
Conhecer o Cerrado foi uma experiência profunda para a artista grega Demi Kaia. Durante residência na Karla Osório Galeria, que recebe agora a exposição produzida pela artista durante a vivência brasiliense, Kaia se deparou com a sensação de deslocamento. "O que eu esperava era intensidade, diferença, talvez até um certo tipo de 'alteridade' cultural e natural. O que encontrei, na verdade, foi uma pluralidade inesperada em quase tudo: culturas, ritmos, paisagens, sensibilidades e modos de convivência", conta a artista.
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O resultado desse olhar está em Mãos que traçam fronteiras, em cartaz na Karla Osório até 28 de fevereiro. A mostra reúne uma série de desenhos, pinturas e objetos que a artista chama de ready-made e que foram produzidos com materiais locais a partir de uma leitura que tem o bioma do Cerrado como ponto de partida. Demi brinca que o primeiro encontro com o Brasil se deu por meio de um ficus e um pavão. "Desde o início, a natureza não parecia decorativa ou distante, mas ativa e dominante. Essa mudança de percepção tornou-se uma parte importante da minha experiência durante a residência", explica.
A primeira obra produzida surgiu de uma cadeira de ferro abandonada encontrada pela artista durante uma caminhada. Demi trabalha com temáticas centradas na ideia de compreender o "que mantém este mundo unido". Os temas surgem da prática de longa data de manter diários de desenho e de escrita. "Depois de atravessar uma fase em que traduzi a violência com violência, usando imagens duras e gráficas, hoje me vejo caminhando por um tipo diferente de campo minado", explica. "Entidades não humanas passaram a entrar no trabalho de forma mais consciente, menos agressiva e raivosa. Mesmo nas guerras mais brutais, elementos não humanos frequentemente ocupam um lugar distinto na narrativa, talvez porque tenham uma capacidade única de revelar ou escavar a decência humana."
Nos trabalhos realizados em Brasília, aparecem aves, sapos, bovinos e primatas. São figuras surgidas da observação da natureza do Centro-Oeste. "O que mais me impressionou no Cerrado foi sua biodiversidade e sua importância dentro de um ecossistema global extremamente frágil. Apesar da intensa pressão urbana, do rápido crescimento populacional e dos efeitos das mudanças climáticas, fiquei impactada com o quanto a natureza parece viva e resiliente. A flora e a fauna estão visivelmente presentes e, em muitos aspectos, prosperando", diz Demi.
Três perguntas para Demi Kaia
Como Brasília influenciou esse processo criativo?
Brasília teve um papel crucial nesse processo, especialmente pela disponibilidade de materiais naturais. Sempre que eu me sentia bloqueada, bastava caminhar pela propriedade. A natureza estava sempre presente e generosa, oferecendo materiais, soluções e direção. Esse diálogo constante com o ambiente moldou profundamente a forma como as obras foram feitas, e sou muito grata por isso.
Sobre o que tratam os desenhos criados para a exposição?
Os desenhos dão continuidade ao meu interesse por narrativas animistas e antiespecistas que colocam vidas humanas e não humanas no mesmo nível. Brasília não foi apenas um contexto, mas uma fonte ativa de inspiração que moldou a narrativa e a imagética dos desenhos. Um desenho que eu destacaria é Caramelo Dog. Durante a viagem, encontrei esse cão vira-lata tão familiar, e mais tarde fiquei muito feliz em descobrir que o caramelo se tornou um ícone cultural no Brasil. Ele simboliza resiliência, diversidade e um espírito tipicamente brasileiro. Eu quis refletir sobre coexistência e vulnerabilidade compartilhada, permitindo que entidades não humanas ocupem um lugar central e digno dentro do meu trabalho e do meu mundo em geral.
O que mais te impressionou no Cerrado e como esse bioma está nas obras?
O Cerrado está presente em todas as obras que produzi durante a residência. Às vezes, essa influência é direta, por meio do uso de materiais encontrados no local. Em outros momentos, aparece de forma mais indireta, no uso abstrato das cores ou na maneira como ideias e conceitos se desenvolvem no trabalho. O bioma moldou não apenas o que eu fiz, mas também a forma como pensei enquanto criava.

Diversão e Arte
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