artes cênicas

Kleber Montanheiro ressignifica vaidade e culto à imagem em comédia no teatro

Diretor, cenógrafo e figurinista que completa 30 anos de carreira, Kleber Montanheiro estreia "Cansei de ser belo", que brinca com padrões de beleza e necessidade de aprovação por meio de um galã de tevê que sofre preconceito por ser "bonito demais"

O que aconteceria se um ator conhecido por sua beleza decidisse ficar feio para finalmente ser reconhecido pelo seu talento? É a partir dessa premissa inusitada que o diretor, cenógrafo e figurinista Kleber Montanheiro constrói Cansei de ser belo, comédia inédita de Emílio Boechat que estreou em outubro, no Teatro YouTube, em São Paulo.

Na peça, um galã de novela acredita que é vítima de preconceito por ser bonito demais e decide transformar radicalmente a própria aparência. A situação absurda, no entanto, serve como ponto de partida para uma discussão bastante contemporânea: em uma sociedade atravessada por filtros, redes sociais e imagens cuidadosamente construídas, até que ponto a aparência interfere na maneira como somos percebidos?

“Vivemos cercados por rituais de beleza, filtros e imagens cuidadosamente construídas para as redes sociais. A aparência virou uma espécie de vitrine permanente”, observa Kleber. Para ele, o protagonista expõe uma contradição que ultrapassa o universo da ficção. “Ele precisa mudar a própria imagem para que enxerguem seu trabalho. Por trás do humor, o espetáculo pergunta o quanto somos vistos pelo que fazemos e o quanto somos reduzidos à imagem que projetamos.”

O humor como ferramenta

A escolha pelo humor é justamente o que permite ao espetáculo abordar o tema sem transformar a reflexão em discurso. Kleber aposta no exagero e em uma linguagem próxima do surrealismo para ampliar situações que, apesar de absurdas, encontram correspondência na vida cotidiana.

“Partimos de algo muito real — o desejo de ser aceito, de parecer bonito, de receber aprovação — e colocamos uma lente de aumento sobre isso”, explica. Segundo o diretor, é no reconhecimento que surge a reflexão. “A comédia permite olhar para uma contradição nossa com alguma distância e, talvez por isso, enxergá-la com mais clareza.”

A relação entre imagem e identidade também atravessa a própria concepção visual do espetáculo. Com 30 anos de trajetória nas artes cênicas e atuação em diferentes áreas, Kleber leva para a direção uma experiência que reúne encenação, cenografia e figurino. Para ele, não há fronteiras rígidas entre essas linguagens.

“Quando penso a direção e a encenação, já estou imaginando o espaço, a luz, os figurinos e os corpos que vão ocupar a cena. E uma descoberta na cenografia pode, por sua vez, mudar o caminho da direção”, afirma.

A concepção remete a um ensinamento de seu mestre, o cenógrafo e diretor Gianni Ratto: “Quando o espetáculo é realmente unitário, a gente não se lembra se tem cenografia, se tem figurino”. A frase, segundo Kleber, resume uma das bases de seu trabalho. “O que me interessa é criar uma encenação em que essas linguagens se misturem e contem a mesma história.”

No palco, Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes formam o elenco da comédia. A experiência dos atores com o gênero foi um dos elementos explorados durante os ensaios, especialmente na construção de personagens que partem de comportamentos reconhecíveis para chegar ao exagero.

“O desafio era encontrar o exagero sem perder a verdade de cada personagem. É essa verdade que faz o público acreditar na situação, por mais absurda que ela se torne”, explica o diretor.

Para além do teatro musical

A comédia também representa uma nova possibilidade de investigação para Kleber depois de trabalhos recentes ligados ao teatro musical. Em 2025, ele dirigiu e concebeu o musical brasileiro original João, indicado a Melhor Direção nos prêmios Bibi Ferreira, DID e APCA. Mais recentemente, assinou a direção e o figurino de Gal – O musical, sobre a trajetória de Gal Costa.

Embora o musical tenha se tornado um território importante em sua pesquisa nos últimos anos, a comédia não é um terreno desconhecido. Kleber já havia dirigido trabalhos do gênero e vê no humor uma ferramenta capaz de estabelecer uma relação direta com o público.

“Gosto de criar um teatro crítico a partir do olhar cômico. O humor estabelece uma relação muito direta com a plateia, aproxima o espetáculo de um público mais amplo e popular”, diz.

Em Cansei de ser belo, essa relação ganha ainda outra camada: a própria plateia é convidada a reconhecer o jogo social que existe fora do teatro. Para Kleber, as redes sociais intensificaram a distância entre aquilo que mostramos e aquilo que somos.

“As redes sociais nos convidam a mostrar uma versão muito editada de nós mesmos. Escolhemos a imagem, o momento, o ângulo; enquanto isso, a vida real continua cheia de dúvidas, imperfeições e contradições”, afirma.

Sem apontar respostas definitivas, a peça usa o absurdo para colocar o espectador diante de uma pergunta bastante familiar: o que acontece quando a necessidade de corresponder à expectativa dos outros começa a determinar a imagem que fazemos de nós mesmos? “Todos estamos expostos a esse jogo e, muitas vezes, participamos dele sem perceber”, conclui Kleber.

Mais Lidas