
Encenada pela primeira vez há quatro anos, Elogio da loucura se tornou um fenômeno que Leona Cavalli atribui à contemporaneidade do texto. Adaptada do clássico escrito por Erasmo de Rotterdam no século 16, a peça foi levada ao palco pela atriz em colaboração com o diretor Eduardo Figueiredo e está em cartaz desde 2022, com duas temporadas em São Paulo e turnês pelas capitais brasileiras. “A peça é absolutamente surpreendente porque comunica com qualquer público de todos os lugares, de todos os pontos de vista e de todas as idades. É uma obra clássica escrita no século 16 e chocantemente contemporânea”, explica Leona, que se interessou pelo texto ao perceber que a Loucura é, na verdade, uma personagem. A atriz está em cartaz com a peça na Caixa Cultural até domingo (23/8).
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Sozinha no palco, a atriz se transforma na Loucura para clamar e reivindicar o direito de ser reconhecida. “Ela se apresenta como uma deusa que vem clamar por ser aceita como energia, como força presente em todo ser humano e, ao se colocar de forma extremamente lúcida, nos faz ver como somos todos extremamente malucos. Ela é completamente lúcida e esse é o diferencial”, avisa. “Sou apaixonada pelo livro e o que me chamou atenção foi o fato de a loucura ser personagem, por isso achei que caberia no teatro. Ela diz que ‘eu sou a loucura’: a partir daí, já tem teatro. E o que mais me encanta no texto é o fato de ela não ser louca. E isso é muito importante”. Em entrevista ao Correio, a atriz reflete sobre a personagem e sobre o texto, que provocou um racha religioso e deu fôlego à reforma protestante no século 16.
Entrevista//Leona Cavalli
Você diz que esse texto é chocante temente contemporâneo. Por quê?
É contemporânea porque trata da loucura de forma que não é restrita a uma visão temporal. A abordagem é a loucura como uma energia, uma força presente em todos os seres humanos e não como um distúrbio ou como uma patologia. Isso a torna profundamente humana, então a abordagem fala desse aspecto da loucura como transgressora, ponto de criatividade presente em todas as pessoas, mas também a loucura da igreja, da política, do casamento, das relações humanas, e isso tudo é atemporal.
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E o texto tem mais de 400 anos…
O texto é realmente um texto clássico, muito estudado, e se tornou um texto muito transgressor ao mesmo tempo que é clássico, porque toca nesses pontos e esse pontos causam transformações. Quando você identifica a loucura em tantos lugares da nossa vida e da nossa sociedade, isso te leva à reflexão. Erasmo de Roterdã era um teólogo. No livro e no texto, ele coloca os pontos da loucura, inclusive na igreja e na política, falando da opressão dos ditadores . E você acha que é feito para hoje, mas não é. Tem uma parte na peça que leio um trecho original para as pessoas verem que não é adaptação para os dias de hoje, porque não precisa.
Esse texto exige um trabalho de voz e corpo muito intensos. Como você trabalha isso?
É um trabalho de corpo bem exigente. Ela tem muitas quebras, ao mesmo tempo tem a presença, o cuidado para não ter movimentos desnecessários. Tem momentos que incluem dança, momentos que incluem outros personagens, outras posturas de corpo e voz, porque vai de um ponto a outro, com vários tons diferentes para alcançar a complexidade da personagem. E a loucura abrange tudo, não discrimina nada.
O que essa experiência, que está no palco há quatro anos, trouxe para você como atriz?
Trouxe um jogo muito grande de comédia e drama. Exige isso. É uma tragicomédia, vai do tom mais solene para o popular, é uma peça clássica e popular ao mesmo tempo, e isso é um ganho imenso para mim como atriz.
Serviço
Elogio da Loucura
Direção: Eduardo Figueiredo. Com Leona Cavalli. Nesta sexta-feira (21/8), sábado (22/8), às 20h, e domingo (23/8), às 19h, na CAIXA Cultural Brasília (SBS Q. 4 BL A Lotes 3/4 Loja 1). Temporada até 30 de agosto. Não recomendado para menores de 16 anos. INgressos gratuitos, distribuídos uma hora antes do início de cada apresentação, limitados a um por pessoa
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