Crítica Eu, que te amei // Três estrelas
Na vida real, por poucos anos, quase houve a sincronicidade entre o desaparecimento da primeira atriz francesa a ganhar um Oscar, Simone Signoret (de Almas em leilão), e o despontar criativo de Diane Kurys como diretora com voz para realizações em longa-metragem. Passados quarenta anos da morte de Signoret, Kurys emplaca um retrato — nem tão otimista — da estrela que, pelo que relata, envelheceu muito mal para brilhar nas telas de cinema.
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Ainda que a Signoret do filme aparente ser uma bartender (a ocupar ainda o posto de cliente), a cineasta traz abordagem nutrida pelo respeito à maturidade dos dois gigantes estampados na tela: tanto Simone Signoret, quanto o marido desta, o venerado Yves Montand, astro da música, dos politizados filmes de Costa-Gavras, do excepcional Jean de Florette e ainda protagonista de sistemáticas puladas de cerca.
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Com ares de uma decadente Fanny Ardant, a estrela Marine Foïs (do premiado Polissia) empresta talento possível (ainda que, fisicamente, seja bem mais mignon), com limitações da época, moldada como uma Amélia. Engajada na redação da autobiografia, quase sucumbe à necessidade de "pedir licença" ao marido para contar, publicamente, da vida conjugal.
Numa atuação bem mais discreta, Rochdy Zem (lembrado como ator de longa data e ainda o diretor de Chocolate, de 2016) faz naturalmente o astro autocentrado, condicionado à infidelidade e ao medo exagerado do envelhecimento. Na maturidade, o amor e a amizade no casal abafa os pesados escândalos, o mais notável de Montand junto a Marilyn Monroe, durante as filmagens de Adorável pecadora (penúltimo filme da americana nascida Norma Jeane, e morta em 1962).
Como feito em Depois do amor (1992) e Por uma mulher (2013), Diane Kurys examina, em Eu, que te amei, sentimentos pouco convencionais, removendo até, com crueldade, a sensação do romance no cinema. Além das humilhações vividas (e consentidas) por Signoret, capta o desencanto com a verve política de ambos. Selecionado para o segmento Cannes Classics, o longa sabe valorizar dois momentos de ouro para os experientes ícones: Montand e seu retorno em show no L'Olympia e a participação de Signoret em Madame Rosa (1977), feito com o israelense Moshé Mizrahi (vencedor do Oscar de melhor filme internacional) e com o qual tirou o César de melhor atriz de colegas como Isabelle Huppert, Delphine Seyrig e Miou-Miou.
