
Por Toinho Castro
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Me chamo Brasília
Sabia que um dia
Ia te encontrar
Alceu Valença
Tudo que existe, já existia antes, como promessa. Ou como sonho. Que em 1883, num 30 de agosto, mês auspicioso, Dom Bosco tenha te sonhado, não me espanta. Como Coleridge sonhou o vasto poema Kubla Khan, que perdeu-se, quando o poeta o transcrevia e uma visita bateu à porta, impertinente. Perdeu-se, sim, o poema; mas você, Brasília, outro poema, persistiu nas correntes profundas da imaginação de uma gente.
Lembro da primeira vez em que te vi. Do alto, de um avião, como deves ser vista pela primeira vez, que é como se dá o encantamento das tuas geometrias e matemáticas. Os motores do avião rugiam, sua estrutura vibrava e ruídos, sinais e avisos subjacentes pipocavam na aeronave. Mas lá estavas, Brasília. Silenciosa, às margens do Paranoá, desafiando com sua luminosidade aquela manhã nublada em que cheguei. Porque, como um prisma, você convida a luz e a distribui em largas avenidas, quadras, blocos, sinuosidades que Niemeyer sonhou. Afinal, quantos sonhos te envolvem, Brasília? Já em terra, cruzando a Asa Norte rumo ao setor hoteleiro, vi teus prédios, tua amplitude, e pensei: estou no Modernismo. E um arrepio percorreu-me como um relâmpago.
Nessa mesma viagem, do alto pavimento do hotel, com a noite já avançada, fiquei na varanda a te observar, enquanto apreciava uma cerveja gelada, a primeira e última daquele dia, que cedo precisaria estar de pé para trabalhar e andar por teus caminhos. Ali, naquela varanda, pensando no dia que acabara e no dia seguinte, que já se espreitava pela noite, vi suas luzes se perderem na distância e o Planalto Central, teu chão, emergir e se sobrepor ao teu traçado, como um rio ou um mar que a tudo alagada na maré alta. Senti-me num tempo anterior, testemunha de algo perdido. Veio então à minha lembrança um texto de Jorge Luis Borges, chamado Sentir-se em Morte. Nele, o escritor argentino, relata um passeio noturno em que ele envereda por ruelas de barro, diante de suas casas baixas, com uma figueira junto à calçada. Escreveu Borges:
"Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser umas quantas aproximativas palavras e se aprofundou na realidade. Senti-me morto, senti-me conhecedor abstrato do mundo…" (Jorge Luis Borges, em A história da eternidade)
Borges fala sobre finitude e eternidade, sobre a persistência do passado. E ali estava eu, na varanda de um hotel, como se a história e a geologia de um mundo se descortinassem diante de mim. Você me deu isso, Brasília; tão moderna, tão prometida do futuro. E eu não esqueço.
Depois dessa viagem, voltei a ti muitas vezes. Muitas vezes refiz o percurso desde o Rio de Janeiro, SDU-BSB, ou mesmo GIG-BSB, sendo você encruzilhada aérea para tantos lugares no Norte-Nordeste do país, como um centro nervoso. Mas foi do Recife que te enxerguei primeiro, quando minha irmã fez residência no Sarah Kubitschek e enviava cartões e cartas com aqueles endereços cifrados, codificados, SQN, SQS… de longe aprendi tuas linhas e quis ser teu arquiteto. Quis te inventar. E te inventei, ao meu modo. Te rabisquei e desenhei e reimaginei. Foi um recifense, Joaquim Cardozo, poeta e engenheiro, que calculou teus concretos suspensos no ar.
Refiz os cálculos do poeta e tracei uma rota no teu rumo. Levei anos pra te encontrar. E de tantos encontros ainda me encanto de ti; dos teus vitrais, que parecem soltos no ar, teus arcos e tua imensidão, contida no minimalismo de um átomo, plantado por sonhos no Planalto Central.
*Toinho Castro é poeta e multiartista
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