Crônica

As cores e a cidade

Confesso que não foi a primeira vez que ouvi comentários desse tipo, mas tive que descordar, porque Brasília pode ser tudo, menos cinza

As cores e a cidade
 -  (crédito: Kleber Sales)
As cores e a cidade - (crédito: Kleber Sales)

Por Cilene Vieira— Tempos atrás, uma amiga, que vive em São Paulo, veio me visitar. Como a maioria dos brasileiros, ela não conhecia a capital do país. Depois de muitos passeios pela cidade, ela me falou: "percebi que aqui é preciso exercitar o olhar o tempo todo, é tudo tão diferente, que se você não olhar, não vê." Ela ficou impressionada com a beleza dos detalhes da arquitetura, da paisagem, do céu e de tudo o que eu chamava atenção e o que só o "exercício do olhar" a permitia ver.

Recentemente, veio outra visita, de uma pessoa da família, que gostou da cidade, "apesar de ser tão cinza". Brasília é cinza? "Sim, parece que tudo aqui é cinza, mesmo com os jardins. Comparado com outras ruas e cidades, Brasília é cinza".

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Confesso que não foi a primeira vez que ouvi comentários desse tipo, mas tive que descordar, porque Brasília pode ser tudo, menos cinza. Talvez, as vias largas e asfaltadas deem essa percepção, os enormes espaços vazios preenchidos pelas formas da arquitetura moderna, as superquadras com prédios que normalmente variam entre os tons terrosos, bege, cinza e azuis e verdes claros. Pode ser. Realmente, não há cores gritantes na arquitetura da capital. Mas tudo relacionado ao "olhar desimpedido" que a cidade proporciona ou ao "exercício do olhar" para poder ver, Brasília tem cores, muitas cores.

Na perspectiva do campo de visão humano, é onipresente a presença do céu. E que céu!

Os tons azuis, rosa, vermelho, lilás, laranja e até cinza, provocados pelo nascer e pelo por do sol mais lindos que se pode ver, que muda de acordo com a época do ano, são espetáculos diários. Nos períodos de chuva, esse céu fica de um azul intenso, carregado de nuvens dramáticas, que aparecem entre um temporal e outro. Céu de Goya. Ou na seca, sem nenhuma nuvem no horizonte. Céu de Tarsila, ou de Mauricío de Sousa.

Não há outro céu nesse país com tantas cores como no planalto central, uma subida ou descida do Eixo Monumental tira a dúvida do mais cético. E quando, nesse exercício, o olhar fixa a paisagem natural, um arco-íris é insuficiente pra definir a riqueza de tons e cores. Aí, não só a arquitetura, mas a natureza abundante complementa e preenche os espaços vazios. A extensa grama verde e milhões de árvores cercam monumentos, quadras, residências e vias.

Na seca, passamos para as cores do Cerrado, a grama fica marrom, bege, dourada, torrada, e as árvores formam uma sequência característica e já esperada por quem vive aqui. Impossível falar de cores de Brasília sem mencionar o desfile dos ipês, roxo, amarelo, branco, rosa, que, junto com os jacarandás mimosos e as maravilhosas cega-machado e sapucaias, colorem a cidade de maio a outubro.

Já durante o período das chuvas, Brasília é menos cinza ainda. São os diferentes tons de verde que, de dezembro a abril, destacam os cambuís que preenchem a cidade de amarelo, os flamboyants que se cobrem de vermelho e as quaresmeiras e barrigudas de flores brancas e rosa, principalmente. E pra não dizer que não falei de canteiros, Brasília é uma cidade-jardim durante o ano inteiro.

Brasília é uma festa de cores. Basta exercitar o olhar pra ver.

 


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postado em 25/09/2026 06:00 / atualizado em 25/09/2026 10:25
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