A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT), mais conhecida apenas como Correios, vive uma de suas piores crises desde quando foi transformada em estatal em 1969, depois de mais de três séculos de atuação no país como serviço postal da colônia, do império e, posteriormente, da República. Desde 2022, os Correios acumulam uma série de 12 trimestres consecutivos com prejuízos, sendo que nos seis primeiros meses do ano passado, a estatal teve um deficit de R$ 4,36 bilhões.
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Para conter a crise financeira, a empresa anunciou em dezembro de 2025 um plano de reestruturação dividido em três etapas, sendo que o primeiro deve durar três meses, com previsão de conclusão para março. Nessa fase inicial, os Correios devem buscar a captação de R$ 12 bilhões em empréstimos com grandes bancos, sendo R$ 9 bilhões por meio de Caixa Econômica Federal, Bradesco e Banco do Brasil, e outros R$ 3 bilhões pelo Santander e Itaú Unibanco.
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Além da captação de recursos, que terá como avalista o Tesouro Nacional, a fase 1 do plano de reestruturação envolve a criação de grupo de trabalho com o objetivo de recuperar a qualidade da operação e a credibilidade para os clientes e fornecedores. Já a segunda etapa do processo deve durar dois anos (2026 e 2027) e prevê uma redução de até R$ 7,4 bilhões nos gastos anuais. O principal item dessa etapa é o desligamento de 15 mil funcionários até o fim de 2027, que deve gerar um impacto de R$ 2,1 bilhões por ano. A empresa prepara um Programa de Demissão Voluntária (PDV) para levar à frente a ideia.
A segunda fase também conta com revisões de cargos de média e alta remuneração e de planos de Saúde e Previdência. Outra medida que deve gerar um ganho de R$ 1,5 bilhão para a empresa somente este ano é a alienação de imóveis subutilizados. O programa também prevê um redesenho na rede atual de operações da empresa, com o fechamento de cerca de 1 mil das 5 mil unidades dos Correios no país, o que deve gerar uma economia de R$ 2,1 bilhões anuais, de acordo com a empresa. Apesar disso, a estatal afirma que a universalização do serviço não será prejudicada.
Já a última etapa do plano consiste em um caminho de longo prazo para alcançar a sustentabilidade, por meio da contratação de uma consultoria externa para avaliar novos modelos societários. Apesar de descartar uma privatização, os Correios admitem que estudam parceria com o setor privado, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos, com a United States Postal Service (USPS), que tem um modelo híbrido e também passa por dificuldades financeiras, a exemplo da empresa brasileira.
Na entrevista coletiva concedida em 29 de dezembro, quando o plano foi anunciado, o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, disse que se nada fosse feito para conter a crise, o resultado negativo poderia chegar a R$ 26 bilhões em 2026. Mesmo com o plano em ação, as estimativas publicadas pela própria empresa indicam que este ano deve apresentar uma "leve piora" na comparação com 2025, e que o lucro só retorne a partir de 2027.
"Este plano vai além da recuperação financeira. Ele reafirma os Correios como um ativo estratégico do Estado brasileiro, essencial para integrar o território nacional, garantir acesso igualitário a serviços logísticos e assegurar eficiência operacional em cada região do país, especialmente onde ninguém mais chega. Vamos remodelar uma instituição centenária para que continue a cumprir sua missão pública em um novo mundo", disse Rondon, durante a coletiva.
Alternativas
Na avaliação do advogado trabalhista José Eduardo Pastore, o modelo de negócio dos Correios está totalmente defasado diante das transformações tecnológicas e mercadológicas das últimas décadas. "A expansão do comércio eletrônico e o avanço de tecnologias de vendas diretas mudaram radicalmente o setor de logística", destaca ele, que lembra do avanço das empresas privadas e transportadoras especializadas que se adaptaram rapidamente ao mercado brasileiro, com investimentos em automação, rastreamento em tempo real, inteligência artificial e integração com plataformas digitais.
"No entanto, os Correios não identificaram essas mudanças a tempo. A falta de modernização de sua gestão e operações resultou em um serviço ineficiente, caro e cada vez menos competitivo. A ausência de visão estratégica e o atraso no investimento em tecnologia comprometeram a capacidade da empresa de se reposicionar frente aos seus concorrentes", acrescenta o advogado.
Diante desses problemas estruturais, Pastore acredita que a única solução viável para manter a empresa atuante nos próximos anos seria a privatização, como se tentou durante a gestão do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, mas foi descartado na época e retirado do programa de desestatização do governo federal já sob a gestão do atual titular da Fazenda, Fernando Haddad. "Sem a privatização urgente e uma reformulação completa do modelo de negócios, os Correios continuarão a ser um peso para a sociedade. Se nenhuma ação contundente for tomada, em breve a situação sairá do controle, gerando um impacto ainda mais grave para os trabalhadores, para a economia e, no fim, para o país como um todo", comenta, ainda, o advogado.
Já o professor de Economia do Ibmec Brasília Renan Silva, considera que o plano de reestruturação é uma tentativa "ambiciosa e arrojada" de equilibrar as contas da estatal, que enfrenta um deficit anual superior a R$ 4 bilhões. "A experiência de outras estatais brasileiras, como a Eletrobras, mostra que planos de reestruturação podem ser bem-sucedidos quando conduzidos por uma gestão técnica e livre de interferências políticas", recorda o especialista.
No caso dos Correios, Silva acredita que será necessário uma execução rigorosa do plano para evitar que ele se torne apenas um 'paliativo'. "O setor de logística no Brasil é altamente competitivo, com empresas privadas como as "logtechs": Mercado Livre, Amazon e transportadoras locais oferecendo serviços mais ágeis e eficientes. Para que o plano funcione, os Correios precisarão investir em tecnologia e inovação, além de melhorar a experiência do cliente", emenda.
Demissões
Um dos pontos centrais do programa dos Correios para conter a crise é a demissão voluntária de 15 mil funcionários, que pode liberar mais de R$ 2 bilhões anuais para a empresa. Apesar de ser considerado um movimento importante para sanar as dívidas, a advogada especialista em direito trabalhista Elisa Alonso avalia que é necessário ter cautela. "É inegável que as despesas trabalhistas representam parcela significativa dos custos dos Correios e que a rigidez dessa estrutura dificulta ajustes rápidos diante das mudanças de mercado. Ainda assim, a redução de pessoal não pode ser adotada como solução isolada, nem implementada de forma abrupta", analisa.
"Do ponto de vista jurídico, dispensas em larga escala exigem negociação prévia com as entidades sindicais de Programas de Demissão Voluntária, quando bem estruturados, com adesão livre, incentivos adequados e transparência, tendem a reduzir conflitos, mitigar impactos sociais e conferir maior segurança jurídica à empresa", diz a advogada, que acredita que a eficácia dessa medida ainda vai depender de ser inserida em uma estratégia mais ampla de reorganização e modernização da empresa.
Como explica Marco Antônio Allegro, advogado especializado em direito empresarial, o trabalhador dispensado em um programa de demissão voluntária como o adotado pelos Correios deve ter seus direitos assegurados com base na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), na Constituição Federal e na jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Entre os direitos básicos adquiridos, estão aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, saldo de salário, férias vencidas e proporcionais, 13º salário, depósitos do Fundo de Garantia pelo Tempo de Serviço (FGTS) e multa de 40%.
"O descumprimento dessas obrigações sujeita os Correios à jurisdição da Justiça do Trabalho, com risco de condenações, juros, correção monetária, multas administrativas e eventual reconhecimento de dano moral individual ou coletivo, ampliando significativamente o passivo trabalhista da empresa", explica Allegro.
