Em 1984, Amyr Klink partiu sozinho da Namíbia, na África, rumo ao litoral da Bahia, a bordo de um barco a remo, para enfrentar mais de três meses de solidão, medo e incertezas em alto-mar. A travessia inédita, de quase 7 mil km, ganha as telas em 100 dias, filme dirigido por Carlos Saldanha e inspirado no livro Cem dias entre céu e mar, escrito pelo próprio navegador. Entre os desafios do oceano e as memórias que acompanham o protagonista, interpretado por Filipe Bragança, a produção convida o espectador a mergulhar em uma história de coragem, auto descoberta e superação.
A adaptação audiovisual da história é mérito da mulher de Amyr, Marina Klink, que passou mais de 30 anos tentando transformar o livro em filme, como afirma o próprio navegante. Uma sucessão de acontecimentos, porém, fez com que o projeto fosse para frente apenas agora, sob direção de Saldanha. "Sempre que dava errado, eu achava graça. Falava: 'Deixa eu morrer e depois fazem", gargalha o paulistano. "Eu sei que foi muito tempo tentando, mas isso ajudou para que resultasse em uma produção bonita, emocionante e feliz", pondera.
Amyr defende que, apesar do livro ser um instrumento poderoso, capaz de produzir imagens únicas na cabeça de cada leitor, o longa foi "muito feliz" em materializar os 100 dias no Atlântico. "Tem cenas que surpreenderam até a mim", admite o navegador. "Eu gosto de escrever de uma maneira muito concisa e impactante, mas acho que não consegui transmitir tanta emoção nas palavras quanto o filme transmite na telona", opina o paulistano.
O navegador, que deu total liberdade poética para Saldanha, brinca que o diretor, por sua vez, optou por uma "prisão poética". "Ele se ateve muito aos fatos e o resultado é impressionante. Minúsculos detalhes foram garimpados e tornaram a obra do Saldanha extremamente emocionante e inspiradora", exalta. Amyr cita como referência Kon-Tiki (2012), longa baseado no livro A expedição Kon-Tiki, sobre uma travessia pelo Pacífico que, por coincidência, também durou 100 dias. "É um caso em que o filme ficou muito melhor que o livro, por exemplo", aponta.
Entre os 116 minutos de filme, Amyr destaca cenas como a que mostra a mensagem que o irmão, Tymur Klink (João Vitor Silva), escreveu no teto do barco no último dia do navegador no Brasil e o encontro com um navio, a três dias do final da travessia. "A tripulação fez uma volta no barco com os braços para cima, celebrando a viagem", lembra. "São capítulos bem emocionantes do livro, que foram muito bem retratados pelo filme", avalia o paulistano.
A construção de uma réplica fiel da icônica embarcação a remo que Amyr utilizou na travessia também foi essencial para o preciosismo do filme. O protagonista Filipe Bragança, durante a preparação para o longa, passou uma noite inteira com o barco ancorado em uma piscina da Universidade de São Paulo (USP) para se aproximar da realidade vivida pelo navegador no Atlântico. "Eu não teria coragem de dormir dentro ao lado da marginal Pinheiros, na cidade universitária", ri o autor da obra.
Para o ator, passar a noite no barco foi essencial para que ele pudesse se aproximar à realidade vivida por Amyr durante aqueles 100 dias. "Existe uma diferença enorme entre imaginar o que é estar em um espaço tão limitado e realmente vivenciar aquilo, perceber os sons, a movimentação, as dimensões e como cada detalhe interfere na sua relação com o ambiente", explica Filipe. "Eu passei a me relacionar fisicamente com aquele espaço, e isso acaba aparecendo na interpretação de uma maneira muito orgânica", acrescenta.
O desafio para o protagonista, no entanto, foi além dos esforços físicos que Amyr passou durante a travessia. "Traduzir o que acontece emocionalmente com alguém que passa tanto tempo sozinho exige um outro tipo de investigação. O Amyr estava em uma situação extrema, enfrentando não só o oceano, mas também os próprios pensamentos, medos e incertezas. Procurei entender como tudo isso poderia se manifestar nos pequenos gestos, no olhar, na respiração e até nos silêncios. Muitas vezes, o que o personagem está sentindo não precisa ser dito, e esse foi um dos aspectos mais interessantes de explorar", confessa o ator.
Durante as gravações do longa, o navegador se fez presente nos sets, dando depoimentos e compartilhando detalhes da travessia ao elenco, e acabou fazendo uma aparição especial como Comandante Ayres. "Ter Amyr por perto foi um privilégio enorme", declara Filipe. "Ele conhece essa história de uma maneira que ninguém mais conhece, porque viveu cada um daqueles momentos. A presença dele me permitiu observar detalhes, ouvir histórias e compreender aspectos da experiência que não estão necessariamente nos livros ou no roteiro. Ao mesmo tempo, meu desafio era não tentar simplesmente imitá-lo", conta o ator.
Ao construir o personagem, o protagonista buscou absorver tudo que Amyr tinha a compartilhar, ao mesmo tempo em que construía a própria interpretação, respeitando o navegador e a experiência que viveu. "Eu estava interpretando uma pessoa real, com uma trajetória extraordinária, e precisava encontrar um caminho para trazer essa história para o cinema com verdade", relata.
Depois dos 100 dias
Mais de 40 anos após a aventura, Amyr, que obteve a primeira canoa aos 10, garante que, desde então, a paixão pelo oceano "só piorou". O navegador diz se sentir feliz por ser uma referência, mas brinca que espera não inspirar "uma multidão de remadores alucinados se atirando no meio do Atlântico". "Recebo comentários muito emocionantes, de pessoas que sonhavam em ser pilotos e dar a volta ao mundo em um teco teco, por exemplo. Essa experiência de ser uma inspiração é muito bacana", celebra.
Filipe, por sua vez, ressalta que a história do navegador vai muito além da conquista de atravessar o oceano. "Existe uma dimensão humana muito bonita nessa trajetória, que envolve planejamento, disciplina, curiosidade, medo, solidão e a capacidade de continuar mesmo diante das incertezas. Também acho interessante perceber que grandes realizações não acontecem apenas por meio de gestos grandiosos, mas são construídas a partir de pequenas decisões, todos os dias. Espero que o filme desperte nas pessoas essa vontade de conhecer mais profundamente o Amyr e, de alguma forma, também as incentive a olhar para os próprios desafios com mais coragem e curiosidade", conclui o ator.
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