Negócios envolvendo data centers alcançaram um novo recorde global em 2025, com movimentação superior a US$ 61 bilhões, segundo dados da S&P Global. O volume reflete a corrida internacional para ampliar a infraestrutura capaz de sustentar aplicações de inteligência artificial (IA), que demandam grande capacidade de processamento e armazenamento e alto consumo de energia.
A tendência deve se intensificar nos próximos anos. Para 2026, a expectativa é de que a inteligência artificial esteja ainda mais integrada ao cotidiano, com uso ampliado de modelos generativos capazes de produzir textos, imagens, músicas e códigos de programação com rapidez e precisão. A avaliação é do membro do Instituto dos Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE) e professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jéferson Campos Nobre.
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Segundo o especialista, o avanço da IA também estará associado à especialização de modelos treinados para áreas específicas, como saúde, educação, indústria e segurança pública. Ao mesmo tempo, o aumento do uso dessas tecnologias exigirá maior atenção a temas como viés algorítmico, privacidade de dados, uso ético e definição de quem é responsável por decisões automatizadas.
"A evolução da IA exigirá uma maior atenção para seu uso ético e consciente, particularmente quando for integrada à computação quântica. Acredito que será um ano de novidades em inteligência artificial, como, por exemplo, assimilação de modelos treinados para áreas específicas. Mas também é essencial fazer ajustes nessa tecnologia, como corrigir viés algorítmico e discriminação, criar uma maior proteção contra a violação da privacidade e o uso indevido de informações, além de determinar a responsabilidade em decisões a partir da utilização da IA", enfatiza Nobre.
Outro eixo de desenvolvimento apontado para 2026 é a expansão da Edge Computing, ou computação de borda, combinada à Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês). Essa integração permitirá que dados sejam processados mais próximos da fonte, reduzindo a latência e viabilizando decisões em tempo real, com aplicações em carros autônomos, Indústria 4.0 e projetos de cidades inteligentes.
"Com o Edge Computing, aproximamos o trabalho dos sensores. Assim, em uma indústria ou um campus, parte do que iria para a nuvem será processada próximo dos dispositivos. E, para essa finalidade, contribuirá decisivamente a sexta geração da tecnologia de redes móveis, que proporcionará velocidades muito altas (até 100 vezes maiores que o 5G), latência ultrabaixa (em microssegundos), capacidade massiva e a melhor integração de inteligência artificial", afirma Nobre.
Entre as inovações esperadas para 2026, a computação confidencial também se destaca como uma das principais apostas. A tecnologia permitirá que dados sejam utilizados na nuvem sem que provedores tenham acesso indevido às informações, desde que haja investimentos robustos em engenharia de segurança cibernética.
Para o especialista do IEEE, esse conjunto de avanços consolida uma nova etapa da transformação digital, com impactos diretos sobre a infraestrutura tecnológica global.
IA no cotidiano
Por sua vez, o pesquisador em cibernética e inteligência artificial e professor do curso de Engenharia de Software do Centro Universitário Uniceplac Romes Heriberto de Araújo, ressalta que a IA generativa deixou de ser experimental e passou a integrar rotinas profissionais e pessoais. "O que começou com geração de texto e imagem evoluiu para sistemas complexos e multimodais, capazes de trabalhar simultaneamente com texto, áudio, imagem e vídeo. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e Microsoft Copilot já são padrão para redigir e-mails, resumir documentos extensos e criar rascunhos de marketing", afirma.
No atendimento ao cliente, Romes destaca uma mudança estrutural. Para ele, os chatbots deixaram de seguir árvores de decisão rígidas e passaram a operar como agentes conversacionais que entendem contexto e nuance, resolvendo demandas mais complexas sem intervenção humana. A expectativa para 2026 é de que esses agentes se tornem multimodais, permitindo interações por voz em serviços como drive-thru e autoatendimento, com funcionamento semelhante ao de atendentes humanos.
"A IA passará de passiva (que responde a um prompt ou comando) para ativa (busca objetivos com maior liberdade e acessando a diversos canais). Na educação e no e-commerce, a GenAI (IA generativa) criará materiais de aprendizado ou jornadas de compra únicas para cada indivíduo, adaptando-se em tempo real ao seu estilo de aprendizagem ou preferências, algo inviável anteriormente e que começamos a sentir o gostinho em 2025", explicou o professor.
Segurança em jogo
A expansão da IA em ambientes de nuvem, no entanto, amplia desafios na área de segurança da informação. Romes explica que a migração dessas cargas de trabalho aumenta a superfície de ataque e exige novas estratégias. "Os grandes provedores estão usando a própria IA para analisar volumes massivos de dados e identificar padrões que indiquem ataques antes que eles ocorram", diz. Esse modelo, conhecido como segurança preditiva, parte do pressuposto de que os atacantes também utilizam IA, o que demanda respostas automatizadas e adaptativas.
A combinação entre inteligência artificial, Internet das Coisas e Edge Computing também tende a ganhar escala, aumentando os benefícios no dia a dia, mas gerando um cenário ainda mais complexo para a segurança e a privacidade.
*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia
