
Empresas e consumidores norte-americanos foram os que pagaram a maior parte do custo econômico do aumento das tarifas de importações promovido, desde o ano passado pelo governo de Donald Trump. É o que revela um estudo do Federal Reserve Bank of New York.
O levantamento, assinado pelas economistas Mary Amiti, Chris Flanagan, Sebastian Heise e David E. Weinstein, aponta que, entre janeiro e agosto de 2025, cerca de 94% dos custos das tarifas foram repassados internamente. Nos meses seguintes, exportadores estrangeiros passaram a absorver parcela um pouco maior. Ainda assim, o repasse doméstico permaneceu em torno de 86%.
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"Esse resultado significa que uma tarifa de 10% causou apenas uma redução de 0,6 ponto percentual nos preços de exportação estrangeiros", registram os autores no estudo. Segundo o levantamento, após 2 de abril — batizado de Dia da Libertação —, a tarifa média de importação dos Estados Unidos saltou de 2,6% para 13%. Apesar de isenções e ajustes nas cadeias produtivas terem reduzido a tarifa efetiva, o impacto principal permaneceu concentrado na economia americana.
A pesquisa também identificou mudança nas cadeias globais de produção, com deslocamento de fornecedores da China para países como México e Vietnã. A análise considerou dados mensais até novembro de 2025 e comparou variações anuais nos preços de exportação com mudanças nas alíquotas tarifárias, controlando tendências globais e setoriais.
Bumerangue
Ao anunciar o tarifaço, Trump alegou que os Estados Uninos eram injustiçados por taxas de importação muito baixas, que deixavam o país deficitário no comércio internacional. Ele acabou por sofrer um efeito boomerang, com consequências negativas para seu próprio governo, contribuindo para a sua rejeição.
Pesquisa do Pew Research Center mostra que mais de 70% dos adultos nos Estados Unidos classificam as condições econômicas como regulares ou ruins, enquanto 52% afirmam que as políticas econômicas de Donald Trump pioraram a situação.
Diante da pressão econômica e da queda nos índices de aprovação antes das eleições legislativas de novembro de 2025 nos Estados Unidos, Donald Trump avalia reduzir parte das tarifas sobre aço e alumínio. Em 2025, as alíquotas chegaram a até 50% e passaram a incidir também sobre produtos fabricados com esses metais, como eletrodomésticos e utensílios domésticos.
Reportagem do Financial Times indica que integrantes do Departamento de Comércio e do escritório do representante comercial dos Estados Unidos reconheceram que as tarifas passaram a impactar diretamente o consumidor, elevando preços de bens de uso cotidiano. O governo concedeu isenções para alguns produtos alimentícios e firmou acordos pontuais, inclusive, com a China, para aliviar o mercado interno.
No Brasil, apesar da enorme lista de tarifas elevadas,o cenário é positivo. Trump anunciou em julho do ano passado uma tarifa de 50% sobre uma lista de mais de 2 mil produtos brasileiros importados pelos norte-americanos. Oanúncio foi feito por meio de uma carta endereçada diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um tom mais político do que econômico, em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mesmo assim, as exportações brasileiras alcançaram US$ 348,7 bilhões em 2025, superando em US$ 9 bilhões o recorde anterior, de 2023, segundo dados da Secretariade Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Secex/Mdic). Em relação a 2024, o crescimento foi de 3,5% em valor e de 5,7% em volume, percentual acima da projeção de 2,4% da Organização Mundial do Comércio para o comércio global.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou, na semana passada, que o resultado está associado à diversificação de mercados e a acordos comerciais firmados pelo país. Mais de 40 mercados registraram recordes de compras de produtos brasileiros, entre eles Canadá, Índia,Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega. “Chegamos a quase US$ 349bilhões, mesmo com o tarifário americano, o que mostrou como é importante diversificar mercados”, declarou Alckmin. Ele destacou os acordos Mercosul–Singapura, Mercosul–EFTA e Mercosul–União Europeia, que está em fase de aprovação no Parlamento.
Para Benito Salomão, professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (IERI-UFU), o impacto das tarifas norte-americanas sobre a economia brasileira foi limitado.
“A minha impressão é que o Brasil saiu maior dessa discussão do tarifaço do que entrou”, afirmou. Segundo ele, a postura do governo brasileiro nas negociações foi firme e levou à revogação de parte das tarifas sobre produtos considerados relevantes no mercado norte-americano. “Ficou claro que o governo americano teria que negociar porque são produtos essenciais do dia a dia do americano comum. Isso acabou resultando na revogação de muitas dessas tarifas, entre elas as mais simbólicas, como café e laranja”, disse.
O professor ressaltou que houve impactos setoriais onde o tarifaço ainda não foi revogado e que sentiram efeitos. No entanto, ele avalia que o impacto agregado foi reduzido. “Isso não chegou a ter nenhum grande impacto agregado para a economia brasileira. Quando conhecermos os dados do PIB de 2025, o tarifaço não deve aparecer entre os principais vetores de comportamento da economia naquele ano”, declarou.Para o professor de economia internacional da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Masimo Della Justina, "houve uma resposta inteligente, negociada e não alarmistas do governo federal junto com os setores produtivos e de comodities privados do Brasil que seriam afetados. Houve maior a diversificação do destino das expectações, busca de outros mercados e outros parceiros comerciais absorveram rapidamente um percentual das exportações brasileiras (comodities minerais e do agronegócio)".
Sobre o balanço do tarifaço até aqui para os Estados Unidos, Della Justina acredita que a ação do presidente norte-americano, "não funciona e é irracional economicamente e como estratégia de negociação, levando ao isolamento econômico, político, geopolítico e militar. O mundo é dinâmico e multipolar e todos os outros países têm outras opções. Por outro lado, não vale mais ter uma mentalidade industrialista; é preciso adaptar-se com o desaparecimento de alguns setores e seguir em frente diversificando para a área de serviços".
*Estagiário sob a supervisão de Edla Lula
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