
As tirinhas da cartunista Laerte ganham, mais uma vez, as telonas. Após o longa A cidade dos piratas (2018), Overman, de Tomás Portella, chega aos cinemas hoje e apresenta um verdadeiro herói à brasileira, interpretado por Caco Ciocler. Desempregado e endividado, o protagonista que dá nome ao filme é convidado pelo governador do Rio de Janeiro (Otávio Müller) a ocupar um cargo na Secretaria de Segurança Pública, mas vê a posição ameaçada pela chegada de Pâmela, a Mulher Cachorro (Karina Ramil), uma heroína mais competente e popular.
A comédia é uma iniciativa de Iafa Britz, que foi apresentada às tirinhas pela advogada Andrea Francez. "Foi uma história de amor imediata. Que personagem espetacular! Lembro de me perguntar por que a gente ainda não tinha um herói nosso, brasileiro, com todas essas características. Alguém que precisa enfrentar grandes inimigos como a burocracia, a preguiça e a lei do menor esforço", lembra a produtora. Na trama, Overman vive a contradição de ser um herói poderoso e, ao mesmo tempo, incapaz de resolver os próprios problemas.
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A produtora brinca que foram "conversas infinitas" e "perseguições" para que a cartunista permitisse a adaptação. "Ainda mais levando em consideração que o Overman é um personagem de 1998 e o tanto que o mundo mudou de lá para cá", aponta Iafa. Para Portella, apesar das atualizações, os conflitos trazidos nas tirinhas são "iguaizinhos" aos de hoje em dia. "A gente brinca que ele é uma visão over de todo homem brasileiro, e a Laerte enxergou isso muito antes do pessoal que escreveu The boys ou Deadpool começar a pensar em trabalhar com audiovisual", exalta.
O público feminino, por sua vez, deve se identificar com o personagem de Karina, aposta a atriz. "A gente pode ter uma ideia genial e, mesmo assim, um homem vai ser mais escutado do que a gente. Isso é uma coisa que acontece na maioria dos lugares. E ela traz isso com humor, porque ela não é menor do que o Overman. Ela é sagaz, inteligente e é uma super-heroína também. Mas, apesar disso, ela ainda não recebe o mesmo respeito que ele", pontua.
Criação do personagem
Durante o processo de preparação, Caco Ciocler revela ter mergulhado de cabeça nas tirinhas, que define como "fascinantes". "Eu lia e pensava: 'Acho que eu não entendi alguma coisa'. Não é um humor que você decifra muito rápido, nem mesmo depois de algum tempo. Tem um mistério ali que eu não consigo definir, e foi isso que eu tentei trazer para o personagem. Eu não sei quem é esse cara de verdade. Ele é engraçado, mas não é. É tosco, mas não é. E eu quis preservar isso", detalha o ator.
O protagonista ainda relata que viveu "um conflito constante" até entender o limite entre entender as dores do personagem e manter o humor característico das tirinhas. "Eu gosto quando ele chora de verdade por trás da máscara. Você não vê nada, só um olho emocionado ali atrás e pensa: 'Gente, quem é essa pessoa?'. Mas, se o filme fosse o tempo todo nesse lugar, não funcionaria. Então esse equilíbrio esteve presente o tempo todo", garante Ciocler.
Às vésperas do segundo turno das eleições, o longa chega em um momento em que a sociedade discute questões pertinentes ao filme, pondera Portella. "Todas essas contradições do Brasil estão ali. A gente brinca com os dois lados, com forças diferentes, é claro, porque um tem um potencial mais destrutivo. Mas fazemos piada com tudo que envolve política. Tudo ali no filme é, de alguma forma, político", conclui o diretor, que brinca com uma sequência em que Overman se candidata a deputado federal.
Diversão e Arte
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