
Por Graça Seligman—Abrir as portas de um apartamento ocupado por décadas e fechado por nove anos é como entrar em um museu particular do cotidiano. Um museu sem roteiro.
Pilhas de papéis, tecidos, linhas, lãs, roupas, livros, objetos de época, utensílios de cozinha, documentos, armários lotados, joias, móveis. Tudo isso reunido no apartamento que guardava os pertences de três tias solteiras e uma sobrinha. Uma das tias ainda vive em uma clínica, distante da realidade.
As tias foram morrendo, deixando suas casas para as irmãs e, assim, sucessivamente. Tudo acabou reunido naquele apartamento. Os imóveis das outras foram sendo alugados para custear medicamentos, rotinas, obrigações e, sobretudo, a clínica da tia ainda viva.
Foi nesse clima que eu, minhas duas irmãs e duas primas entramos no apartamento para tentar esvaziá-lo. Começamos a olhar tudo. Havia ausência, cheiros do passado e uma quantidade de coisas que parecia impossível organizar ou encaminhar para algum destino.
A tarefa prática revelou-se um labirinto e logo compreendemos que, sem um mínimo de organização, não seria possível avançar. É um trabalho meticuloso, que exige paciência, discernimento e mãos unidas para evitar decisões apressadas.
Num primeiro momento, foram mais de 25 sacos de roupas para doação, além de praticamente tudo o que havia na cozinha. Apesar do cansaço de cinco tardes de triagem, aconteceu algo formidável. O que deveria ser apenas um inventário de despedida transformou-se em um reencontro.
Entre risos provocados por inutilidades encontradas e a seriedade de decidir o destino de tantos objetos, percebemos que o verdadeiro legado não estava nos sacos e caixas cheias, mas no laço que se fortaleceu entre nós cinco. À medida que esvaziávamos armários e gavetas, preenchíamos um espaço que a correria da vida havia deixado entre nós.
Despedir-se das coisas acabou sendo, ironicamente, a forma mais bonita de nos reencontrarmos.

Diversão e Arte
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