"Com certeza, o disco Na rua, na chuva, na fazenda (de 1975) é um divisor de águas na música popular brasileira: um disco que estourou seis músicas nas paradas de sucesso. E isso, sendo o primeiro álbum de um artista que era desconhecido! É algo revolucionário, com certeza", pontua, com entusiasmo Emílio Domingos, codiretor do documentário As dores do mundo: Hyldon, conduzido ainda pelo cineasta Felipe David Rodrigues, e em cartaz no circuito nacional, antes da estreia no Canal Curta!, prevista para 30 de novembro.
Nos mais de 50 anos de imortalidade da obra maior de Hyldon, um comercial do Spotify reverencia indiretamente o compositor, famoso ainda por ser produtor de discos de Odair José e Erasmo Carlos e por figurar na trilha sonora de filmes como Cidade de Deus e Carandiru, sem contar com revisitas de clássicos dele, espalhadas por grupos como Jota Quest e Kid Abelha. "Talvez o maior segredo do sucesso do Hyldon esteja no retrato afetivo que ele constrói por meio das músicas, e isso faz com que muita gente se identifique", observa Emílio, um dos cineastas brasileiros votantes na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (entidade que comanda o Oscar).
Hyldon é celebrado nas telas, no ano em que As dores do mundo foi usada na trilha de Se eu fosse vivo... vivia (principal premiado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro). "Os relacionamentos amorosos são fundamentais na obra dele. Hyldon se inspira muito nisso: faz verdadeiras crônicas do amor e, no início da carreira, quando jovem, ele faz uma espécie de documentário afetivo das coisas que ele vivia à época, por meio das músicas", comenta o carioca Emílio, antropólogo e produtor, ainda lembrado por filmes como A batalha do passinho (2012), Favela é moda (2019), Os Afro-sambas: O Brasil de Baden e Vinicius (2024) e Anos 90: A explosão do pagode (2025).
Claro que, diante do inicial distanciamento com o personagem do documentário, naturalmente, Emílio tomasse gosto pela companhia do mestre da soul music brasileira, da era embrionária sustentada por Azymuth, Tim Maia e Cassiano. Àquela época, Hyldon, sem ser correspondido, tinha a paixão impulsionada pela musa mineira Gioconda, bem antes do casamento dele com Zoé Medina. "Gosto do Hyldon pelas composições e arranjos; são músicas que têm muitas camadas. Os arranjos são bem sofisticados. Gosto da forma como ele interpreta as músicas: ele constrói rede de emoção, quando canta: é um grande intérprete. São músicas que fazem parte da minha formação —, eu, criança, nos anos 1970, cresci ouvindo as músicas dele", confessa Emílio Domingos, pesquisador do ramo da Cultura e das Territorialidades.
Entrevista // Emílio Domingos, cineasta
Quais qualidades do Hyldon como um cinebiografado?
Para além dele ser um gênio da música, nós fomos construindo uma relação, aos poucos. Ele é uma figura bem reservada e foi se abrindo ao longo do processo de pesquisa e da filmagem. Muitas coisas surgiram, com esse processo. Questões dele com a gravadora, dados dos amores que inspiraram as canções. Descobrimos isso com o tempo e com a pesquisa. Há, ainda, a ausência de imagens e de matérias nos jornais da época. O número de matérias que achamos não condizia com o tamanho do artista, com o sucesso que o primeiro disco fez. Nisso, fomos questionado e ele foi falando da dificuldade dele com a gravadora que o via como produtor de discos e não como artista.
Qual o poder de comunicação do Hyldon que ainda hoje se propaga?
As pessoas gostam muito do Hyldon. Os artistas que deram depoimentos no filme são fãs declarados; todos muito solícitos, por ele ser muito admirado. É muito interessante ver a gama de artistas que ele influencia: da Liniker ao Mano Brown, e o Arnaldo Antunes. Todos têm por ele um carinho gigantesco e um respeito enorme. Há quem se referira à obra dele como algo quase sagrado. Seu Jorge fez uma versão linda de Na Rua, na chuva, na fazenda, na voz e violão, que foi parte do filme que as pessoas gostam muito, pela emocionante interpretação do Seu Jorge.
