
Por Beto Seabra—Certa vez, perguntaram a Clarice Lispector qual o primeiro livro que ela havia lido na vida. Do seu modo sempre enigmático, ela respondeu: "Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas". Claro, pois ainda criança temos uma vida, recheada de histórias fantásticas, depois outra, que aparece na adolescência, com leituras sobre aventuras, e por aí vai. Em seu relato, Clarice nos fala de quatro vidas diferentes, cada uma com seu primeiro livro.
O primeiro livro de que me recordo eu li na biblioteca, ou sala de leitura, da escolinha da 711 Norte, onde concluí a 5ª e a 6ª séries. Devia ter 10 ou 11 anos. Fiquei maravilhado com o que vi quando lá cheguei. Minha casa tinha poucos livros, a maioria de livros técnicos para adultos. A biblioteca da escola não devia ter muito mais do que umas duas centenas de títulos, mas para mim era um mundo novo que se abria.
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Lembro-me com detalhes desse primeiro encontro com uma biblioteca. Comecei a ler o primeiro livro que me chamou atenção: Tarzan, o filho das selvas, do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs. O nome do autor eu recupero agora, com a ajuda da internet, mas o livro e sua capa eu não esqueci. Era da coleção Terramarear, da Companhia Editora Nacional. E, aqui, cabe um parênteses. É incrível como a indústria cultural tenha apagado a origem da história original de Tarzan. Depois de tantas versões em filmes, séries para televisão e histórias em quadrinho, fica até difícil acreditar que a origem de tudo tenha sido um livrinho publicado pela primeira vez em 1914, por um escritor de Chicago.
Depois, pulei de Tarzan para Monteiro Lobato. Na casa dos meus avôs, na 709 Norte, havia as obras completas do Sítio do Pica Pau Amarelo. O primeiro que li foi também o que mais me impressionou: A chave do tamanho, no qual Lobato conta a história de um mundo onde as pessoas foram reduzidas ao tamanho de insetos, quando tudo o mais permaneceu em tamanho natural. É um livro pacifista, no qual a endiabrada Emília — que permaneceu grande, pois era uma boneca — só aceita girar novamente a Chave do tamanho se os homens concordassem com o fim da Segunda Guerra Mundial.
Meu primeiro livro de adolescente foi Olhai os lírios do campo, de Erico Verissimo. Um romance de formação, com claras intenções éticas e humanitárias. Impossível, aos 14 anos, ler o livro de Erico Verissimo sem tomar partido pelos humildes. Gostei tanto do livro que fui atrás das outras obras do escritor gaúcho e li, numa sentada só, Clarissa, Incidente em Antares e O tempo e o vento. Erico abriu para mim as portas da literatura brasileira, pois, depois dele, não parei mais.
Na mesma época, descobri a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Foram dele os primeiros poemas que li e até hoje, quando quero "voar fora da asa", para usar a expressão de outro poeta de que gosto muito, o Manoel de Barros, eu recorro às poesias completas de CDA. Devo ter lido e relido o poema A flor e a náusea umas cinquenta vezes: "Preso à minha classe e a algumas roupas/ vou de branco pela rua cinzenta./Melancolias, mercadorias espreitam-me. /Devo seguir até o enjoo?/ Posso, sem armas, revoltar-me?".
Descobri a literatura universal quando entrei na Universidade de Brasília e comprei na antiga livraria Sodiler, do Conjunto Nacional, A montanha mágica, de Thomas Mann. A escolha deve ter sido para impressionar alguém, pois o livro tem quase 800 páginas. Mas assim que comecei a ler Thomas Mann e a história do principal personagem do livro, Hans Castorp, descobri o que eu queria fazer pelo resto da minha vida.
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