
Nos últimos dias, o X (antigo Twitter) foi tomado por imagens falsas criadas por inteligência artificial que retratam mulheres reais em situações de nudez ou com trajes sensuais, sem qualquer consentimento. As montagens foram geradas a partir de pedidos feitos por usuários ao Grok, ferramenta de IA da própria plataforma. Entre as vítimas está Julie Yukari, 31 anos, cantora e vocalista da banda Adaga Exe.
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O caso teve início após Julie publicar, na virada do Ano Novo, uma foto em que aparece deitada na cama ao lado de sua gata, Nori. A imagem, segundo ela, era comum e recebeu apenas mensagens de feliz ano novo nas primeiras horas. No entanto, na manhã seguinte, o cenário mudou.
“Só por volta das 10h da manhã recebi uma notificação de um desconhecido pedindo ao Grok para me colocar vestida com um ‘microkini’”, relatou. A partir disso, ela passou a descobrir diversas versões da mesma foto, manipuladas digitalmente, em que aparecia de lingerie, biquíni minúsculo e até completamente nua.
Julie contou ao Correio que acreditou, inicialmente, que a inteligência artificial não realizaria esse tipo de modificação. “Achei ingenuamente que o Grok não faria isso, por ser uma plataforma pública e porque me disseram que, se eu bloqueasse o perfil, ele não poderia mexer nas minhas fotos”, afirmou. Mais tarde, percebeu que outras mulheres estavam passando pela mesma situação e que as imagens estavam sendo geradas mesmo assim — ela apenas não as via porque havia bloqueado o perfil da ferramenta.
O impacto emocional foi imediato. “Fiquei muito mal, me senti violada, suja, com medo de alguém do meu convívio ver aquelas fotos. Eram imagens muito realistas, pareciam reais”, disse. Segundo Julie, o receio era que as pessoas acreditassem que ela produzia ou publicava conteúdo sexual, o que não corresponde à realidade.
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Nas redes sociais, a cantora fez um longo desabafo no dia 1º de janeiro, no qual chamou atenção para o desrespeito normalizado contra mulheres. “Esse episódio escancara o quanto o desrespeito é tratado como algo contagioso. E ainda tentam inverter, como se as vítimas fossem o problema”, escreveu. Em outro momento, afirmou que chegou a pensar em desaparecer da internet. “Com tudo o que aconteceu, quis sumir, excluir minhas fotos e meu perfil que cultivo desde 2009”, declarou, citando o medo de prejudicar a banda.
Julie também denunciou as publicações à plataforma. Segundo ela, após os relatos, o X reconheceu que a manipulação das imagens violava regras internas. Ainda assim, a cantora critica a facilidade com que o conteúdo foi produzido e disseminado. “Nunca foi tão fácil encontrar pornografia gratuita como hoje. Inclusive nesse site. Mas o que eles querem é sexo sem consentimento”, afirmou.
Outro ponto destacado por Julie é a atuação de perfis anônimos. “São perfis fantasmas, sem nome, sem foto, o que dificulta ainda mais a responsabilização. Mas crime na internet continua sendo crime, porque tem consequências reais”, disse.
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Diante da situação, ela registrou boletim de ocorrência na 10ª Delegacia de Polícia, em Botafogo, no Rio de Janeiro, por registro não autorizado de intimidade sexual. A cantora também informou que pretende procurar delegacias especializadas em crimes cibernéticos e ingressar com ações judiciais. “Vou processar todos que usaram minha imagem e também o X, por gerar as imagens e depois se recusar a tirá-las do ar”, afirmou.
Para Julie, o episódio reforça a urgência da regulamentação da inteligência artificial. “Não são só mulheres adultas. Crianças também estão tendo imagens sexualizadas. Isso é gravíssimo”, alertou. Segundo ela, o dano causado por esse tipo de conteúdo vai além do momento da exposição. “Uma imagem dessas fere o caráter e a reputação de uma pessoa. No futuro, isso pode ser usado até para imputar crimes”, disse.
Ao final, a cantora deixou um recado para outras vítimas de exposição indevida. “Registrem boletim de ocorrência e procurem advogados. É a sua imagem e sua reputação que estão em jogo”, recomendou. Julie também rebateu sugestões de que deveria deixar as redes sociais. “A internet é uma ferramenta essencial para o trabalho, para a comunicação e para a arte. Isso não dá direito a ninguém de se apropriar das minhas imagens e manipulá-las como bem entende", concluiu.

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