.
Uma brasileira no mercado americano
Viver e trabalhar em Nova York também significou lidar com desafios que vão além da formação artística. O sotaque foi um dos primeiros obstáculos, mas não o único. Julia conta que precisou se adaptar a um ambiente extremamente competitivo e a um sistema profissional que, para quem chega de outro país, pode parecer completamente novo.
Ela precisou acelerar o contato com referências do teatro musical americano que seus colegas conheciam desde a infância, além de aprender como funcionam headshots, plataformas de casting e sistemas de agenciamento.
Ao mesmo tempo, descobriu uma realidade comum entre artistas americanos: a necessidade de conciliar a carreira com outras fontes de renda. “Eu já sabia que a profissão é instável, porém não imaginava que praticamente todos os atores têm um segundo emprego para se sustentar enquanto não estão em cartaz”, revela.
A constatação também trouxe uma percepção importante sobre o tempo e a carreira. Em uma cidade onde muitos artistas começam muito cedo, Julia aprendeu a não transformar a trajetória dos outros em medida para a própria.
“É fácil cair na armadilha de se sentir atrasada. Mas aprendi — às vezes na marra — que cada um tem a sua trajetória. Começar mais cedo não determina sucesso.”
O olhar de quem conhece dois mercados
A experiência nos bastidores também permitiu que Julia desenvolvesse uma visão comparativa sobre os mercados brasileiro e americano. Para ela, as diferenças passam principalmente pela dimensão da indústria.
“Os Estados Unidos têm mais de cinquenta teatros em atividade só em Nova York. O Brasil concentra sua produção principal em cerca de dez casas, entre Rio e São Paulo”, compara.
Na avaliação da atriz, a diferença de escala influencia diretamente a quantidade de produções, audições e oportunidades disponíveis. “O Brasil tem um volume de talento que eu posso afirmar com convicção, porque já vi de perto. O que falta não é gente boa — é palco para essa gente ocupar.”
Julia acredita que o fortalecimento do teatro musical brasileiro depende da ampliação do número de produções e espaços, da descentralização para além do eixo Rio-São Paulo e também de mecanismos mais estruturados para a descoberta de novos talentos.
É uma transformação da qual ela gostaria de participar no futuro. Enquanto isso, pretende manter uma ponte entre os dois países.
Uma carreira sem fronteiras
Com a assinatura do novo agente em Nova York, Julia entra agora em uma nova fase profissional. A intenção é continuar realizando audições nos Estados Unidos e no Brasil, enquanto amplia sua atuação para o audiovisual.
“Quero ser uma artista completa — não apenas no sentido técnico, mas em abrangência”, afirma. Além da atuação, ela se interessa cada vez mais por criação e produção de projetos.
O cinema e a televisão também estão nos planos. A formação em Meisner despertou seu interesse por uma atuação mais íntima diante das câmeras, abrindo uma nova possibilidade de investigação artística.
Mas, entre tantos projetos, existe uma questão que Julia carrega de maneira particular: representar o Brasil em um mercado internacional.
“Quero que ser brasileira seja visto como uma virtude, não como uma limitação”, afirma. Para ela, a alegria, a energia e a expressividade associadas à cultura brasileira podem ser características que agregam à sua identidade artística, e não barreiras para conquistar espaço.
“Agora, meu foco é concluir meu último ano de Teatro Musical na Manhattan School of Music e seguir construindo uma carreira que possa transitar entre teatro, cinema e televisão, no Brasil e internacionalmente”, finaliza.
Diversão e Arte
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