Crônica

Sara e Clarice

Clarice faz questão de elogiar a letra de D. Sara, "clara e legível", para confirmar que a própria ex-primeira-dama havia escrito as respostas restantes

Beto Seabra, jornalista e escritor -  (crédito: Arquivo pessoal)
Beto Seabra, jornalista e escritor - (crédito: Arquivo pessoal)

Por Beto Seabra—A leitura de entrevistas antigas é um bom exercício para conhecer a história enquanto ela acontece e sem as lentes ideológicas de quem a interpreta a posteriori. Com isso, não quero dizer que os historiadores são seres terríveis que mudam a verdade sobre os acontecimentos passados de acordo com suas visões de mundo. De jeito nenhum. É que nenhuma análise sobre o que passou, por mais rigoroso que seja seu intérprete, está isenta de interpretação, por supuesto.

Já a leitura de jornais e revistas antigas, caso se confirme a fidedignidade das informações, permite ao leitor de hoje que ele próprio tire suas conclusões sobre fatos antigos. Recentemente, li uma entrevista dada por Sara Kubitscheck, então esposa de JK, a ninguém menos que Clarice Lispector, quando esta era jornalista contratada pela revista Manchete. A conversa entre as duas mulheres, complementada depois por respostas por escrito às perguntas que ficaram pendentes, foi publicada em 19 de outubro de 1968, portanto há 58 anos.

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Clarice faz questão de elogiar a letra de D. Sara, "clara e legível", para confirmar que a própria ex-primeira-dama havia escrito as respostas restantes. Chama atenção o trecho 'político' da entrevista. Estávamos a poucas semanas da edição do Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5. Enquanto isso, Juscelino, João Goulart e Carlos Lacerda haviam sido proibidos meses antes pelo governo militar de continuarem as articulações para a criação da Frente Ampla, um movimento com vistas à redemocratização do Brasil.

Com seu jeito franco, a certa altura da entrevista Clarice pergunta se D. Sara pensava em ser candidata ao governo de Minas Gerais, pois JK tivera os direitos políticos cassados por 10 anos, em 1964. O então governador eleito de Minas, Israel Pinheiro, estava em meio de mandato e uma nova eleição deveria acontecer em 1970. No entanto, o calendário eleitoral foi anulado pelo AI-5, como sabemos, e Rondon Pacheco seria o indicado para o posto de forma indireta.

Tendo sido primeira-dama em três situações: quando JK foi prefeito de Belo Horizonte; depois quando seu marido foi governador do estado e, finalmente, presidente da República, D. Sara tinha muito prestígio entre os mineiros, pois havia sido uma primeira-dama operosa, que criou as Pioneiras Sociais, voltada para a assistência social e o atendimento médico especializado, décadas antes da existência do SUS.

Simples e direta, D. Sara responde que jamais havia pensado na possibilidade de concorrer ao governo de Minas. "Se o meu nome tem sido cogitado para essa missão, eu nada posso dizer, pois de mim não partiu nenhum movimento nesse sentido", completa.

Clarice não insiste no assunto. Mais à frente retorna ao tema político por outro viés. Pergunta a D. Sara como ela havia suportado o exílio. Dessa vez a ex-primeira-dama não mede as palavras: "Quem instituiu o exílio sabia bem como torturar uma pessoa", responde. Em 13 de dezembro de 1968, portanto dois meses após a entrevista, o AI-5 é decretado, o Congresso Nacional é fechado, é instituída a censura prévia e o habeas corpus é suspenso. D. Sara não poderia mais dar entrevistas.

 


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postado em 30/10/2026 06:00
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