cronica

Meu lápis cor-de-rosa

Na minha época de criança, brincávamos com o que tínhamos à mão, lápis, papel, bonecas simples, rua, quintal e muita imaginação

 2024. Divirta se Mais. Graça Seligman, jornalista e fotógrafa. -  (crédito:  Arquivo Pessoal)
2024. Divirta se Mais. Graça Seligman, jornalista e fotógrafa. - (crédito: Arquivo Pessoal)

Por Graça Seligman—No domingo passado, enquanto brincava com minhas netas, Violeta e Frida, lembrei de uma história da minha infância. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos. Contei a elas que ganhei uma caixa de lápis com 24 cores, uma verdadeira sensação na época. Um belo dia, o lápis cor-de-rosa, o meu favorito, sumiu da caixa que estava na mesa escolar. Fiquei muito triste. Nunca mais o lápis apareceu.

Fiquei pensando qual seria hoje o "lápis cor de rosa" para as crianças. Talvez não seja um único objeto. Pode ser um brinquedo que elas escolhem, um livro , uma fantasia, um jogo, ou até um momento especial, como um passeio. Hoje, o encantamento parece menos concentrado em uma coisa só e mais espalhado em muitas experiências.

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Quando contei do lápis cor-de-rosa, as netinhas, de 6 e 8 anos, ficaram impressionadas e perguntaram por que eu não ganhei outro lápis rosa. Naquela época, na década de 1960, ganhar uma caixa de 24 cores era difícil, quase impossível. Cresci em uma casa simples, onde um presente assim era raro. Também percebo que há uma diferença importante entre as épocas e o poder aquisitivo das famílias. Hoje, as crianças vivem em um contexto mais confortável, com mais acesso a brinquedos, atividades e experiências.

Mas o valor do afeto não muda.

Nasci em 1952. Minhas netas nasceram entre 2016 e 2024. Em pouco mais de 70 anos, o mundo da infância mudou completamente. O que antes era escasso, hoje é abundante. O que antes exigia imaginação para preencher o vazio, hoje muitas vezes precisa de limites para conter o excesso.

Na minha época de criança, brincávamos com o que tínhamos à mão, lápis, papel, bonecas simples, rua, quintal e muita imaginação. Inventávamos histórias, criávamos mundos. Hoje, as crianças têm brinquedos mais sofisticados, atividades organizadas, estímulos variados, mas o certo é que elas também têm muita imaginação.

Quando sentamos para desenhar, contar histórias ou simplesmente brincar juntas, percebo que a essência não mudou tanto assim.

As netas não têm acesso à internet, mas adoram assistir televisão, sempre com a programação acompanhada de perto. Admito que o fascínio das telas é imenso. Minha netinha mais nova, Dora, de 2 anos, quando tinha apenas alguns meses, já ficava "teclando" com o dedinho no relógio digital do vovô. Ou seja, já nascem "sabendo", e não tem volta.

Sei também que essa não é a realidade de todas as crianças. Ainda hoje, muitas vivem em condições de grande vulnerabilidade, com pouco ou nenhum acesso a brinquedos, atividades ou mesmo a uma infância protegida. Essa desigualdade, que atravessa gerações, nos lembra que o essencial, o cuidado, o tempo e a atenção, continuam sendo bens preciosos, infelizmente, nem sempre garantidos.

A reflexão que fica é que, independentemente das épocas, o importante é cultivar momentos significativos e promover conexões reais, seja por meio de um lápis colorido, seja de brincadeiras ao ar livre. A simplicidade ainda pode trazer felicidade, e é fundamental encontrar um equilíbrio entre as novas oportunidades e a essência do brincar. 

 


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postado em 17/04/2026 06:00
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