
Oliveira, carinhosamente chamado de o canalha da redação, tem mãe. Apesar de ser um patife, cuida bem da doce senhora; e teve um susto com ela, recentemente. Pensou que sua progenitora havia sido vítima colateral da bem vinda batalha do governo contra as bets, as casas de aposta virtuais que destruíram finanças de uma multidão endividada no país.
Não, a viúva Oliveira não apostava, não torrou economias da família, nem tinha patrocínio dessas exploradoras do desespero alheio, imagine. Seu vício, inocente, aos 88 anos, é passar parte de sua merecida aposentadoria em um site de jogo virtual, com parceiros anônimos, que disputam, nas cartas de baralho, o jogo de tranca, um sucessor do tradicional jogo de buraco. Jogam sem apostar dinheiro, "a leite de pato", como define a boa mulher, habituada a pegar o baralho virtual logo depois do café, antes do lanche da tarde, e à noite, após o jantar.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Oliveira costumava defender a jogatina da mãe como uma profilaxia para idosos. "Com o fim das casas de bingo, é uma opção de lazer melhor que ficar pendurada no celular reproduzindo absurdos das tias do zap", diz ele, que considera uma doença moderna os memes de whatsappespalhados por grupos de ódio, que miram aposentados ociosos como caixa de ressonância.
O canalha chegou a pensar que o inocente passatempo da mãe havia sido abatido por engano, na determinação do governo às operadoras para acabar com as bets. Descobriu, aliviado, que foi apenas uma breve suspensão de serviços no site de jogos, uma freada de arrumação nos computadores tão solicitados por jogadores da terceira idade. Preocupação a menos, contou. A tristeza da mãe com a interrupção dos joguinhos deixava toda a família chateada.
Mas ele ficou cabreiro com o drama materno. O colapso temporário da jogatina inocente foi apenas mais um episódio a alimentar a paranoia de Oliveira com nossa crescente dependência do mundo virtual, gerenciado por seres invisíveis e inalcançáveis, como a Meta, big techacusada de manipulação nas eleições passadas, e, ao mesmo tempo, dona da rede social de mensagens que teve atuação importante para a virada de votos na mesma eleição.
Compartilho da preocupação do canalha, desde que, no começo do ano, a mesma Meta decidiu que o cronista que vos escreve havia rompido as "regras da comunidade". Sumiu, arbitrariamente, com mais de uma dezena de anos em posts, textos, fotos e interações na rede social, sem maior explicação. Não adiantou pedir revisão, nem buscar, no site da Meta, o que seriam essas "regras da comunidade" que eu teria violado. Está lá, literalmente: são regras da carochinha, que podem ser ignoradas pela empresa, por razões que ela mesmo define.
É assustador. Nesse mundo virtual, há muito mais que posts e memes em jogo. Foi o que mostraram hackerseuropeus que, dia desses, invadiram pela internet os termostatos de geladeiras de supermercados e provocaram o descongelamento de toneladas de carne, estragadas pelo atentado cibernético. Imagine você, que dorme com sua Alexa, ou Siri, ao lado, todos os dias. O que elas não fariam, sequestradas por algum hacker indiano, chinês, russo, israelense ou ucraniano, irritado com aquele desabafo que você fez no Instagram.
Imagine que algum bilionário maníaco junte com um chefe de Estado demente e resolva ditar os rumos de sua vida daqui por diante; e, para puni-lo em caso de desobediência, use, contra você, seus próprios computadores e celulares. Só imagine.
Bom, a boa notícia é que não há chance de que um conluio desses aconteça, e, se acontecesse, que fosse bem sucedido. É o que me garantiu categoricamente uma fonte pra lá de confiável: a sempre sensata, ponderada, mãe do Oliveira, o canalha da redação.
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte