
A Cerrado Cultural inaugura hoje duas exposições de jovens artistas cuja produção dialoga com a contemporaneidade, mas também com a ancestralidade e o imaginário das tradições. Movido pelo afeto e pelas relações interpessoais, o mineiro Abraão Veloso traz da própria história familiar a técnica utilizada para refletir sobre negritude e laços de afetividade na exposição Um abraço em um fio de lã, que tem curadoria de Divino Sobral.
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Com linhas, tecelagem e tapeçaria, mas também com pinturas, ele traça perfis que retratam homens negros, a maioria conhecidos e amigos ou pessoas que admira, com uma delicadeza que faz do trabalho um aconchego para o olhar. "Penso nesse universo da afetividade para figuras tratadas, durante muito tempo, num universo de violência", explica, ao admitir que utiliza as cores pasteis para remeter o olhar do público a um lugar de carinho e doçura. "Tem a linha, a lã, que utilizo como um artefato protetivo. Desde criança vejo o fio como um lugar de afetividade, porque na minha família tem muitas pessoas que trabalham com fio e crochê. Uso esse fio para proteger e fazer essa oferta para esses personagens", diz.
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O afeto é uma das matérias-primas do artista, que ele justifica como um lugar de autoconhecimento e autoproteção. "Uma das coisas mais importantes para mim no quesito do retrato é saber se a pessoa que eu pintei se sente bem representada. Esse é um dos principais motivos para meu trabalho existir: nós, homens pretos brasileiros, podemos nos ver nesse lugar do afeto, do acolhimento", avisa Abraão, que fala em representatividade do universo LGBT negro.
Ausências
Interessado em pesquisar a constituição da memória das tradições e a importância dos arquivos para constituir esse tipo de acervo, o goiano Rafael de Almeida criou as cianotipias de Antes do couro ceder, exposição com curadoria de Matteo Bergamini. "O trabalho surge do interesse por pensar práticas artísticas derivadas dos arquivos ou das ausências dos arquivos. Então tenho pensado muito e elaborado, tanto artisticamente quanto conceitualmente, essa noção de elaboração material da ausência", explica o artista, que tem se dedicado a pensar em questões relacionadas a paisagens naturais e humanas do Brasil central. É nesse contexto que surge o interesse pela importância da figura do boi, da lida com o gado e do manejo agrícola na constituição da subjetividade dos habitantes do que chama de "sertão-cerrado brasileiro".
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A distância entre os relatos orais da população e o conteúdo dos arquivos históricos é uma das linhas de trabalho do artista. Ao se deparar com narrativas de pessoas que viveram o mesmo momento histórico do arquivo, mas que relatam vivências e práticas que não estão registradas, o artista passou a refletir sobre noções de memória, apagamento e o quanto fatores ideológicos permitem que determinadas imagens existam em detrimento de outras. "A hipótese que tenho trabalhado é que essas comunidades rurais que viveram e seguem vivendo no Brasil central não tiveram e não têm capacidade de produção de vestígio. E sem vestígio, não há como ser institucionalizado", explica.
Os vestígios, Rafael leva para as cianotipias, aquarelas e fotografias que servem de base à produção das séries de Antes do couro ceder. Ao identificar as ausências, ele trata de inseri-las em imagens criadas com inteligência artificial e depois envelhecidas graças a técnicas de sensibilização química do papel. "Mas primeiro tem a pesquisa histórica para identificar a ausência nos arquivos", avisa.
Serviço
Antes do couro ceder
De Rafael de Almeida. Curador: Matteo Bergamini
Um abraço em um fio de lã
De Abraão Veloso. Curador: Divino Sobral
Abertura neste sábado (15/8), às 11h, na Cerrado Cultural (SHIS QI 05, Chácara 10, Lago Sul). Visitação de segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 13h

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