
O cantor Netinho faleceu aos 60 anos, em Salvador, após complicações decorrentes de um linfoma. Conhecido nacionalmente pela interpretação da faixa "Milla", o artista simbolizou o período de maior efervescência do axé music, quando a música baiana assumiu papel de destaque na indústria fonográfica brasileira.
Durante a década de 1990, o ritmo nascido nos trios elétricos rompeu fronteiras regionais e tomou conta da programação das principais emissoras de rádio e canais de televisão. A batida percussiva alcançou públicos massivos em capitais do Sul e do Sudeste, alterando hábitos de consumo cultural e reconfigurando o mercado de entretenimento ao vivo.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Leia Mais
A consolidação do circuito nacional de eventos
A ascensão de Netinho ocorreu em sintonia com a profissionalização dos grandes espetáculos ao ar livre fora do calendário tradicional de fevereiro. O cantor ganhou notoriedade nacional a partir de 1988 à frente da Banda Beijo, emplacando sucessos como "Beijo na Boca", antes de consolidar uma trajetória solo marcada por apresentações em arenas lotadas e novas referências para palcos, som e iluminação.
As micaretas deixaram de ser eventos restritos a cidades baianas e viraram um modelo comercial altamente rentável em capitais como Fortaleza, Natal, Belo Horizonte e São Paulo. Esse ecossistema itinerante movimentou hotéis, companhias aéreas, agências de publicidade e milhares de postos de trabalho diretos e indiretos.
O lançamento do disco "Netinho ao Vivo", gravado em 1996 com o clássico "Milla", sintetizou o auge comercial dessa fase por meio de feitos marcantes:
-
permanência entre as faixas mais executadas nas paradas de rádio de todo o país;
-
expressivo volume de vendas físicas nos formatos de fita cassete e disco compacto;
-
alcance internacional da canção, que ganhou versões em outros idiomas e veiculação no exterior;
-
consolidação dos abadás e blocos com cordas como modelos de negócio centrais do carnaval fora de época.
Descentralização e apelo mercadológico
Grandes companhias multinacionais de discos direcionaram investimentos expressivos para a contratação de intérpretes baianos na época. Salvador estruturou parques tecnológicos e estúdios modernos de áudio, diminuindo a dependência histórica do eixo produtivo concentrado entre Rio de Janeiro e São Paulo. Os lançamentos musicais ditavam tendências estéticas, vestuário e coreografias nos principais programas de auditório dominicais.
Netinho imprimiu uma identidade própria ao gênero ao unir a cadência enérgica dos tambores tradicionais a melodias leves da música pop romântica. O formato garantiu sobrevida duradoura a canções como "Menina", "Fim de Semana" e "Preciso de Você", mantendo o repertório em execução contínua em comemorações e festividades contemporâneas.
A despedida do cantor encerra a trajetória de um dos protagonistas da época de ouro do axé. A contribuição artística de Netinho permanece gravada na memória coletiva e na história de um movimento sonoro que transformou as festas de rua em motor econômico da cultura popular brasileira.
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.