Houve um momento em que ele se perdeu na trama?
Foi muito difícil psicologicamente para o Hyldon lidar com a gravadora que que o pressionava para não ser um artista. E, ao mesmo tempo, a gravadora queria que, ao finalizar o primeiro disco, que ele fizesse um segundo, com a sonoridade muito próxima do primeiro. Algo difícil porque ele era um artista criador bastante livre. Ele acreditou muito nessa liberdade. Acho que ele nunca estagnou, sempre foi um artista criador inquieto, que gravou muitos discos e, até hoje, é muito respeitado e ouvido, além de popular. Se as pessoas muitas vezes não conhecem a imagem do Hyldon, é por ele ser muito reservado, mas com certeza elas conhecem a obra e o disco Na Rua, na chuva, na fazenda, que está no imaginário popular. Se você anda nas ruas e cantar, as pessoas reconhecem Na rua, na chuva, na fazenda ou Dores do mundo, por exemplo: pessoas das mais variadas faixas etárias reconhecem e isso é muito interessante. As novas gerações também conhecem, se interessam pela obra dele. O nosso filme tem aberto isso ainda mais para as novas gerações.
Como contornaram o fato de Hyldon concentrar muito do talento em singular álbum icônico?
No filme tentamos fazer uma espécie de retrato do artista quando jovem. Falamos da origem do Hyldon, da relação dele com a música, de questões familiares da descoberta e do encantamento de um jovem que, nos anos de 1960, é tentado pela música. Refletimos, daí, a musicalidade dele o universo dele. Pelas questões que ele, enquanto artista, nos anos 1970, enfrentou dá para se entender pontos da indústria fonográfica brasileira: a pressão que os artistas sofriam. Então, Hyldon era um jovem que, começando, tentou, depois de estabelecido produtor musical, romper com isso, por meio da gravação do seu disco e, dentro da máquina estruturada da gravadora, aquilo acabou se tornando um problema. Como produtor musical ele estava dando conta de tudo que era necessário. Para a gravadora, ele não era interessante como artista — eles queriam que o Hyldon continuasse um produtor musical.
Como analisa esse impasse?
Acho muito importante isso: como ele é coerente com as coisas que sente e pensa. Ele gravou diversos discos depois do imenso sucesso, logo na sequência, ele grava Deus, a natureza e a música, que é um álbum fantástico. Retrata o pensamento dele, com forte lado autoral. Há a relação direta: ele grava músicas que têm a ver com o que realmente acredita. E acho que, por conta dessa coerência, ele sofreu muito na gravadora, que esperava que o segundo disco fosse uma cópia do primeiro. Ele já estava pensando outras coisas, sentindo outras coisas, e bateu o pé para fazer o disco que pretendia.
Como perceberam a interferência de repentistas no amálgama musical do Hyldon? Que som ele faz?
Bom, o Hyldon é um baiano de Salvador, mas que viveu muito tempo de formação no sertão da Bahia, em Senhor do Bonfim. Nas feiras livres, eles tinham muita música. E os repentistas estavam lá. Daí vem essa questão da influência dos repentistas na música dele. Se você escuta uma música como Meu patuá, do primeiro disco, fica nítida a influência da música nordestina no som dele. Acho que o Hyldon é um artista que tem uma bagagem musical gigantesca. Logo no primeiro disco, ele consegue misturar elementos da soul music, da Jovem Guarda, do que a gente chama de música popular brasileira, as baladas folk, a própria música nordestina, com o baião, por exemplo, do Luiz Gonzaga, e ainda o rock.
Como despontou o grande boom do uso das músicas dele no cinema?
Hyldon tem músicas românticas que marcam. Ele foi um grande sucesso nos anos 1970, com músicas que agora carregam uma nostalgia e, ao mesmo tempo, conseguem atravessar o tempo. As composições dele têm muitas imagens: isso está no universo lírico dele, nas letras. Ele fala, de uma maneira intensa, sobre relacionamentos — e isso é atemporal. Isso traz essa relação direta dele com o cinema atual.
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