CONJUNTURA

Mercado reduz previsões para o crescimento da economia brasileira

Desconfiança em relação à política fiscal leva analistas a reduzir previsões para o crescimento da economia e a projetar inflação mais elevada neste ano e no próximo. Bancos e corretoras também veem avanço de juros e dólar

Rosana Hessel
postado em 02/11/2021 06:00
Para Carlos Thadeu de Freitas, pressão inflacionária é o que mais preocupa, e BC deveria atuar no câmbio -  (crédito: Roque de Sá/Agência Senado)
Para Carlos Thadeu de Freitas, pressão inflacionária é o que mais preocupa, e BC deveria atuar no câmbio - (crédito: Roque de Sá/Agência Senado)

As perspectivas para a economia brasileira não param de piorar, em grande parte, devido ao aumento dos riscos na condução da política econômica. Para analistas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mostra-se mais preocupado com a reeleição e em agradar o Centrão, que está ditando os rumos da pauta econômica.

O boletim semanal Focus, divulgado, ontem, pelo Banco Central, confirmou a desconfiança crescente do mercado financeiro nas promessas do presidente e da equipe liderada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de que haverá controle nos gastos públicos e respeito às regras fiscais.

Houve nova redução nas estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2021 e 2022 e altas nas previsões para inflação, dólar e taxa básica da economia (Selic) — que passou para dois dígitos no ano que vem, o que vai travar qualquer chance de alta do PIB. As projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano subiram pela 30ª semana consecutiva.

“Não haverá crescimento da economia no ano que vem”, frisou o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes. Ele prevê que a taxa Selic terminará o próximo ano em 11%. A nova previsão do Focus para a taxa básica de juros no ano que vem passou de 9,50% para 10,25% ao ano.

Ex-diretor do Banco Central, ele disse que a alta constante da inflação no Focus é o mais preocupante. Freitas Gomes lembrou que as projeções para o indicador oficial do custo de vida continuam muito acima das metas para o IPCA que precisam ser perseguidas pelo BC, de 3,5%, em 2022, de 3,25%, em 2023; e 3%, em 2024.

“O mais preocupante é o IPCA, que está sempre aumentando no Focus, em grande parte, devido aos ruídos políticos. Isso quer dizer que a insegurança política vai persistir por mais algum tempo. Atualmente, é muito difícil para o governo apresentar bons resultados ou avançar com reformas, porque está tudo muito devagar e a política está interferindo na economia”, explicou. “A parte econômica precisa ser acertada, mas é preciso acabar com esse barulho político”, acrescentou.

Expectativas

Analistas reconhecem que, apesar da alta de 1,98% na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), ontem, não há o que comemorar, principalmente, com a piora nas previsões do mercado e com a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) anunciará o início do tapering — redução do volume de dólares despejados no mercado, atualmente em U$ 120 bilhões por mês —,o que será ruim para os mercados emergentes, que vinham sendo beneficiados pelo excesso de liquidez no planeta.

“A semana, apesar de curta, é positiva para os mercados internacionais, mas bem negativa, em termos de agenda, para o Brasil, com Fed anunciando o tapering amanhã”, destacou Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos. Ele lembrou que a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), também deverá mostrar maior preocupação com a inflação, que não para de subir nas projeções do mercado. Na semana passada, o BC elevou a taxa básica da economia de 6,25% para 7,75% ao ano, devido, em grande parte, à piora no cenário fiscal.

A mediana das projeções de crescimento do PIB de 2021 teve redução pela terceira semana seguida, passando de 4,97% para 4,94%. Há quatro semanas, essa estimativa era de crescimento de 5,04%. Para o PIB de 2022, o corte no crescimento foi o quarto seguido, passando de 1,40%, na semana passada, para 1,20%, nesta semana. A previsão para o câmbio no fim deste ano passou de R$ 5,45 para R$ 5,50, mesma taxa prevista para o fim de 2022 e, até 2024, não há perspectiva de que a divisa norte-americana fique abaixo de R$ 5. “Há uma deterioração das expectativas para 2021 e para 2022”, resumiu Arnaldo Lima, diretor de Estratégias Públicas do Grupo Mongeral Aegon (MAG).

Na avaliação de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, que prevê zero de crescimento no PIB de 2022, a tendência não é nada animadora por conta da destruição do teto de gastos, o que ajuda a pressionar o dólar para cima por um longo período. “O Focus veio ruim, mas como esperado, e vai piorar mais”, destacou. “Essa crise fiscal foi criada porque o governo não sabe governar. Com o Centrão dominando a política econômica, a pressão para aumento de gastos vai continuar”, destacou.

Reservas

De acordo com Gomes, da CNC, se o dólar não cair, a inflação continuará elevada e a Selic também, travando o crescimento de 2022. “A alta do dólar está relacionada com esse barulho político, mas o Banco Central poderia interferir mais no câmbio, porque há excesso de reservas internacionais”, destacou. Conforme dados do BC, no último dia 29, o total de reservas internacionais somava US$ 367,9 bilhões, dado US$ 3,9 bilhões abaixo do pico mais recente, de US$ 371,8 bilhões.

 

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