Política Monetária

BC e FED mantêm juros com sinalização de queda

Bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos decidem manter inalteradas as respectivas taxas básicas por causa do cenário de incertezas da economia mundial, mas indicam que o ciclo de alta deve começar a ser revertido nas próximas reuniões

Banco Central mantém pela 5ª vez consecutiva a taxa Selic em 15% ao ano, maior patamar desde 2006 -  (crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Banco Central mantém pela 5ª vez consecutiva a taxa Selic em 15% ao ano, maior patamar desde 2006 - (crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Na primeira “superquarta” do ano, a cautela ainda foi a palavra de ordem. Em dia marcado por decisões de juros tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o ambiente de incertezas na economia e na geopolítica, sobretudo em relação às ameaças do presidente norte-americano Donald Trump de conquistar novos territórios, fizeram com que ambos os bancos centrais decidissem manter inalterados os principais instrumentos da política monetária.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter pela 5ª vez consecutiva a taxa Selic em 15% ao ano, o que representa o maior patamar dos juros desde 2006. O nível da taxa nominal permanece inalterado desde a reunião de junho, após o Copom elevar os juros em mais de 3 pontos percentuais em menos de seis meses, em meio a temores mais fortes do mercado sobre o cenário fiscal interno e os conflitos geopolíticos.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

No comunicado publicado após a reunião, os diretores apontam que o cenário ainda é marcado por uma “elevada incerteza”, que exige uma cautela maior na condução da política monetária. “O Comitê avalia que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros”, destaca.

Apesar da manutenção do tom duro em relação ao futuro, o Copom sinalizou, pela primeira vez — e de maneira mais enfática — que pode iniciar o processo de corte dos juros na próxima reunião, se confirmadas as expectativas dos diretores em relação ao cenário atual. A indicação feita pelo BC corrobora a maior parte das expectativas do mercado financeiro, que previa o início da queda da Selic em março.

O comitê reforça, ainda, que manterá uma “restrição adequada” para levar à frente o objetivo de trazer a inflação à meta. “O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”, acrescenta o BC, em comunicado. O próximo encontro do Copom está marcado para os dias 17 e 18 de março.

Ainda no comunicado divulgado ontem, o comitê destaca que a conjuntura e a política econômica nos Estados Unidos mantêm o ambiente externo conturbado e as incertezas com relação às condições financeiras de outros países. Além disso, no cenário doméstico, os indicadores seguem apresentando uma trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, o que já era esperado pelo BC com as taxas de juros mais altas. Mesmo assim, os diretores avaliam que os riscos para a inflação – tanto de alta quanto de baixa – ainda permanecem elevados.

Juros ‘insustentáveis’

Após a decisão do Copom, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) expressou novamente preocupação com a manutenção da taxa básica de juros atual. Na visão da entidade, a cautela, defendida pelo BC, “ignora” a trajetória de queda da inflação e os danos que a Selic a 15% causam à população. “O Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de redução dos juros há muito tempo. Ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia, aprofundando a desaceleração do crescimento.

É indispensável que a flexibilização da política monetária comece já na próxima reunião”, defende o presidente da CNI, Ricardo Alban. Uma projeção feita pela própria entidade destaca que, no patamar atual, a taxa de juros real – que desconta a inflação corrente e está em 10,5% – está 5,5% acima da chamada taxa de juros neutra, que não estimula nem desestimula o crescimento econômico. Diante disso, a CNI acredita que a Selic deveria estar próxima de 10,3% ao ano, ao considerar a inflação acumulada dos últimos 12 meses.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, a manutenção da taxa atual tende a prolongar os efeitos adversos na economia, com restrição a investimentos, custo de crédito e produção mais elevados, além da perda da competitividade da indústria brasileira. “É necessário uma política monetária mais equilibrada, que consiga conciliar o controle da inflação com o estímulo ao desenvolvimento econômico e ao fortalecimento da competitividade da indústria nacional”, comentou.

Sobre o comunicado do Copom, o economista chefe do Banco Daycoval, Rafael Cardoso, explica que houve poucas mudanças em relação ao último documento. Diante disso, a sinalização de uma possível queda na próxima reunião foi uma das poucas mudanças no texto divulgado ontem. “Essa sinalização veio acompanhada de termos em que ele (Copom) fala que vai ser sereno, tanto no ritmo quanto na magnitude, dando uma ideia de algum certo conservadorismo”, considera. 

Cardoso avalia que ficou surpreso com a decisão do BC de incluir uma sinalização no comunicado sobre a abertura para um corte na taxa atual, um passo além daquele que a gente imaginava que seria dado. “O principal argumento do Banco Central de que a inflação corrente cedeu diz muito mais respeito ao passado do que ao futuro. Então, dado que o diagnóstico permaneceu de lá pra cá, a gente acha que o Banco Central deu um passo um pouco maior do que aquele que a gente imaginava”, acrescenta o especialista.

Já o doutor em economia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Benito Salomão destaca que a taxa real, que desconta a inflação, está muito acima do que seria ideal para a atividade econômica, e que o BC já poderia ter reduzido os juros nesta reunião. “Eu sou da opinião de que é possível produzir essa convergência (da inflação à meta) com credibilidade e reputação, com um grau de contração da política monetária mais baixa”, pontua.

Ameaças no EUA

Nos Estados Unidos, o Comitê de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve (Fed) — o banco central do país — decidiu manter a taxa atual na banda de 3,5% a 3,75%. O presidente do Fed, Jerome Powell disse que o setor imobiliário continua fraco, apesar de outros indicadores sinalizarem um crescimento mais “sólido” da atividade econômica. “O consumo tem se mostrado resiliente e o investimento fixo empresarial continuou crescendo”, avaliou.

Além disso, a decisão do Fed é considerada uma resposta à pressão do presidente Donald Trump sobre os juros, que já chegou a fazer críticas mais severas ao chairman do banco central norte-americano. Recentemente, Powell quebrou o silêncio e disse estar sendo vítima de uma “perseguição judicial” do chefe do Executivo e classificou a investigação aberta contra ele próprio como “sem precedentes”.

  • Google Discover Icon
postado em 29/01/2026 03:55
x